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#AirAsia Airbus A320, registro PK-AXC, voo #QZ8501 não chegou ao destino

Update 1: 28/Dez Clique aqui – O “non sense”da Fox News americana

Update 2: 29/Dez Clique aqui – Correção da última posição conhecida

Update 3: 30/Dez Clique aqui – Mapa das áreas de busca

Update 4: 30/Dez Clique aqui – Destroços encontrados

Update 5: 01/Jan Clique aqui – Vítima com colete Salva-Vidas e Jornal Nacional

Update 6: 02/Jan Clique aqui – Informação de transponder vazadas

Update 7: 10/Jan Clique aqui – Seção de cauda da aeronave recuperada do mar

Um Airbus A320 da AirAsia, que fazia o voo QZ-8501 entre Surabaya e Cingapura (horrível com “C”, mas em português é assim, fazer o quê?) não chegou ao destino e sumiu do radar por volta de 06:12 (horário local), já em plena luz do dia, com 155 passageiros e 7 tripulantes.

Você lerá (e verá) durante todo o Domingo especulações sobre o que pode ter acontecido e muitas, muitas comparações com sumiço do Malaysia MH370 e claro, também com o acidente do Air France AF447. Obviamente todos os “jornaleiros” vão esquecer que no caso do AF447 até disseram que uma mulher estava com o comandante, logo, para comparar direito vão tentar encontrar alguma mulher neste caso também. Pelo menos ainda não começaram a falar de patentes de semi-condutores e do grupo Carlyle e de George Bush.

Antes de prosseguir com os fatos, vamos tirar algumas perguntas do caminho:

Como pode, em 2014, um avião desaparecer dos radares?

Explicarei de uma maneira bem simples. Estamos em 2014 certo? Pegue seu iPhone ou seu Android e veja a localização deles no momento. Se você tem Windows Phone “segue, tem outras comparação” <<< isso é uma piadinha.

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Está vendo que lindo? Ali está a ÚLTIMA POSIÇÃO conhecida do seu device. Digamos que a última posição seja a sala de sua casa.
Agora saia e peça pra um amigo entrar em sua residência com um martelo. Seu amigo vai dar uma pancada só, e seu “Seis Plus” vai virar farelo (o Android ele não teria coragem de quebrar senão ia se ver comigo). Como sabemos como são os amigos, ele ainda vai pegar os farelos e espalhar em algum canto da casa, talvez até na piscina daquele amplo jardim.

Continuamos em 2014. Tente localizar seu device em sua casa agora. Não consegue mais achar? Estariam os farelos transmitindo sua posição para a Apple? Imagino que não. Agora transfira o cenário de sua casa para um oceano e uma ÚLTIMA POSIÇÃO CONHECIDA a 11 km de altura.

Entendeu como pode sumir?

Claro que os aviões possuem uma coisinha a mais que seu celular chamada ELT (Emergency Locator Transmitter), que em condições normais emite um “ping” em uma frequência determinada que alguns satélites “escutam”. A informação é “sou fulano e estou aqui”. Aqui onde? Para saber onde, outros dois satélites precisam ouvir o mesmo sinal, é feita uma triangulação do tipo GPS e então se localiza com precisão o emissor do ping. Além dos ELTs normais, as caixas pretas também emitem “pings” por até 30 dias. Um dos grandes mistérios do MH370 foi a ausência de pings de todos seus ELTs (mais uma pista de como ele pode ter ido parar no sul do oceano Índico).

A última revisão de manutenção foi a “X” dias

E daí mano? E daí? Esse é o tipo de informação que toda a imprensa gosta de passar logo após um acidente. Isto e a “data de fabricação” do avião, que possui “xcentos ciclos”.

Pense bem no valor da informação: xcentos – 1 ciclo e o avião não teria caído.
É isso?
Ou, data de fabricação – 1 dia do acidente = pode embarcar sossegado que hoje não cai.

Manutenção não vence como a data de validade do leite senhores jornalistas jornaleiros. Em casos específicos, quando COMPROVADAMENTE uma falha mecânica leva a um acidente, a manutenção efetuada em determinado componente passa a ter valor investigativo, pois uma das áreas da ciência de Fatores Humanos analisa justamente os erros latentes em manutenção (aqueles que podem causar um acidente muito tempo depois de terem sido cometidos).
Fora isso, a informação não tem qualquer finalidade. #fikadika

Você disse que turbulência não derruba avião, e agora que a imprensa está falando da tempestade?

