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Amor ou Paixão?

O feedback positivo dos artigos de memórias de um despachante me levaram a colocar no papel este: o que sentimos é AMOR ou PAIXÃO?

Esses dias tive uma turbulência verbal no trabalho com alguém que não é do ramo, e isso costuma me deixar chateado, pensando em exercer minha outra formação: Hoteleiro! Mas aí o que acontece? Estou dirigindo e no horizonte aparece aquela silhueta bem conhecida, não, infelizmente não é uma bela loira no horizonte, mas é algo meio gordinho, de asa alta, faróis na barriga, um par de conjunto de hélices, é o ATR… aí esqueço imediatamente hotéis, pessoas sem ser do ramo e fico apenas apreciando aquilo e a paixão se renova. Ou seria o amor?

Decidi então relembrar algumas cenas daquelas que nunca saem da memória ao longo desse período que gosto de avião e trabalho com avião, vamos a DEZ lembranças.

proteção-Criança

1. DESENHO NO JARDIM…

Eu devia ter 5, 6 anos quando desenhei um avião (esse desenho extraviou durante a vida), não era grandes coisas, mas sem sobra de dúvidas era um A300 (4 portas ao longo da fuselagem), com direito a caminhão escada na porta 2L… volto a frisar 5 ou 6 anos! Mas desde pequeno já tinha o meu avião favorito, o grande Airbus A300

2. CONCURSOS NO PRIMÁRIO

Ganhei 2 concursos de desenho no primário – o que hoje é vergonha, não pelo passado, mas pelo presente onde não consigo desenhar nada mais – um foi um 727-100 da VARIG decolando com um aeroporto ao fundo, outro foi um 767-300 sem bandeira. O 767-300 era uma imagem fixa na cabeça do RG300 que do meu bairro eu escutava aquele ronco do par de CF6-80 decolando lá no fundo e o avião saindo pelo litoral rumo norte para cumprir sua jornada até Manaus

3. ECOS DO DOIS DE JULHO

Nascido em Teresina, PI por conta de aviação, criado em Salvador, BA por “obrigação”, recordo de muita coisa no 2 de Julho, a mais forte sem dúvida era o movimento que havia pela tarde nos anos 90, onde chegava um 767 da TRANSBRASIL, fácil de decorar por suas asas, azul TAA, laranja TAB, verde TAC, um A300 da VASP – aí eu ia ao delírio e ai de quem falasse ao lado atrapalhando ouvir os motores CF6-50 e para fechar um DC10-30 da VARIG, cuja posição de estacionamento permitia a visão frontal por um portão de serviço lateral. Mais para frente levei meu pai para embarcar uma vez e vi um 727-100 da CRUZEIRO, 5 da manhã, logolight acesa, aquela pintura mágica. Sim eu vi aviões da CRUZEIRO com aquela pintura linda, vi os VARIG cores antigas, vi até algo raríssimo na Bahia no começo dos anos 90, o tal do FOKKER 100 de uma empresa pequena chamada TAM. A visão mais recente na memória é um Brasília da PASSAREDO.

4. BALÉ DOS CONTROLES

Uma vez vi um DC10-30 a noite, era da VARIG. Aquele avião imenso levava “horas” para acionar os 3 motores e me chamava atenção a sequencia de um balé, profundor para cima, profundor para baixo, aileron para cima, aileron para baixo, com direito a spoilers juntos e por fim leme pra esquerda, leme pra direita, isso ficou na memória e ficava chateado, risos, quando o piloto não fazia o check antes de iniciar o taxi, é bonito de assistir. Este procedimento é o Flight Controls Check!

5. RAIOS EM UM A300

Em Junho de 2002 fui e voltei a Recife (SSA-REC-SSA) no mesmo dia só para voar de A300, pressentia que o avião não iria durar muito (fato consagrado em 2004) e fui lá voar o grande francês, na volta consegui um jumpzinho e no meio de uma tormenta vi raios e mais raios, sentadinho no melhor assento de uma aeronave, aquele avião grande começou a ser manipulado pelo vento e o A/T trouxe as manetes para trás e aí aquele som único, fantástico ecoou na cabine silenciosa, Salvador apareceu completamente acesa, o avião vindo calminho para pouso e durante o taxi o vento simplesmente trouxe para meus ouvidos aquele som maravilhoso, de um par de CF6-50 no meu avião favorito, no grande amor que tenho na aviação. Saudades!

6. APERITIVO ANTES DA AULA

Quando fiz o curso de mecânico, a situação financeira era caótica e para fazer render a grana ia a pé diversos dias da semana, eram 4km de caminhada, assim viabilizava o retorno de ônibus onde a segurança pública deixava a desejar. O grande barato é que a VASP mudou um horário de vôo e o VP4190/4191 passou a ser no horário da caminhada para a aula e aí eu alternava entre ver pouso e decolagem na cabeceira 29 do Aeroporto de Ilhéus ou então ir ver a partida desde a sala do Aeroclube onde dava para ver o avião 100% de frente e o som era magnífico. Nas decolagens fui surpreendido por PP-SMA, PP-SMR, PP-SMS, PP-SMP com decolagem americana, lindo, espetacular, saudades do grande 737-200 e da sala de aula para ver o acionamento em dias de total silêncio no aeroporto (nada de GPU, outra A/C ao fundo, pessoas conversando, apenas o barulho do trator e posteriormente o acionamento do par de JT8D). Muito bom, até de casa dava para ver os 737 decolando, barulho ímpar, cenas que não saem da memória e nem sairão.

