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A perfeição existe!

“A perfeição existe!” Foi o que minha mente exclamou berrando apenas cinco segundos depois que ouvi pela primeira vez Ella Fitzgerald começar a cantar Summertime, na memorável gravação de Porgy and Bess com Louis Armstrong, de 1958. (Ella gravou Summertime dezenas de vezes, em versões completamente diferentes entre si. Todas são perfeitas!) E ainda sinto o mesmo choque toda vez que escuto qualquer, mas absolutamente qualquer coisa mesmo que Ella tenha gravado. Há muitos artistas que admiro e adoro de paixão. Mas Ella é a única que consegue me deixar completamente achatado, apalermado, sem saber como reagir, que emoção escolher para sentir. Porque com Ella o choque é duplo: não apenas tudo que ela fez é invariavelmente lindo por si só, como sou invadido por um sentimento de profundo mistério, sem entender como pode ser possível alguém ser tão absoluta e completamente perfeito em tudo que fez. Ella era perfeita cantando baixinho e intimista, assim como era perfeita soltando o gogó à toda, nos graves, nos agudos e em todas as gradações intermediárias.

Estou falando disto aqui (Ella entra só em 1:36, mas antes disso Satchmo dá o seu showzinho particular com o trompete junto com a orquestra na introdução e não dá para reclamar de jeito nenhum):

 

 

Eu sei, como toda boa artista, Ella não é para ser entendida, é para ser simplesmente sentida. Mas aí é que está: Ella tem o poder de botar esse paradigma em xeque, porque de onde vem essa inquietude que ela provoca, senão da incapacidade da mente de entender e processar algo que parece desafiar totalmente o senso comum, de que mesmo que seja preciso procurar muito, sempre se acha algum defeitinho, por menor que seja? Ella torna essa tarefa impossível. Nem depois que envelheceu e a voz foi junto, Ella ficou “ruim” ou mesmo “pior”. Apenas ficou diferente, o que só fez o planeta Terra ganhar, porque já tinha a jovem Ella gravada e ganhou mais algumas versões até ela se aposentar (porque quis – o público não queria!) aos 76 anos.

Não, não sou fã de jazz, embora até aprecie algumas modalidades, peças e artistas em especial. Muito menos sou entendido no assunto. Também não sei dissecar quantas oitavas Ella atingia (dizem que três inteiras), como era a técnica de scat dela, essas coisas que colunista esnobe de música adora colocar com um estudado tom blasé em suas resenhas, para sugerir que tem doutorado no Conservatório de Milão. Não estou nem aí para isso. Só o que sei é que cada frase musical que Ella entoava era uma coisa literalmente divina – não como um elogio bobo, mas no sentido de que a perfeição das harmonias celestes fluía da boca dela sempre que ela a abria para cantar. Cada décimo de segundo do som de Ella cantando, ao atingir seu ouvido e seu cérebro, produz um impacto diferente, da mesma maneira que um vinho absolutamente maravilhoso tem um gosto diferente a cada milímetro que avança na sua língua em direção à garganta. E você fica se perguntando como isso pode ser possível!

Também não é preciso sequer gostar de jazz para amar Ella. Embora geralmente identificada com esse gênero e tendo gravado e se apresentado com grandes expoentes do jazz, Ella transcendia rótulos. Ela era tão transcendental que no obituário dela, em 1996, o New York Times oportunamente observou que só mesmo ela seria capaz de, sendo uma mulher negra, levar músicas principalmente de compositores judeus (George Gershwin, Jerome Kern, Irving Berlin) a uma massa de brancos anglo-saxões protestantes e fazê-los se apaixonarem. Nem é preciso entender inglês – Ella poderia cantar em húngaro, guarani, swahili ou malayalam que daria no mesmo. Simplesmente, cada nota de Ella é uma broca de diamante – de nível de joalheria, claro, não de abrasivo industrial – perfurando sua cabeça dura e dando o recado: “você vai ter que aceitar uma coisa muito bela, quer queira, quer não!” Tão bela que chega a doer. É mais do que os neurônios dão conta de processar.

