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A Moita – Histórias [verídicas] da Aviação

A Moita é uma instituição.
Com M maiúsculo.

Os pilotos possuem seus sarcófagos, mas eles são oficiais.
A Moita dos mecânicos não.

A Moita é quase algo proibido.

Mas que ninguém ouse mexer ou tentar acabar com a Moita, se isso ocorrer a empresa aérea que o fizer estará fadada ao fracasso.

Depois desta breve introdução, o que seria a Moita?


Moita em Congonhas, com o Ítalo e o Turbofan descansando – 1991


Outro ângulo da moita, com Machadinho dormindo atrás do Bezerra

A Moita é o lugar onde você se esconde para não trabalhar. Sabe aqueles dias chuvosos em que chega um avião com três conjuntos de freio para trocar e no turno tem uns 10 mecânicos que evaporam e ninguém consegue encontrar? Então, eles estão na Moita!

Hoje em dia os termos mudaram um pouco, os mecânicos agora “voam”. Quando precisa trocar um freio e o chefe pergunta:

_”Cadê o fulano?”
_Ah, deve tá no FL três cinco zero! (ou seja, ta longe!)

Mas claro que existem as Moitas oficiais, estas fotos antigas que estão ai em cima mostram um pouco da Moita da Varig em Congonhas. Nos Estados Unidos também existem Moitas, mas o nome lá é mais pomposo: Break Room. Têm TV, jornais, revistas, vending machines… outro nível.

No Hangar 2 em Congonhas, durantes os anos áureos do Electra, a Moita ficava no canto interno esquerdo de quem olha para as portas do hangar. Era uma pequena sala com uma mesa, bancos de madeira e algumas poltronas de avião, com uma grade inteiriça na lateral para que alguém pudesse ver o que se passava lá dentro. A noite era comum as luzes ficarem apagadas.

Os mecânicos mais antigos tinham prioridade de ficar na Moita enquanto os novinhos ralavam pra aprontar a aviação para a manhã seguinte.
Quando havia “operação” (check B) nos Electras, a Moita ficava vazia, já que o volume de trabalho era enorme, e apesar de haver pessoal de manutenção de hangar e manutenção de linha separados, quando havia “operação” era comum o pessoal da linha ajudar o pessoal de hangar. Era raro acontecer o inverso.

Nos finais de semana não havia pessoal de hangar e nem todos os Electras eram necessários na manha seguinte, já que a ponte aérea reduzia muito os voos, então a Moita ficava povoada…e então começavam as sacanagens.

Quando surgia algum problema, o sistema de som do hangar (apelidado de “boca de lata”) chamava o mecânico para se apresentar na sala da chefia, e ai você já sabia que tava lascado enquanto os outros ficariam “de boa” na Moita.

Havia alguns personagens ilustres na Moita: os exímios jogadores de dominó Dito Macumba, Leonildo, Machadinho, Mãe Chica e Bezerrinha (que aparece na segunda foto de frente com o Machadinho dormindo ao fundo). Os jogos eram em dupla e vou te contar: era praticamente impossível vencer estes caras no dominó, e quando eles batiam “com as 4” pedras então, dava para se ouvir até da cabeceira da pista..hehehe.

As vezes Congonhas fechava por mau tempo e os Electras ficavam no Rio ou alternavam Guarulhos. Sem muita coisa para fazer durante a madrugada, muitos se ajeitavam nas poltronas da Moita para tirar uma soneca, mas esta era uma operação perigosa se você fosse novinho e no horário estivesse o mecânico Chaguinha.

O Chaguinha era um mecânico de chapeamento (trabalhava em reparos estruturais) e geralmente passava o turno dentro dos tanques de combustível do Electra, e por causa disso seu uniforme cheirava a QAV (hoje em dia ele anda com balão de oxigênio, pois sua saúde foi bem afetada por falta de uso de equipamento de respiração dentro de tanques).

Fora isso ele tinha uma característica física desproporcional: a sua língua era maior que a do Gene Simmons, e ele usava esta língua para o mal.

Por exemplo, se um novinho fosse pego dormindo na Moita com a boca aberta, logo chamavam o Chaguinha, que enfiava a língua dentro da boca do novinho, que acordava com as gargalhadas dos outros em volta e obviamente assustado e enojado (em tempo: Eu nunca dormi na Moita!).

Havia um outro lugar para se dormir, e neste eu dormi e me pegaram com sacanagem também.

Em frente a Moita haviam umas bancadas enormes que geralmente tinham uma morsa em uma das extremidades, que era coberta com jornal e servia como travesseiro (se existe algo mais ortopédico do que usar uma morsa como travesseiro me avisem). Então você deitava seu corpo sobre a bancada de madeira e tirava um cochilo (de preferencia de boca fechada). No inverno, por causa do frio gritante em Congonhas, só dava pra dormir com folhas de jornal por dentro do uniforme pra aquecer (jornal é isolante térmico).

Dormir em uma bancada de madeira com um bigorna ou morsa de travesseiro era reconfortante, mas as vezes você podia ser acordado com uns murmúrios estranhos….

