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As aventuras com o Electra na Africa – “Causos” Parte 14

[Continuação da parte 13]

A troca da hélice #2 no 9Q-CDG foi um evento épico.
Eu havia trocado muitas hélices de Electra quando trabalhei na Varig de madrugada no Hangar #2 de Congonhas, e era um trabalho que eu gostava muito de fazer, principalmente quando chegava a hora de fazer a união do cone bi-partido dentro do eixo.

Essa era uma tarefa realmente interessante e os mais velhos sempre aproveitavam para gozar os “novinhos”, mostrando como se montava o cone do lado de fora e depois dava as duas metades para que o novinho o montasse dentro do eixo. Era muito simples montar do lado de fora, era como se fosse um anel cônico partido em dois, bastava juntar as duas partes para voltar a ser um anel.

Depois de meia hora tentando montar o cone dentro do eixo, os novinhos desistiam e presenciavam os mais velhos colocar as mãos lá dentro e montar em cerca de 10 segundos.

Dava muita raiva porque ninguém ensinava como montar dentro do eixo, só tiravam sarro.

Até que um dia você aprendia que havia apenas uma única posição possível de montar o cone dentro do eixo e aí passava a ser o tirador de sarro..hehehe.

A foto abaixo mostra uma parte da empilhadeira e uma parte da ferramenta amarela que suportava o conjunto inteiro da hélice para encaixar no eixo do motor. O mecânico que aparece na foto é justamente o Dito Macumba, de quem já falei em outro post.

Electra da Varig Trocando Hélice

Voltando à troca da hélice, quando eu era bom nisso e pegava um cara bom de guiar a empilhadeira que sustentava a hélice para levantar até o eixo do motor, o processo inteiro durava duas horas e meia, entre a remoção completa da velha e a instalação da nova.

No Zaire iria demorar um pouco mais. Para começar, a Blue Airlines não possuía empilhadeira e não havia ninguém que pudesse emprestar uma. Mas eles possuiam um trator enorme (pena que não tirei foto e até procurei na net algo parecido e não encontrei) com dois “chifres” na frente e que era usado para fazer pushback.

O trator era meio parecido com estes usados para aplainar terreno ou remover neve sabe? Só que ao invés da pá na frente possuía esses dois chifres móveis enormes.

Então ficou decidido que usaríamos esse trator para remover a hélice velha e instalar a nova, tudo meio Magaiver (MacGyver), mas tinha que funcionar.

Felizmente todo o ferramental que precisávamos havia sido embalado corretamente pela Varig e estava a nossa disposição: A ferramenta principal de suporte, o multiplicador de torque, o protetor de rosca do eixo, etc.

Com a improvisação da empilhadeira, a instrução aos mecânicos e a improvisação com escadas e tudo mais, a troca da hélice demorou cerca de seis horas (ao invés das duas horas que eu estava acostumado), mas conseguimos.

Teríamos então que levar o avião pra um lugar remoto para fazer os testes de manutenção após a troca, e quem disse que conseguíamos? Tinha um avião russo na nossa frente e um outro atrás e ninguém tinha contato com o pessoal para que eles abrissem o caminho para fazermos o reboque.

E a noite foi caindo e acabou ficando tudo para o dia seguinte, sem falar que o 9Q-CDI tinha ficado pronto e iria fazer o voo de Lodja-Tshikapa, com nova tripulação (eu não sei onde estavam arrumando pilotos).

Na foto acima, o primeiro da esquerda se chamava Erick e era suíco. Atrás dele dois co-pilotos locais, depois o Ronald e o Greco à direita. Sentada, a chefe das comissárias da Blue Airlines.

Hora de voltar pra casa, e a volta era sempre outra aventura, não só por que era estranho ter um cara com fuzil no banco da frente, mas pelas coisas que víamos. Era muito difícil fotografar qualquer coisa por lá, as pessoas “nativas” não gostavam de ser fotografadas.

Quando eu tirei esta foto, queria mostrar o bebê amarrado nas costas da mãe, coisa comum por lá e incomum por aqui. Mas dá pra ver que imediatamente outra mulher já está abrindo os braços reclamando e gritando. Ouvi dizer que tinha algo a ver com a fotografia “roubando a alma” de quem fosse fotografado.


Na foto aparece também uma “propaganda” da L’eau Vive, que era a única água que eu bebia por lá.

O Zaire era um caos nessa época, e a lei do mais forte é que imperava.
Um exemplo disto foi num dia que precisávamos abastecer o carro.
Não havia combustível todos os dias nos postos, somente umas três vezes por semana havia gasolina. Nestes dias, formavam-se filas enormes de carros (kilômetros) para poderem abastecer.

Então, numa destas tardes voltando pra casa, eu e o Tarcísio no banco de trás, o chauffeur recebe uma informação pelo rádio (todos se comunicavam por rádio do tipo walkie-talkie da motorola) de que tem que abastecer o carro naquele dia no posto “X”, que tinha gasolina “não batizada”.
Ele avisa o cara que está de escolta e segue para o posto determinado. Ao chegar, entra passando na frente de todo mundo (furando a fila enorme).
Obviamente aconteceu um buzinaço e alguns saíram do carro pra reclamar e então o “escolta” saiu do nosso carro com o fuzil em punho apontando para os que reclamavam e “ordenou” que o frentista abasteça o nosso carro enquanto mandava os reclamantes calarem a boca.

Mais uma cena surreal que presenciávamos. Que lugar estressante.

Os carros lá eram velhos, muito velhos e em péssimo estado. E o cheiro de gasolina mal queimada que exalava deles era de enjoar. Eu lembro que várias vezes reclamava disso pro Tarcísio.

O tempo todo que passávamos fora do alojamento era de tensão.
Só havia paz dentro de casa, e ainda assim não muita, ja que o cozinheiro Angolano passou a reclamar que não tinha mais comida pra fazer (sem falar que ele cozinhava mal pra dedéu).
A geladeira realmente estava no osso e tanto o Doctor quanto o Bingwa , com o perdão da palavra, cagavam e andavam para nossas reclamações.

Eu, que já era magro, e não comia lagarta no aeroporto, quando chegava em casa tinha que me virar só com fruta e salada. Virei um palito.

Pra relaxar um pouco da tensão, pegava o walkman e umas fitas cassete com músicas dos Beatles e ficava caminhando em volta da piscina, a cada volta eu dava uma olhada no sapo morto em um dos cantos.


Foto do fundo da casa com a piscina em que morava o sapo morto

Conforme os dias foram passando, começaram a ocorrer algumas tensões entre nós também, tipo casa do BBB. Eu era jovem e tinha um futuro pela frente, o Ronald e o Tarcísio eram aposentados e aquele trabalho era, talvez, o último deles, então nossas perspectivas eram bem distintas e as discussões também.

Em uma coisa concordávamos: a posse dos nossos passaportes por parte do Doctor nos fazia sentir como se fôssemos “reféns”, pois não poderíamos sair do país se quiséssemos.

Não havia consulado ou embaixada do Brasil no Zaire naquela época, mas havia uma representação por parte de um secretário do consulado por lá, então combinamos que quando saíssemos em busca de comida para geladeira, procuraríamos este secretário para pelo menos deixar documentado que haviam brasileiros trabalhando por lá e sem a posse do passaporte.

Continua na parte 15

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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