banner livro

A verdade sobre aeronaves “remendadas” com esparadrapo. Isso é gambiarra?

O leitor Fabricio Machado enviou ontem via Twitter um link contendo a notícia de um avião da Webjet que havia sido reparado com “esparadrapo” ou “fita isolante” conforme outro blog publicou.

Este “incidente” ocorreu em 3 de Junho de 2011, de acordo com matéria publicada também no Globo.

Aqui estão as fotos tiradas pelo passageiro Marcos Sketch cujo comentário no Globo foi:

O que me intriga é que, como disse um amigo meu, o Detran não aprova carros com o pisca-alerta quebrado. Então é natural a gente se preocupar ao ver um buraco desse tamanho

E então? Qual é a verdade sobre “reparo com esparadrapo”?

Os leitores do Aviões e Músicas já estão acostumados a ter aqui informações corretas, sem sensacionalismo e com embasamento técnico. O sensacionalismo fica por conta da imprensa que precisa vender notícias e a falta de embasamento fica por conta dos passageiros que não têm obrigação de entender coisa alguma sobre a lata de sardinha em que voam. Junte o leigo e a imprensa e temos um caldo de cultura para a desinformação.

Vamos analisar o seguinte: Você realmente acha que um técnico faria uma “gambiarra” com esparadrapo em uma aeronave que transporta 130 passageiros a mais de 850 km/h? E você acha que o piloto é também um suicida para coadunar com esta “gambiarra”? Ou acha que o piloto não sabe o que se passa com seu avião?

E a ANAC? O que tem a ver com isso? A ANAC aprova este tipo de coisa?

Vamos por partes então.

Primeiro, vamos ver o que a própria Boeing, fabricante da aeronave e que a conhece como ninguém, diz em seu manual de Dispatch Deviation Guide – CDL (Guia de Desvio de Despacho ou Lista de Desvio de Configuração) em relação a aquele “buraco” que foi tampado com “esparadrapo”:

Cortesia e propriedade da Boeing

O documento acima é produzido pela fabricante e usado como referência pelos operadores do modelo. É possível ver que com uma porta faltando, a penalidade de performance é INSIGNIFICANTE (Negligible) e que com até 4 portas faltando há um impacto na performance de decolagem e subida em rota em peso.

A fabricante da aeronave, durante a fase de testes de voo, verifica todas as condições que a aeronave poderá ser submetida durante sua vida útil, e uma dessas condições é voar com portas de acesso faltando e por isso há um manual que guia o operador [e a manutenção] para saber quais e quantas portas podem estar faltando em determinado lugar da aeronave.

Uma coisa que pouca gente sabe é que o fabricante publica os limites técnicos, no entanto os operadores sempre RESTRINGEM ainda mais este limite, não só pelo fator de segurança, mas por ser economicamente viável, ou seja, apesar de ser possível voar com até 4 portas faltando no strut, nenhum operador faria isto por causa da diminuição de peso de decolagem e subida assim como aumento no consumo de combustível, fazendo com que a operação se torne economicamente inviável.

Abaixo colo um texto de um documento de um operador de 737 que apesar de baseado no documento acima, RESTRINGE o defeito que permite que apenas 1 (UMA) porta esteja faltando:

DEFECT: NO MORE THAN ONE NACELLE STRUT ACCESS DOOR OR NACELLE STRUT BLOWOUT DOOR PER STRUT MISSING.
FLIGHT PLANNING RESTRICTIONS:
A. REDUCE TAKEOFF RUNWAY LIMIT AND PERFORMANCE LIMIT WEIGHTS AND LANDING PERFORMANCE LIMIT WEIGHT BY 100 POUNDS.
B. REDUCE ENROUTE LIMITED TAKEOFF WEIGHT BY 100 POUNDS
C. INCREASE FUEL BURNOUT BY 0.25 PERCENT
D. REDUCE ONE ENGINE ALTITUDE CAPABILITY BY 40 FEET.

Tudo bem até aqui?

Vamos voltar ao caso da Webjet. A fabricante da aeronave [em seu manual] não pede que seja colocado nada fechar o lugar da tampa de acesso que estiver faltando, no entanto, o que causaria mais “desconforto” a um passageiro leigo? Ver um buraco em cima do motor ou ver um reparo provisório com FITA METÁLICA?

Heim? FITA METÁLICA? Então não é esparadrapo nem fita isolante?

Não senhores leitores, a aviação não é tratada como um automóvel, por isso o DETRAN não apita nada aqui.

Eis uma foto da fita em questão que foi fotografada no avião da Webjet:

Isto se parece com esparadrapo ou mais com um pedaço de alumínio? Se chama Hi Speed Tape.

Uma fita do tipo “Hi-Speed” ao contrário de duct tape ou esparadrapo, é condutora de calor, possui alto poder de reflexão, resiste a degradação por raios UV, resiste a umidade e solventes e é resistente ao fogo além de suportar velocidades de mais de 1000 KM/h.

Só tem um problema: não pode ser usada para fazer reparos em buracos que tenham mais de 5 centímetros de diâmetro.

_OPA!! Então a Webjet não poderia ter usado o tape naquela porta faltando, ali tem uns 30 centímetros certo?

_ERRADO!! A Webjet não fez um reparo na porta que estava faltando, ela apenas cobriu o local com a fita para diminuir a “má impressão”.

O uso de hi speed tape é prática comum na aviação, é um método de reparo provisório para evitar entrada de umidade em painéis de fibra de carbono e os pequenos danos em áreas não estruturais, aprovado e certificado pelos fabricanets. Então leitores e viajantes, a próxima vez que embarcarem em uma aeronave e verem um “remendo” com fita metálica, não se preocupem, não é remendo nenhum, é apenas uma proteção temporária para manter a aeronave voando até a hora que ela puder parar para ser consertada definitivamente.

_Mas porque não conserta logo??
_Ora, você ia querer que seu voo cancelasse ou atrasasse seus compromissos por causa de uma portinha que nem faz falta?

_E a ANAC deixa?
_Claro! A ANAC não legisla sobre que tipo de reparo é feito nas aeronaves, ela só legisla para ter a certeza que o reparo está sendo feito DE ACORDO com que o fabricante determina.

E olhem, apesar daquilo parecer de longe com uma simples fita adesiva, acredite em mim, você não ia querer ter um pedaço dessa fita grudada no cabelo ou nos pêlos dos braços….hahaha

Estes reparos com fitas não causam “pânico” somente aqui no Brasil não, há casos em que a imprensa associa até o fato das passagens serem mais baratas ao uso de reparo com fita como neste link enviado pelo leitor Orlando, e uma busca pelo google sobre “hi speed tape” vai trazer vários casos reportados pela imprensa “especializada” internacional.

Fique bem informado e viaje tranquilo, leia o Aviões e Músicas :D

Update: Com tudo isto dito acima, o leitor Denilcarp relembrou bem: como passageiros, ninguém tem obrigação de saber tudo sobre avião, portanto se algo parecer estranho, informe sempre ao tripulante mais próximo, é a maneira mais segura de se comportar em voo :)

Tags: , ,

Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
Topo