Aconteceu comigo… certa vez ao acordar vi aquele monte de gente em volta fingindo que estavam rezando e umas velas acesas do meu lado… hahaha.. eles faziam velório com quem dormia nas bancadas, com requinte de vela e tudo. Depois passei a fazer parte da turma do velório, e a gente chegava até a cruzar os braços do morto (que dormia) sobre o corpo pra dar impressão de caixão mesmo…haha, que pena não ter telefone celular para fotografar nesta época.

Hoje em dia, a mão de obra é tão “eficiente” (leia-se enxuta) que é raro haver momentos de distração durante o dia, mas o pessoal da noite tenho certeza que ainda moitam por aí.

Foram bons tempos que renderam muitas amizades e muitas histórias…. tem a história do Zé do Caixão (o chefe do setor de aviônica da madrugada), a história do Electra mal assombrado, as vozes no hangar 3….mas esses ficam para um outro post :)

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
  • hahaha muito legal, esse Chaguinha deve ser uma comédia!

    Esses momentos de descontração da equipe são bons para o trabalho, mas tem que ser na hora certa!

    Eu já tinha lido no blog do Beto a parte dos sarcófagos, mas no hangar o pessoal devia sacanear muito hehehe

  • Ahahahahhaha gostei do velório ahahahahha. A hora que a gente se encontrar de novo, vou te contar sobre o Duende da Remota de SSA!

  • Paulo V. Villar

    Lito, Muito legal esse causo!

    Tudo muito educativo, com fotos e outros detalhes, mas preciso saber:

    No Dominó, o que é "Bater Com As Quatro"?

    rsrsrsrs

    Faltou este "detalhe"!!!

    Valeu!

  • Gêneses German

    Muito boa,

    Agora…. 22:23, vou para a Moita dormir! hehehehe

  • hahaha muito engraçado o relato.

    Com certeza, presenciar o Chaguinha, sacaneando algum novinho devia ser nojento uahhuahauhah.

    Agora, já é muito os caras fazendo que estão em um velório uhahiahiu.

    • Alessandro

      Cadê fulano? Tá no FL 350…kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk…

      Caramba!!! A lingua maior do que a do Gene Simon!!! Não sei como o coitado que era pego dormindo com a boca aberta e acordava com a lingua do Chaguinha dentro de sua boca não se engasgava!!!

  • Alessandro

    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK Bela historia! Confesso que gostaria muito de estar lá tbm com essa turma dos "moiteiros". No USA era "Break Room" e no Brasil foi "Broken Room" pois dormir na bancada com uma morça de travesseiro deve ser uma experiência única,e inesquecível que deixa qualquer um quebrado.Sem falar das sacanagens…várias…!

  • Ricardo Dias

    Chaguinha = Creeeeeeeeeeeedo!

    hAUAHUAhAUHauhaUah

  • Victor Medici

    HAHAHAHAHAAHAH

    Muito bom !!!

    Escapou do Gene Simmons Brazuca hein Lito !!!!

    Nossos profs tb contam umas histórias hilárias!!! rs rs

  • Lito, o Cegonha (Rogério) é dessa época????

    Se tiveres algumas "fichas" dele, conte aí….. o cara é o maior ficheiro por aqui…. só conta histórias dos outros… (auhauha)

    Abraço,

    Heinz Burda Filho

  • Voce tem ideia por onde anda este pessoal das fotos? E o Italo? Figura interessantissima… Com relacao ao Ze do Caixao do setor de Avionica, vou conferir, pois passei por maus bocados quando trabalhava ou era suborddinado a ele. Sei que teve um fim muito triste.

  • Máximo.

    Nossa, ri muito com essa historia.

    No exército usava esse termo moita tb, mais isso era para os cara que não se expunha, um cara neutro que não aparecia nem pra coisa boa nem cagada.

    No nosso quartel tinha a bateria antiaerea, quando o cara voava e alguem via ja avisava, se cuida com a antiaerea eim, ja toma uma rajada de .50 ou canhão 40 p fica esperto, hauahuah.

    Mais essa de o cara ta lá no FL3… foi boa, chorei de rir.

  • Máximo.

    Ah, o Lito, na 1° foto quem é o Turbofan, gostei do apelido…Turbofan! hauhauah.

    • É o da direita, por causa da abertura nasal rs

      • Máximo.

        ahuahuah, nem imaginava ser por isso.

        Igual a pegadinha do Musão.

        Venta de suvela!

  • Essas fotos não parecem ser fotos. Não tem um VHS dum passeio pela moita? Se tiver, põe um trechinho no tubo.

  • Generoso Ferrero

    Lito, em Gru a MOITA era considerado um lugar sagrado (para descansar)

    só que no meio da galera (mecanicos e técnicos), tinham os mais espertos, por assim dizer: eles fingiam que estavam lendo jornal e com uma seringa, cheia de água jogavam a água no colega dormindo e

    continuavam fingindo ler o jornal. O detalhe é que a seringa estava no meio do jornal, onde havia um furo para passar a água.

    Algumas vezes recebi uns jatos para ficar esperto e não dormir.