E o melhor de tudo é que basta ver como ela cantava para ver que, para ela, era fácil e natural – ela nem sabia fazer de outra forma. Ela dava as notas mais extremas para baixo e para cima sem nem franzir as sombrancelhas e ainda se divertindo, passando de uma para a outra como quem pisca um olho depois do outro. Escolhi Cry Me a River como exemplo porque é uma música que exige tons tanto graves quanto agudos, dependendo do trecho, e se presta tanto a interpretações mais cool quanto às mais dramáticas (vejam como Ella faz trechos das duas modalidades na mesma interpretação sem perder a coerência nem a unidade):

 

 

Mas falar que ela era capaz de dar notas extremas, apesar de ser verdade, é desviar a atenção para algo totalmente desimportante. Afinal, Billie Holiday foi outra cantora maravilhosa, mas que tinha recursos vocais limitadíssimos e uma amplitude de voz muito pequena – mas sabia usar extraordinariamente bem o que tinha. No outro extremo, Yma Sumac tinha uma das maiores amplitudes vocais jamais vistas (ou ouvidas), mas hoje é lembrada como uma rainha do kitsch, como algo um tanto cafona e até trash. Não, o que torna Ella tão especial não é o alcance da sua voz. Isso é apenas um detalhe a mais no todo e um bônus extra. Ella é especial porque só uma vez a cada 200 anos (se o planeta tiver sorte) aparece um ser humano como ela, capaz de ser tão invariavelmente perfeita no que faz, de não apenas ser sublime, mas servir de veículo para o sublime e empurrá-lo pela sua goela (ou pelos seus felizes tímpanos) abaixo de forma tão irresistível. Resistir é inútil: Ella tinha um pouco de Borg, assimilava você para outro universo, pela eternidade cósmica de cada nota musical.

Não confundam as coisas: não estou falando de perfeccionismo. Muita gente é perfeccionista, mas não era o caso de Ella Fitzgerald. Tomemos um exemplo clássico de perfeccionista: Akira Kurosawa, um cineasta que invariavelmente me fez babar em todos os filmes que fez (com a única exceção do quase banal Rapsódia em Agosto). Kurosawa era lendário por estourar todos os prazos e orçamentos, e exasperar técnicos e atores ao ponto de um colapso nervoso, de tanto que mandava refazer cenas interminavelmente até ficar satisfeito (e não eram só os atores: houve trechos da trilha sonora do brutalmente belo Ran que ele fez a Orquestra Sinfônica de Sapporo – uma das melhores do Japão – regravar 40 vezes!). Mas perfeccionistas, quase por definição, têm que se esforçar para conseguir o sublime. Ella Fitzgerald não era perfeccionista. Ella faz parte de um grupo reduzidíssimo de pessoas que já viveram, que inclui, por exemplo, Mozart e Michelangelo, para quem ser perfeccionista seria desnecessário e até sem sentido, porque a perfeição já era seu modo natural de existir, de respirar, de viver. Ella não soltava uma nota fora do lugar, nem uma que saisse do rumo certo da emoção, simplesmente porque não sabia fazer de outro jeito. Simples assim.

E acho que não deve ser por acaso que pessoas assim fogem tanto à norma do que a sociedade do seu tempo considera belo e desejável. Ella nasceu negra, pobre e feia, morou num reformatório porque não tinham vaga num orfanato, depois trabalhou de olheira (não como prostituta) num bordel e chegou a morar na rua um período quando jovem. Mas quando abria a boca para cantar, o mundo se lembrava de onde está a beleza e do que realmente importa. Essa é a maior mágica, o maior valor e a maior beleza da contribuição dessas pessoas: não só tornar mais tolerável a vida neste nosso planetinha sofrido, mas nos lembrar do rumo que devemos almejar seguir, o do belo, o do importante. É por isto que Ella é tão especial e tão imortal. Pessoas assim são tão raras que provavelmente não estarei mais neste mundo quando vier outra. Mas que venham. O mundo precisa delas.

