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A quem interessa o medo?

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Hoje na primeira página do UOL, fomos brindados com uma chamada interessante:

“Qual é o assento menos perigoso?” [em um avião]. Claro que o link já me fez levantar o sobrolho. Cliquei.

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Ao clicar na chamada, vemos o seguinte título do artigo:

“ESTUDO MOSTRA PARTES MAIS SEGURAS DO AVIÃO EM CASOS DE ACIDENTES” (sic)

Uma pesquisa elaborada pela revista Time baseada em dados da Agência Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA), mostrou que as fileiras do meio e da traseira de uma aeronave são as partes mais seguras para se viajar. O estudo foi realizado a partir de análises de acidentes aéreos com sobreviventes e mortos nos últimos 35 anos.Trecho do blog Airway

Uau, onde está este estudo que eu não fiquei sabendo? Preciso me informar melhor!
Porém, mesmo sem ler o tal estudo sei por experiência que o resultado está errado, e sabemos que números sempre podem ser manipulados não é?

Antes de criticar, fui ler o artigo original da TIME. Lá também consta o besteirol nos primeiros parágrafos, PORÉM, há um pouco de transparência na metodologia usada que faria qualquer um dizer: _ah, tô lendo besteira, vou parar.

This is based on a study of aircraft accidents in the last 35 years. TIME went through the Federal Aviation Administration’s CSRTG Aircraft Accident Database looking for accidents with both fatalities and survivors. We found 17 with seating charts that could be analyzed. The oldest accident that fit our criteria was in 1985; the most recent was in 2000.Trecho do artigo da Time

Aí está explicado que foi feito um estudo nos últimos 35 anos (o Blog sob o UOL menciona isso), e mais para frente explicam que apenas 17 gráficos de assento puderam ser usados. DEZESSETE acidentes serviram como base para vomitar este estudo ridículo e isto foi OMITIDO no blog do UOL. A TIME continua o texto DESQUALIFICANDO seu próprio argumento:

Of course, the chances of dying in an aircraft accident have less to do with where you sit and more to do with the circumstances surrounding the crash. […]. It’s for this reason that the FAA and other airline safety experts say there is no safest seat on the plane.Trecho do artigo da Time

Este trecho informa que obviamente as chances em um acidente tem mais a ver com o tipo de acidente do que com o lugar em que você senta, ou seja, a TIME derruba seu próprio “estudo” com classe. Esta parte do texto foi completamente omitida na versão do UOL e um trecho para causar mais “impacto” (sorry) foi adicionado:

Outros fatores que influenciam a sobrevivência na cauda traseira (SIC) do avião, como aponta a revista, é o fato do passageiro ficar distante dos motores e tanques de combustível, que costumam pegar fogo no momento do acidente.Trecho do blog Airway

O trecho sobre tanques de combustível e motores não encontrei no texto que serviu como fonte ao blog do UOL (talvez exista na versão impressa que não tive acesso).

A TIME finaliza assim:

But one thing is certain: Flying is very safe, and it’s only gotten safer in recent decades. This is especially true compared with other means of transportation. The lifetime odds of perishing in a car are 1 in 112. As a pedestrian, the odds are 1 in 700 and on a motorbike, they’re 1 in 900. But on a plane? The odds of dying drop to just 1 in 8,000.Trecho do artigo da Time

Faço questão de traduzir:

“Uma coisa é certa: Voar é muito seguro, e tem sido cada vez mais nas últimas décadas, especialmente se comparado a outros meios de transporte. As chances de perder a vida em um acidente de carro é de 1 para 112. Como pedestre, as chances são de 1 em 700 e em uma moto, 1 em 900. Em um avião? 1 em 8.000”.

Quase uma redenção ao besteirol de assento seguro, obviamente isto TAMBÉM foi omitido no texto do blog do UOL.

Sabe o que dói? É que muita gente vai ler o texto com chamada na home page de um dos maiores portais brasileiros e ser pessimamente influenciada por uma tradução de um “suposto estudo” que não possui nenhum valor científico e que é totalmente incorreto em argumento e metodologia. Não duvidem de um aumento nas vendas de assentos na fileira do meio na parte traseira, curiosamente, os mais desconfortáveis.

Não admira tanta gente ter que sofrer todo dia para voar com medo por causa dessa banalização de informações.

A quem interessa o medo?

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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