    Abraços

  • Rick

    Moitas: Tá ai um tópico que rende. Já vi gente dormindo em cima do motor de um 727, dormir dirigindo uma viatura em que todos os passageiros estavam dormindo (e a viatura parou no meio do mato com todo mundo dormindo), dormindo sentado em uma usina (gerador) que faz um barulho terrivel, dormir naquele onibus que fazia bate e volta GRU-CGO o dia inteiro e só acordar depois de umas 10 viagems, dormir em um porão eletronico e acordar com o avião taxiando (os berros de desespero na "motorola" foram hilarios)…

  • João da Luz

    Lembro de uma vez em GRU em que o Fininho e o Mello acordaram todos ensangüentados devido a uma trombada numa das estruturas de sustentação do saguão de embarque em GRU e ainda por cima tiveram que responder a um processo por danos ao estado devido ao estrago que a batida fez na mesma. Palavras do Fininho (nossa, eu acordei pensando que estava sonhando e era um sonho ruim com gosto de sangue na boca, qdo. vi nao era sonho era real).

  • paulo

    Boa noite Lito essa da moita é ótima pena que pouca coisa resta daquele hangar 2 da fundação rubenberta da barbearia so Sr Carmélo rss

    achei essa imagens em um blog e como sei que você é Electramanico estou passando o link http://fotolog.terra.com.br/jban:1813

    um abraço

  • Victor

    Não sabia que tinha a moita. E os chefes não faziam nada? Tô curioso para saber sobre essas histórias que você citou no final. Também gostei do apelido de turbofan.

  • Lima

    Pessoal pena que hoje em dia na Pista nao temos mais tempo nem pra ir ao banheiro, e mesmo assim o codigo de ética das empresas e muito rigido, uma destas liguadas hoje da até justa causa.

  • Jr Lisboa

    Lito, lendo o seu texto sobre “A Moita” da VARIG eu nao pude deixar de fazer esse comentario. Eu conheco e acompanho a sua historia a exatamente 29 anos, desde a escolinha e do Itapema! Lembra? Entramos juntos na VARIG, trabalhamos juntos, progredimos juntos e convivemos juntos ate hoje, sao quase 30 anos! Portanto, se tem alguem que pode ser testemunha da sua historia de sucesso, do seu carater e tudo mais, este alguem sou eu. Sobre a Moita da VARIG eu gostaria de acrecentar que eu particularmente frequentei todas as moitas da VARIG, a Moita do Hangar 2, A Moita da Eletronica, a Moita da Pre-instalacao, a Moita da secao de Rodas e Freios e todas as moitas existentes naquele complexo e eu me lembro de voce ter dormido em todas elas, inclusive e principalmente na do Hangar 2. Acho curioso que voce nunca tenha sido bulinado pelo Chaguinha! He! He! eu devo ter sido o unico novinho a ser batizado, nao e mesmo? Lito, abre o jogo!! ja se passaram 25 anos!! O Mae Chica tambem dava uns beijos na boca, Lembra? e voce por alguem tempo foi protegido dele! He!He!He!
    Vejo uma garotada comecando hoje e as vezes me pergunto como podem ter atitudes tao diferentes das nossas naquela epoca. Acho que falta a eles um Chaguinha, Mae Chica, Dito Macumba, Ze do Caixao e todos os outros personagens bizarros da epoca que apesar das sacanagens foram vitais na nossa formacao profissional. Grande abraco!
    Lisboa
                 

    • Hehehe, esse é meu amigo!

  • Jose Oliveira MAT 27830 VARIG

    Pois é…. tive o privilégio de iniciar minha vida profissional com esses caras aí, eu e minha turma vinda de BH da escola POLIMIG. Tenho muitas saudades dessa gente que nos ensinaram a ser bons profissionais e bons cidadãos. Obrigado pelos causos, pelas fotos e pela filmagem do velho ELETRÃO na manutenção noturna…. tô chorando agora!

  • Pingback: PP-VJN – O Electra mal assombrado e a história de um sequestro – Parte 1 « Aviões e Músicas()

  • Fabricio Batera

    Olá Lito, cara achei seu blog por acaso fazendo pesquisas sobre aviação na internet,e me amarro nos posts. Os do Electra na Africa são os melhores.
    Abraços e sucesso!

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  • Paul

    Moitas tem em várias profissões em `corujões`…eu mesmo qdo era operador de sistemas mainframe e fazia o turno das 23 hs ate 7 hs arrumava umas moitas qdo dava…mas tinha periodos que a moita era um tanto improvável…uma vez por mës tinhamos que imprimir os boletos para pagamentos, só uns 550.000 e naquela época 1992 eram várias cxs de formulário contínuo e uns 2 dias pra imprimir tudo em 2 impressoras matriciais tipo martelete sem parar…uma barulheira danada numa salinha de impressão…bom durante a impressão na madrugada eu juntava 2 ou 3 cxs e deitava em cima ao lado das 2 impressoras e conseguia dormir com aquela barulheira infernal…e ao contrário do que se espera, qdo uma delas parava de imprimir por termino do papel eu acordava….hahahaha…mais uma cx de formulário e voltava pra moita…hahahahaha

  • Santiago Vieira

    Ri muito com essa do velório!

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