Disse e repito.

Vejam como estava o tempo ontem na Indonésia no momento do acidente:

Amarelo é ruim. Magenta é péssimo. Preto é game over.
Peguei a imagem acima e fiz um “overlay” com a rota do avião de acordo com o replay do voo no Flight Radar 24. Ver update 2.

Rota do QZ8501 - route

Os aviões possuem radar a bordo, e no caso deste voo um dos últimos contatos dos tripulantes solicita um desvio à esquerda da rota, o que faz sentido, pois aquele núcleo preto ali a direita é como uma montanha de pedra, não se deve entrar com um avião.

O manifesto de carga e passageiros apresentado pela empresa (foram super rápidos, talvez para evitar as críticas sofridas pela estranha lerdeza dos malaios no caso do MH370) indica que havia mais combustível do que o normal para a rota, sinalizando que antes mesmo de decolar os tripulantes já sabiam das condições em rota e que teriam que desviar dos CBs. Até aqui tudo normal. Esses pilotos da Indonésia estão meio que acostumados com tempestades tropicais, então é preciso tomar cuidado com a informação de que 6000 horas de voo é pouco para um comandante por lá. Assistam a série “Worst Place To Be A Pilot” (thanks @Cardoso) e entenderão o que falo.

Imagem vazada de radar

Algo interessante na comunicação é que o piloto solicitou um nível de voo mais alto além do desvio à esquerda. Tendo decolado à pouco de Surabaya, não entendi a solicitação de nível 380. Aviões, em altas altitudes e com determinado peso, possuem uma faixa de operação bem restrita de velocidade: um pouquinho acima da faixa e você perde o controle, um pouquinho abaixo e o avião pode “estolar”(perder sustentação).

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Esta imagem, considerando que seja autêntica, mostra o desvio à esquerda da rota (a parte tracejada), a altitude 36.300 pés e subindo e a estranha velocidade de 353 nós (ground speed). Compare com o outro avião a esquerda (UAE409) e veja o GS de 503 nós (930 km/h contra 653 km/h). Ainda é cedo para especular sobre isso, mas será um ponto forte na investigação.

Perguntas sem respostas

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Por que os dados de radar e ADS-B foram interrompidos ainda em alta altitude?

Outros aviões voando no momento e na mesma área indica que havia uma boa cobertura de ADS-B. Uma perda repentina de sinal indica uma perda simultânea de vários sistemas elétricos redundantes ou falha catastrófica. Ainda que tivesse havido “inflight upset” pelo aumento de altitude, os sistemas continuariam funcionando até o impacto com a água (vide AF-447).

Vão dizer que a culpa é dos pilotos, mortos não podem se defender

90% dos acidentes aeronáuticos da atualidade possuem fatores humanos como principal fator contribuinte. Isto é fato.  Decisões erradas, de vivos ou [agora] mortos podem levar a acidentes, isto é um fato. A aviação continua sendo um dos meios de transporte mais seguros do mundo, isto é fato.

Depois de tudo isso, lembrem-se: somente a investigação final saberá e divulgará o que ocorreu. Até lá, tudo que for falado será meramente especulação.

A área do acidente está a 11 horas de fuso em relação ao Brasil, então nesta noite poderemos ter novidades sobre os “pings” do ELT e possíveis destroços. O único problema é que as ondas gigantescas no local por causa do tempo ruim não vão ajudar muito.

Faça um favor a si mesmo e ignore as “coincidências do G1“, o “ano negro” da aviação e outros superlativos que ainda surgirão até o horário do Fantástico.

