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Acessibilidade, o caso da cadeirante em Foz, um resumo.

No dia 2 de Dezembro de 2014, século XXI, o maior país da América Latina, oitava economia mundial, nos brindou com uma notícia de uma cadeirante se arrastando por uma escada umedecida pelo sereno da madrugada.

Esta é a notícia do UOL: Cadeirante se arrasta por escada de avião
Esta é a foto:
Passageira deficiente subindo a escada se arrastando

O País é o Brasil.

O primeiro impulso após tomar ciência da notícia via Twitter, foi achar que era uma montagem. Mesmo porque eu já havia escrito sobre cadeirantes aqui mesmo no blog.

imagem de twitter do avioes e musicas

Mas infelizmente não era. Comecei a questionar, e recebi respostas no twitter, tanto da Gol quanto da Infraero, reproduzo abaixo:

Reprodução da nota da Infraero no twitter

Nota da GOL no twitter

nota da gol no site da empresa

Analisando friamente os comunicados, têm-se a impressão de que a Infraero não foi acionada pela companhia aérea e começou um jogo de passar o bastão. Por outro lado, a Gol informa que procurou alternativas.
A princípio seria muito fácil culpar a GOL, culpar a Infraero (que administra o aeroporto de Foz), teve gente que culpou até a própria cadeirante por não aceitar alternativas (estes não entenderam que não ter opção não é alternativa).

Esta é a resolução da ANAC em vigor:

Reprodução da norma da ANAC que rege a acessibilidade

Nada disso interessa. Todos contribuíram negativamente para o infeliz desfecho.

Assim como acidentes aéreos não melhoram a segurança da aviação ao se buscarem culpados, de nada adianta saber quem errou no episódio. É preciso pensar grande.

Dinheiro também não resolve o problema, isso é pensar pequeno.

leitores comentando a nota da GOL, dizendo que dinheiro resolve tudo

Pensar grande é aproveitar a lição aprendida com esse erro e mudar a sociedade para melhor. É entender que todos devem ter acesso a tudo. É cumprir a constituição. É ter uma, duas, três, quatro “stair tracs” ociosas prontas para uso quando forem necessárias.
Pensar grande é perceber que mais pessoas com deficiência não viajam de avião para não ter que passar por essas aberrações. Pensar grande é saber que em pouco tempo, o investimento nestas cadeiras “ociosas” retornará com mais cadeirantes viajando.

“Ah, mas temos tantos problemas para resolver, gente passando fome, corrupção e você preocupado com uma cadeira de rodas pra subir em um avião?”

Amigo, se você pensa assim, você é o verdadeiro deficiente.

Cada ação que for tomada em favor de qualquer ser humano, com qualquer deficiência ou orientação, reverte em benefício de todos.

Nós, como pessoas sem deficiência, não temos idéia da dimensão do que ocorreu. Por isso, deixo uma coletânea de tuítes que moldam a melhor definição que já li sobre necessidade de acessibilidade em um ser humano. O texto a seguir foi montado com os tuítes do @victorcaparica, um deficiente visual. É longo, mas vale cada centavo do seu tempo. Para ler o pensamento completo, a sequência de tuítes começa aqui. Ao final, a opinião da própria cadeirante.

[…]Imagine que por padrão todos os humanos nascem com asas e podem voar livremente. Legal, né? Mas isso causaria algumas mudanças estruturais.

Primeiro, se todo mundo voa então a entrada dos prédios não precisa ser no térreo, certo? Nem há porquê termos elevadores ou escadas, certo?

Segundo, se todo mundo voa então calçadas e ruas fazem pouco sentido, podemos usar o espaço pra coisas mais úteis para nós.

Só que nem todo mundo nasce com asas, porque como organismos somos diferentes, you know. Tem gente com asinhas muito pequenas, outros sem asas.

Tem as pessoas que têm asas, que nem você, mas que podem sofrer um acidente e perdê-las, não podendo mais voar.

