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Acidente com um Boeing 767 da American em Chicago – Sem vítimas

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Claro que o titulo poderia ser: “Avião em chamas em Chicago, passageiros correm desesperados pela pista“. Ou ainda, “A passageira Emily relata os momentos de horror e gritos durante a evacuação para longe do avião prestes a explodir“.

Eu sei, eu poderia ganhar mais likes e compartilhamentos no Facebook de outra maneira, mas porque eu faria isso se a realidade é bem diferente do que a imaginamos ou lemos sobre ela?

Vamos aos fatos sabidos até agora – um Boeing 767 da American Airlines (N345AN), que havia chegado de Londres 3 horas antes e iria fazer o voo 383 de Chicago para Miami, abortou a decolagem quando os pilotos perceberam uma anomalia no motor direito. Quando a aeronave parou na pista, foi verificado que havia fogo no motor e a evacuação foi iniciada. Ao todo, 161 passageiros mais 9 tripulantes saíram da aeronave enquanto a equipe de terra dos bombeiros combateram o fogo.

É claro que é muito cedo para se especular qualquer coisa sobre o que ocorreu, no entanto não é cedo para reafirmar alguns pontos. Outro dia um cara comentou em um dos meus vídeos que eu sempre falo que avião é seguro, mas todo dia tem acidente – bem, eu não sei exatamente onde o comentador vive, ou que tipo de coisas ele lê o dia inteiro*, mas o fato de eu falar que algo é seguro não o torna infalível. A segurança está no fato de que, se os procedimentos forem seguidos, o número de vítimas tende a zero em caso de falhas.

[UPDATE]. *Suprema ironia, um Cargueiro da Fedex sofreu um acidente aparentemente no pouso e pegou fogo hoje também. Este explodiu alguma coisa no compartimento de carga depois de algum tempo pegando fogo.

Tivemos alguns casos recentes de falhas sérias em aviões comerciais que resultaram em número Zero de vítimas – como esse da Emirates por exemplo. O que diferencia estes acidentes sem vítimas com alguns do passado que deixaram centenas de mortos, é que lições foram aprendidas sobre o que deu errado e novos procedimentos surgiram para mitigar a possibilidade de perda de vidas.  O fabricante do avião é envolvido, as equipes de aeroporto são envolvidas, as tripulações, todos passam a seguir esses novos processos e o resultado só não é melhor porque o passageiro ainda não cumpre o mínimo que é requerido.

O seu bem estar a bordo depende de tão pouca coisa:

  1. Mantenha o cinto afivelado enquanto estiver sentado.
  2. Em uma evacuação DEIXE TODOS OS SEUS PERTENCES DE MÃO.
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Vários passageiros com mochila

Sempre sigam os procedimentos, eles existem para aumentar a SUA segurança e eu acabei de provar isso no parágrafo de lições aprendidas. Não tem nada mais importante na sua mochila do que os 90 segundos que o fabricante garantiu para o órgão certificador que seria capaz de tirar todos de dentro de uma fuselagem com apenas metade das portas funcionando. Outra coisa, se você comprou um assento na janela, mantenha a persiana aberta durante o pouso e decolagem! Algumas empresas não possuem o procedimento obrigatório de manter tudo aberto, e aí o cara vai e deixa fechado, um atentado contra ele mesmo – afinal, como ele veria que o lado dele está em chamas não é mesmo?

Quase explodiu?

Por que esse avião não explodiu? Eu sempre vejo nos filmes que até um carro a diesel explode, como um avião cheio de querosene não explodiu?

Ora, porque o que ocorreu hoje não era um filme do Michael Bay! Se fosse, teríamos não uma, mas três explosões fantásticas com destroços sendo jogados para todo lado enquanto passageiros se protegem com suas mochilas.

Mais uma vez a realidade é bem diferente da ficção, veja o vídeo abaixo e entenda porque não explodiu.

Ah, mas o Boeing 767 é velho, teve outro igual que pegou fogo em Fort Lauderdale ano passado

A idade de uma aeronave não é medida cronologicamente como a de outros seres, biológicos ou não. Para que você possa entender, um avião fabricado em 2006 pode ser mais velho do que um fabricado em 1996! Se o avião de 1996 é um desses grandes que passam o dia ou a noite voando entre continentes enquanto o de 2006 vive na ponte aérea Rio-SP, fazendo 8 pousos por dia, este último será considerado muito mais velho – pois a vida do avião é medida em ciclos estruturais, cada pressurização e despressurização equivale a um ciclo. Entendeu? Então não caia na falácia de que o 767, por ser um avião da década de 80, é velho – isso não tem nada a ver.

Da mesma maneira, não caia nas associações que vão fazer ainda hoje sobre este acidente com o da Olympic Airways que ocorreu em Fort Lauderdale em 2015 – a propósito, sem nenhuma vítima também..

Acidente com um 767 em Fort Lauderdale

Acidente com um 767 em Fort Lauderdale

Os acidentes não possuem relação direta, pois os motores usados pelas duas empresas são de diferentes modelos, sem falar que o da Olympic era um 767-200, e este da American é um 767-300. Mas já aviso que órgãos de notícias farão essa associação.

Quando ocorrem incidentes de certa gravidade, com qualquer empresa aérea, em qualquer parte do mundo, todos os detalhes são compartilhados com toda a comunidade de operadores daquele modelo – desta forma, um empresa aérea da Tailândia sabe se um operador do Havaí esta tendo um problema semelhante ao dele, e assim a COMUNICAÇÃO se torna um dos pilares da melhoria da segurança aérea para todos.

Vai ter conserto?

Tudo na aviação pode ser consertado pessoal, basta ter o dinheiro suficiente para isso. Trocar uma asa de avião não é algo como trocar um motor – isso envolve um custo tão espetacular que é muito mais barato comprar um avião novo. Então, quando alguém falar que “deu PT”, é simplesmente porque o conserto não é economicamente viável.

Asa direita comprometida

Asa direita comprometida

Aí estão os fatos que tenho conhecimento, agora é aguardar os relatórios para saber o que ocorreu e se é possível evitar que ocorra no futuro. E claro, aguardar o jornal da noite para ver as imagens e informações :)

 

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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