Update 1: O “non sense”da Fox News americana

E a jornalista da FOX News soltou a pérola de que o treinamento de pilotos de outros países é “parecido” mas diferente, e isto pode causar acidentes, pois usamos sistema métrico, graus Celcius. Pela lógica dela, todos os aviões Russos estão caindo neste momento (tá, não é um bom exemplo). Vejam a barbaridade aqui.
Eu entendi o que ela na verdade gostaria de ter dito e não conseguiu. O treinamento dos pilotos (especialmente os militares) americanos é extremamente procedural e com foco em gerenciamento de crise (CRM). O melhor exemplo deste tipo de treinamento foi o “milagre do Rio Hudson“, que de milagre não teve nada. A comunicação, a separação de tarefas, as tomadas de decisão, tudo aconteceu “como manda o manual”. Há sem dúvida um componente cultural envolvido nos treinamentos, e foi isso que não conseguiram transmitir na Fox.

Update 2: Correção da última posição conhecida

O flight radar 24 não possui cobertura ADS-B na área em que o voo QZ8501 perdeu contato. Portanto, baseado em dados de transponder, esta seria a última posição conhecida, um pouco mais ao norte:

Captura de Tela 2014-12-29 às 18.55.51

Update 3: Área de buscas

Hoje é o terceiro dia de buscas, e o SAR (Search And Rescue) liberou o mapa das áreas de busca. Nada foi localizado e ninguém fala sobre a mancha de óleo avistada ontem. Como sempre, as informações daquela parte do mundo carecem de uma melhor transparência.
area de buscas

Update 4: Destroços encontrados

O SAR da Indonésia localizou os destroços da aeronave no mar de Java, aproximadamente 160 Km a sudeste de Pangkalan Bun. É possível reconhecer a aeronave, apesar de estar quebrada, o que “pode” indicar que não houve falha estrutural catastrófica em voo. A prioridade agora é recuperar os corpos para as famílias, o voice recorder e o flight recorder em seguida e se necessário para a investigação, retirar o avião. 2014 foi o ano em que menos ocorreram acidentes aéreos em toda a história, e o que for aprendido ao saber o que aconteceu de errado com este Air Asia vai fazer com que a cada ano no futuro tenhamos mais aviões voando e menos acidentes ocorrendo. Independente do que os chefes de redação “queiram passar” além de simplesmente noticiar.

Foto:  Bay Ismoyo/AFP

Foto: Bay Ismoyo/AFP

 

Gráficos muito, MUITO bem feitos pela agência Reuters, que não é imprensa especializada em aviação. Baseados apenas em fatos e estatísticas. Perfeito: http://graphics.thomsonreuters.com/14/airasia/index.html

 

Update 5: Colete Salva-vidas

Uma das vítimas encontradas pela equipe de resgate vestia colete salva-vidas de acordo com a MSN. Isto acrescenta um fato novo à investigação. Imagens de sonar aparentemente indicam que a fuselagem está em posição invertida no fundo do mar de Java, informa o The Guardian.

O Jornal Nacional da TV Globo transmitido no dia 30 de Dezembro de 2014 foi EXEMPLAR em sua cobertura. Sem sensacionalismo e com informações precisas sobre a segurança aérea. Tirei o chapéu e espero que indique uma mudança de postura na maneira de tratar os acidentes aéreos a partir de agora. Parabéns.

Update 6: Imagens do modo S do transponder

Neste Twit o usuárioGerry Soejatman mostra uma possível imagem vazada das informações do transponder no playback da tela de radar do voo QZ8501.
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A se confirmar esta informação da foto, a ground speed de 64 nós indica uma descida vertical com mais de 11 mil pés de razão de descida, muito similar ao que ocorreu com o Air France AF447. Ainda é necessário cruzar estas informações com as do Flight Data Recorder para entender o que causou a perda de controle do voo e principalmente qual era o ângulo de ataque e como estava a potência dos motores.

Update 7: Seção de cauda recuperada

As equipes de resgate conseguiram içar a cauda da aeronave, mas o Flight Data Recorder e Voice Recorder ainda não foram encontrados. A análise dos danos no material recolhido vai indicar em que condições a aeronave se chocou com o oceano.

O fundo do mar de Java é pantanoso de acordo com as equipes de busca, com o impacto as caixas pretas pretas se soltaram e podem estar enterradas no lodo, dificultando a audição dos pings e a localização por sonar.

Foto: AGENCE FRANCE-PRESSE/GETTY IMAGES

Foto: AGENCE FRANCE-PRESSE/GETTY IMAGES

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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