7. BIG BIRDS

Ainda pequeno, conheci um 747 da VARIG, não sei se foi um -200 ou -300, não estive no upper deck, mas ver aquele avião foi mágico, chegar ao trem de pouso dele e se sentir um nada, pois você olha pra cima e o avião não termina. Depois conheçi com calma outros grandes aviões: A340, A330, L1011 TRISTAR, DC10-30F, A300F, A310 e por fim um 747-300 Combi da TAAG, aí sim com direito a ir no upper deck, avião grande em tudo, muito lindo! Um 747 é contagiante, até que ficou marcado para sempre em uma passagem “trágica”. Sabe quando você acorda e decide não levar a câmera para o aeroporto? Pois é o dia que vai alternar um 747-400 da Lufthansa no lugar onde ele pousa uma vez no século. E aconteceu. A sorte é que a lenda viva do spotting baiano Carlos Doria estava comigo, mas mesmo assim quando vi que o avião ia demorar no pátio, peguei um táxi fui em casa e voltei com a máquina, custou 50 dinheiros, mas ver um 747-400 e fotografá-lo tem preço???

8. SMALL BIRDS

Comecei a gostar de aviões “pequenos” ainda criança ao ver um anúncio da NORDESTE LINHAS AÉREAS com um Brasília escrito assim: SIGA A ROTA DO BRASÍLIA! NLA – Nordeste Linhas Aéreas, era o PT-SRF, que inclusive trabalharia no meu primeiro dia como mecânico na OceanAir. Me arrependo profundamente em Porto Seguro de ter visto um Dornier 228 e não ter fotografado e nem entrado :(
Depois conheci um EMB110 Bandeirante, PT-SGM, gostei muito, comecei a tomar gosto pelos pequeninos até o dia que voei em um Britten-Norman Islander, PT-KTR na época operado pela AeroStar de Salvador, não esqueci mais e passei então a gostar de todo tipo de avião. Antigamente eu tinha preconceito, tinha que ser de 737 pra cima! E os vôos nos EMB120 da Passaredo, dos Fokker 50 da OceanAir só fizeram reforçar esse gosto pelo regional, pelos pequenos pássaros.

9. IMAGENS FRANCESAS

Desde pequeno tem a questão do amor ao A300, francês de Toulouse né? Quando saí de Salvador para Pampulha para assinar com a TRIP, não esqueço de na condução para o hangar, era noite, perto das 19 horas, quando vi um ATR decolar, aquele cenário da Pampulha, noite, frio, um avião decolando com beacons e strobes brancas ficou na cabeça, ficou para sempre, depois uma sequência de fotos que fiz em um pouso de um ATR, estava trabalhando no próprio quando apareceu outro na final e acertei a mão. As centenas de vôos feita nessas asas, tudo isso marca e fica para sempre! O som durante o taxi, o primeiro vôo para Cuiabá, de CGR para CGB a noite, achei Cuiabá pequena vendo pela janelinha do ATR, mas não era CGB, era Várzea Grande, não sabia que o aeroporto ficava afastado, os vôos no Norte nas asas do PP-PTK! Aviação te permite conhecer lugares, pessoas.

EDA - Foto ©Lito

EDA – Foto ©Lito

10. FUMAÇA JÁ

E claro não poderia terminar sem fazer menção a outra grande paixão: TUCANO! Ah, os T27, que vão deixar saudade agora nessa troca pelos A29. Ver a Esquadrilha da Fumaça é sempre algo mágico e assim foi em Ilhéus, Salvador, Pampulha e Lagoa Santa, o som, as manobras, o break já… o split, o desfolhado, o DNA, a formação, a troca de formação, a abertura, músicas, o talento, a perfeição! E.D.A é inspiração.

Agora pergunto isso é Amor ou Paixão? No final desse artigo olhei para os lados, pensei em amigos e amigas e conclui o seguinte, 90% das pessoas ao meu redor são de aviação, um par de grandes amigos que tenho não são de aviação profissionalmente mas gostam de corpo e alma, das amigas? Aí o caldo entorna: NENHUMA é fora de aviação. Das namoradas? As que mais duraram eram ligadas ao setor, as que bateram de frente com o avião, já não estão mais em meus braços! Minha variedade musical expandiu muito nos últimos tempos, a razão? 90% vem dos sets do Lito DJ ou então dos videos do Rodrigo Davi no Youtube. Uma vez uma mocinha ficou encantada com o meu carinho e conhecimento sobre algumas ilhas do Caribe e perguntou: Já foi lá? Conhece? Tem parentes? De onde vem o interesse? E eu respondi: Não, é que tem um aeroporto lindo lá (Saint Barth – TFFJ) e eu comecei a ler sobre a ilha e curtir ilhas ao redor dele :).

Acho que sei a resposta da pergunta não é Amor ou Paixão e sim AMOR E PAIXÃO, ambas lado a lado.

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Sobre o Autor

Alexandre Conrado, pesquisador de aviação e profissional no segmento desde 2001
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