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As aventuras com o Electra na Africa – “Causos” Parte 10

[ Continuação da Parte 9 ]

Apesar da ansiedade, o primeiro voo para Lodja foi tranquilo. O Grego/Zairense demonstrou ser um excelente piloto e era visível que isso acalmava o canadense Jim Carson.

A pista em Lodja era asfaltada (apesar de curta) e a aproximação foi toda feita com o GPS, que indicava os pontos de descida e os pilotos apenas indicavam a posição ao controlador (Vetoração radar no Zaire nesta época nem pensar).

Pouso padrão (o Greco/Zairense nasceu pra voar) e taxiamos até a rampa, onde faríamos a primeira escala e onde muita coisa ia ser descarregada. Apesar da pista ser asfaltada, a rampa era toda de terra e brita.

E este pequeno aeroporto tinha surpresas como a da foto abaixo:


Um Vickers Viscount (Mata-Cachorro) ainda operando em 1993, o comandante era um Texano aposentado gente boa que gostava de conversar e contar sobre o seu caso de amor com o Viscount

Não sei se dá pra perceber na foto, mas essa casinha atrás do Viscount é o aeroporto de Lodja. Se o aeroporto tinha toda essa estrutura, dá para imaginar como era o resto né?

Nosso ponto de parada foi ao lado deste Viscount e quando entramos no pátio a poeira subiu por causa das hélices potentes do Electra.

Após a parada no “gate”, ensinei a comissária a abrir a porta e descer a escada, o motor #4 estava virando para nos manter com força elétrica e o barulho do Allison 501-D13 invadia a cabine.

Olhei a paisagem do topo da escada e vi muitas pessoas aglomeradas na cerca que dividia a “área de rampa do aeroporto” da área dos passageiros. Uma cerca baixa e com alguns guardas tomando conta armados com cassetetes, provavelmente para evitar uma invasão.

Desci a escada para fazer minha inspeção, o Doctor Mayani e outras figuras saíram com umas valises e foram até o aeroporto tratar de negócios.

Uma equipe de ajudantes do próprio aeroporto apareceu correndo e colocaram uma escada na porta traseira esquerda e começaram a descarregar o avião “na mão”. Eles faziam uma fila, em que um passava ao outro uma caixa, bacia, etc, assim como os pedreiros fazem em construção e rapidamente a carga que iria ficar em Lodja ia sendo descarregada.

Vi vários ajudantes passando atrás do motor #4 correndo, com risco de se machucarem com o “blast” da hélice, para descarregar os frangos congelados do porão traseiro. Não havia nada que eu pudesse fazer pra evitar isso, apenas rezar pra não ver um acidente.

Não demorou nem meia hora e o avião tinha sido descarregado, ficando os tonéis de gasolina e caixas de utensílios plásticos a bordo, que seriam descarregados em Tshikapa.

O ar condicionado do Electra, que era do tipo “Ciclo fechado de Freon” dava muitos problemas, mas curiosamente o que estava neste avião (9Q-CDG que era o ex PP-VJU da Varig) resistia bravamente e mantinha a cabine fresquinha apesar dos 40 graus Celsius do lado de fora.

Durante os vários pousos que fiz em Lodja vi algumas coisas bem diferentes voando por lá, como esse ATL-98 Carvair, um dos bichos mais feios (tirando Beluga) que já vi voando.

E se ele era feio de boca fechada, olha só como ficava de boca aberta:

Depois de uns 40 minutos desde que desembarcou, o Doctor Mayani voltou e estávamos prontos para decolar e seguir para o primeiro pouso em Tshikapa.

Com todo mundo a bordo, fui recolher a escada e aí aconteceu algo inesperado (para mim): várias pessoas que estavam do lado de fora da cerca do aeroporto, pularam e correram em direção à escada que eu estava recolhendo. Os guardas com cassetetes corriam atrás dos invasores e desciam a pancada na cabeça deles.
Eu nunca rezei tanto pra escada subir logo, não estava entendendo o que acontecia.
Um cara conseguiu pegar na parte de baixo da escada quando ela já estava a meia altura e o atuador não coneguia recolher com a força que o cara fazia, e aí veio um guarda e o atingiu na cabeça com o cassetete.

Eu vi sangue voando. Não foi uma experiência boa….

A porta finalmente fechou. Eu tremia.

Decolamos e eu ainda nervoso com tudo que tinha acontecido, sentei ao lado e perguntei ao Doctor o que era aquilo que tinha acontecido, e ele me disse que a única maneira destas pessoas saírem daquele lugar era de avião, então sempre que tinha um avião por lá eles tentavam escapar de qualquer maneira.

Depois de acalmar um pouco fui até o cockpit conversar com o Ronald e saber se estava tudo bem com nossa máquina e ela estava muito bem. Quem estava no comando agora era o Canadense e na direita o outro compatriota, tendo o Grego/Zairense como observador.

Depois de um pouco mais de uma hora de voo, iniciamos a descida para Tshikapa de acordo com as indicações do GPS, já que nem estação de ADF aquele lugar possuia. Permaneci no cockpit pois queria ver como seria o avistamento de uma pista tão curta e de terra.

A descida foi feita seguindo as indicações do GPS, mas no ponto em que deveria estar o aeroporto havia apenas árvores.. e escuto o Grego falar assim pro Comandante:

_Tem alguma coisa errada, o rio deveria estar a nossa esquerda e estou vendo ele a direita.

Um calafrio me subiu pela espinha.

O grego/zairense começou a perguntar para o copiloto o que ele tinha inserido no GPS e acabou descobrindo que o cara tinha digitado as coordenadas erradas no GPS. Houve tensão na cabine entre eles e eu comecei a lembrar do 737 da Varig perdido na Amazônia, tudo isso em fração de segundos.

Ficamos voando em círculos por vários minutos com apenas esta vista da foto:


Tshikapa vista de cima

O desfecho poderia ter sido o mesmo do 737 da Varig e eu não estaria contando esta história se o Grego não estivesse a bordo, ele conhecia o terreno com a palma da mão e foi “vetorando” o comandante.
Depois de alguns circulos até que o rio ficasse da maneira que ele conhecia, apareceu Tshikapa na frente (ou alguma coisa que mais parecia uma clareira).

Foi um dos pousos mais emocionantes que jáa companhei de um cockpit (não só pelo fato de eu estar em pé segurando na cadeira do FE). Não da pra descrever aquela tripa de terra aproximando-se sem nada em volta e apenas o “feeling” do piloto para saber se está alto ou baixo.

E a nuvem de poeira subindo com o reverso aplicado? Inacreditável.

Após o pouso voltei para a cabine de pax e tirei esta foto que mostra um pouco o que era a pista:

[Na próxima parte falo sobre a inspeção de pós voo e o que encontrei de errado quando vi o Electra por fora]

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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