Essa pessoa que sofreu um acidente não tinha deficiência nenhuma até ontem, era um humano completo, com habilidades, profissão e tudo.

Mas agora ela não pode mais entrar no prédio, porque sua empresa é no 11o andar e a entrada dela também.

O que quer que ele fizesse para ganhar a vida e contribuir com a produção social ele agora não pode mais fazer.

Não porque ele ficou incompetente ou menos hábil ou menos confiável no trabalho. Só porque a entrada é no 11º andar e ele não voa mais.

Isso vale pro trabalho, pra quando os amigos resolvem dar um rolê voando, pra quando vai todo mundo junto naquele cinema ótimo lá no alto

Agora, se em todos os prédios houvessem (imagine só!) elevadores e escadas, e nas ruas houvessem calçadas pra quem não pode voar.

Você, pessoa legal que perdeu as asas agora vai poder usufruir de privilégios como um emprego, poder andar nas ruas, poder ir ao cinema.

Porque apesar da sua LESÃO, que é algo biológico e seu, você não está mais vivendo a DEFICIÊNCIA, algo socialmente imposto.

De acordo com a OMS hoje são quase 15% da população mundial em pessoas com alguma deficiência. Quase 1 bilhão de humanos.

Por que é que você não vê uma em cada sete pessoas na rua com alguma deficiência? Por que é que na sua experiência o % não bate?
Porque os espaços públicos, das ruas aos shoppings, das escolas aos meios de transporte, não consideram quem não tem asas.

Aí fica meio difícil querer sair de casa, sabem? Porque a saída é sempre degradante, humilhante, cansativa até onde dá pra ser

Exemplo? Peguei o primeiro link que achei, posso pegar mais uns 20 se quiserem: http://is.gd/QAxOxF

Agora eu pergunto: Por que a pessoa quereria sair de casa pra passar por algo assim? Você sairia? Quantas vezes até cansar?

Daí não temos muitas pessoas com deficiência nos espaços públicos, e sabem qual a primeira conseqüência prática disso?

É que se aqui não vêm pessoas com deficiência, não faz sentido adequar o espaço pra elas, ué!

Então não tem pessoas com deficiência na sua faculdade porque ela não tem adequação, e ela não se adequa porque não tem demanda por isso.

Daí, o que resta, meus amigos, é um Inferno na Terra chamado “Assistencialismo”.
O Assistencialismo se sustenta na concepção de que a deficiência é uma dependência que precisa ser amparada em caráter de caridade. Para o assistencialismo a pessoa com deficiência é menor por definição e precisa de ajuda, não de condições de igualdade.
O que ela consegue é reforçar o domínio dos “normais” sobre o desvio da norma, reafirmando a importância de ser normal.

E é esse reforço que garante que, se a pessoa não se adequa à estrutura social, o ônus é dela, que deve ser enviada para assistencialismo.

Então eu além de não enxergar ainda tenho culpa pela sociedade pressupor que todos enxergam e devo agradecer por haver Assistência Social. A pessoa com deficiência então deveria ficar feliz porque foi dispensada de trabalhar já que o ambiente de trabalho jamais se adequará a ela.
É uma das inversões de lógica mais cruéis que existem, porque transforma minha diferença em assimetria e me define como menos pessoa.

Se muitas pessoas com deficiência precisam do assistencialismo é porque a sociedade se organizou de modo a colocá-las e mantê-las nele.

O que as pessoas com deficiência precisam é da mesma escola que seu filho sem deficiência teve, do mesmo acesso ao lazer e cultura.

Quando elas recebem essas coisas, incrivelmente conseguem ser e fazer tanto quanto qualquer outro indivíduo, às vezes até mais, sabem por que?

Porque pessoas com deficiência são por necessidade excelentes resolvedores de problemas. Porque nisso se resume nossa vida. […]@VictorCaparica

E o post da cadeirante em seu Facebook, mostrando a sua visão do ocorrido: Link

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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