Deixo vocês com Ella interpretando Dindi, de Tom Jobim (ela gravou um disco inteiro só com músicas dele e tinha-as sempre em seu repertório de shows), no famoso festival de Montreux, na Suíça, em 1979. Mergulhem.

 

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Sobre o Autor

Mineirim de BH exilado em Sampa, ex-informata, atual tradutor técnico, apaixonado por aviões desde o primeiro voo. Adora tititi de aeroporto, cheiro de querosene, barulho de turbina em decolagem. Sabe diferenciar um 737NG de um A320 passando pelo som dos motores. Frustração: não voou no Concorde (mas o viu pousar uma vez).
  • http://twitter.com/fernandoiecp Fernando Pinheiro

    Muito bom!!! 

  • http://www.avioesemusicas.com Lito

    Sublime texto Goytá, assim como o repertório :)

    • Goytá

       O texto, nem tanto, Lito, mas Ella está acima do sublime! :)

  • Lucas

    Excelente repertorio, mas Cry me a river eu prefiro o Bublé

    • Goytá

      Em primeiro lugar, o “repertório” é o de menos, porque eu não quis postar “repertório” nenhum; o que eu quis foi falar de Ella e dar alguns exemplos. Para se falar de “repertório” em se tratando de uma cantora tão versátil, seriam necessárias dezenas de músicas – e cada uma delas, por sua vez, poderia ter inúmeras versões completamente diferentes. Quanto a “Cry Me a River”, acho a versão do Bublé correta mas burocrática, sem sal nem emoção. Sem falar que ele é um bom cantor, mas novato na cena e ocasionalmente com uma perigosa tendência a resvalar além da indefinida fronteira entre o romântico e o brega.

      “Cry Me a River” tem várias versões infinitamente melhores que a dele, e talvez você não saiba, mas a música foi composta especialmente para Ella Fitzgerald… Só que era para ela cantar em um filme, e por preconceito idiota, os produtores cortaram, só por causa do verso “told me love was too plebeian”, que eles acharam que era culto demais para ser cantado de forma verossímil por uma negra… Por isso, acabou sendo lançada inicialmente e celebrizada por uma cantora branca, Julie London – tanto que muitos pensam que ela foi a origem da música. Mas realmente acho a versão “original” da Julie London extraordinária, um clássico e padrão de referência, suave, mas quente e sensual ao mesmo tempo (melhor apreciada na famosa e hilária cena da alucinação do bêbado em “Sabes o que Quero”, que vivia passando na Globo). Mas também adoro a versão da Diana Krall, que é outra cantora que eu amo, uma versão mais expansiva e dramática. E há muitas outras: Shirley Bassey, Dinah Washington, Natalie Cole, até Rita Lee já gravou (com um resultado sofrível, na minha opinião). A música tem quase 60 anos e nesse tempo todo já foi gravada tantas vezes por tanta gente feríssima que Bublé é literalmente “mais um” e não acho que se destaque de forma nenhuma.

      A versão de Julie London em “Sabes o que Quero”: http://www.youtube.com/watch?v=SwheXIa8Cl0

      A versão da Diana Krall: http://www.youtube.com/watch?v=S4hPii_RVHE

      • Lucas

        Eu ja não gosto tanto da Diana Krall, como gostos são diferentes.

        Eu acho que quando ela gravou Fly me to the moon, na qual era fantastica na voz do Frank Sinatra, me deixou um pouco perplexo, pois esperava mais, mas do mesmo jeito, cada um tem seu gosto, mas pelo menos a música em questão é boa e ambos concordam, e acredito que ambos desprezem o tchu e o tcha, e isso é o que vale, abraço

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