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As aventuras com o Electra na Africa – “Causos” Parte 6


Foto de um Caravelle ainda em operação no Zaire em 1993

Ainda sem planos do que fazer já que o Electra estava “groundeado” por falta de tripulação, o Diretor (Mr. Bingwa) apareceu no alojamento e conversou comigo sobre a desistência dos pilotos e dos novos planos para operação do Electra.

Pagou um mês de salário adiantado (nunca tinha visto tanta nota de dolar junta), me fez conferir nota por nota com uma caneta anti-falsificação e informou que eu e ele seguiríamos para o Brasil dentro de três dias para trazer o segundo avião, mas antes ficaríamos uma semana em Johannesburgo (África do Sul), onde ele trataria de negócios.

Uma das minhas missões na volta ao Brasil seria encontrar pilotos de Electra no Brasil dispostos a voar perigosamente no Zaire em troca de um alto salário, além de fazer uma lista de peças que seriam necessárias para operar o avião isoladamente por vários meses.

Os três dias passaram voando, tamanha a vontade de voltar ao Brasil antes do planejado.

Me despedi do Tarcisio e do Ronald (o F.E.), que ficariam por lá e segui com o Bingwa pro aeroporto.

Na hora de passar pela imigração, o policial pegou meu passaporte e perguntou onde estava o certificado de vacina contra a febre amarela. O Bingwa disse ao policial que eu estava saindo do País e não entrando, portanto não precisava do atestado de vacina.
O cara da imigração se manteve irredutível e não me deixou passar, pois não havia o carimbo de vacina.
O Bingwa então tirou 100 dólares do bolso e deu ao agente federal. Na mesma hora ele carimbou o passaporte, sem perguntar nada.
Assim como na chegada ao país, a saída funcionou também na base da corrupção.

Era obrigatório despachar todas as malas, mas não havia esteira de bagagem no check in. Porém, em segundos, apareceram vários carregadores de tudo quanto era lugar, e de repente as malas sumiram sem qualquer controle.
Durante o embarque e antes de entrar no avião (um Boeing 727-100) você tinha que confirmar se sua mala estava no chão em frente ao porão de carga (para ter a certeza que ninguém roubou do check in até a aeronave). Depois de dizer qual era sua mala, eles embarcavam.

A ameaça de roubo era constante, então eu começava a entender o porquê de ter um cara com fuzil nos escoltando o tempo todo.

Entramos no avião de uma tal de Shabair, e estava um forno lá dentro por que o apu não funcionava.

Depois de todo mundo a bordo (e um cheiro horrível de pessoas suando lá dentro), teve início o push back (com as portas do avião abertas!!)
O taxi até a pista para decolar foi feito também com as portas abertas, eu não estava acreditando! (!!!! Pra diminuir o calor talvez? Ou pra não sufocar com o cheiro de sujeira? Será que pelo menos uma pack de ar condicionado estava funcionando?).
Quando já estavamos chegando na pista, as comissárias fecharam as portas rapidamente e correram para sentar.
Eu não tenho medo de voar, mas confesso que o registro fechou dentro daquele 727 acelerando até quase o final da pista sem sair do chão (e Kinshasa tem uma das maiores pistas do mundo).

Até chegar em FAJS Johannesburgo foram 3 escalas saindo de Kinshasa (a primeira em FZUA Kananga – a segunda em FZWA Mbuji Mayi – e a terceira em FZQA Lubumbashi ) . Em cada uma delas, o pouso foi uma senhora porrada no chão. Desconfiei que os pilotos eram sempre aprendizes, ou então não aprenderam a pilotar mesmo.

Começei a me arrepender de ter aceitado trabalho por lá, pois não imaginava que teria que ficar voando em empresas piratas.

Na aproximação para Johannesburgo (JoeBur), já noite a dentro e com chuva, o Bingwa me disse para tomar cuidado na cidade e deixar os pertences no cofre do hotel. Foi um bom aviso, afinal eu estava voltando pra casa com uma boa quantidade de dólares.

Joebur era uma cidade muito bonita, e com as ruas e carros parecidos com os de Londres (ônibus de dois andares, carros com volante do lado direito e mãos invertidas).
Um cara veio buscar a gente no aeroporto e falava muito com o Bingwa, mas eu não entendia nada (dialeto).
Fomos para um hotel de luxo no centro da cidade e o Bingwa me apresentou um piloto Zairense que iria conosco ate o Brasil, mas para isso eu teria que ir com esse cara ate Pretoria, onde fica a embaixada do Brasil, para ajudar a conseguir o visto dele.

A viagem ate Pretoria foi no dia seguinte, em uma lotação. Pretoria era ainda mais bonita que JoeBur, mas não tinha prédios altos, apenas casas de cor clara e muito espaço.

Depois de passar o dia resolvendo este assunto, chegamos em Joebur já de noite, e eu estava pensando em dar uma volta pela cidade no dia seguinte para comprar alguma lembrança para levar da Africa do Sul.

Somente no ultimo dia na cidade eu consegui finalmente andar só pelas ruas de Joebur. Levei comigo apenas uma pochete atravessada pelo peito embaixo do blazer (tava um frio de lascar em Joebur) com o passaporte, a carteira com cartões de credito e o filme com as fotos que eu havia tirado na Ilha do Sal.

Olhava as lojas procurando algo tipico pra trazer ao Brasil quando fui “enquadrado” por dois caras que me empurraram contra a parede com uma faca no meu estomago.
Eu só conseguia falar: “take it easy brother, take it easy”
Se eu tivesse falado: “Pelé, futebol ! talvez tivesse tido uma chance.

Cortaram a alça da pochete, tiraram o meu relógio sem que eu percebesse e em menos de 30 segundos saíram andando tranquilamente pela rua com minha coisas.

Felizmente eu havia seguido o conselho do Bingwa e tinha deixado o dinheiro no hotel, mas fora o susto eu fiquei triste demais pela perda dos filmes que ainda não haviam sido revelados, das fotos da primeira travessia e da escala na Ilha do Sal. Também não sei porque razão eu estava andando com as milhas licenças do DAC e carteira de motorista.

Agora eu precisava resolver como iria sair do país a noite sem o passaporte e como tiraria outro rapidamente, com visto do Zaire, a tempo de voltar com o segundo avião que já estava quase pronto.

Fui até um posto de polícia fazer um B.O. e como era difícil entender os policiais falando “Afrikans”, uma mistura de inglês e holandês com sotaque africano. Felizmente eu lembrava o número do passaporte que foi roubado.

A saída pela imigração com o B.O. foi tranquila (acho que assaltos eram constante por lá), e dnetro de pouco tempo eu já estava em terrítório Brasileiro: Sentado no upper-deck do Boeing 747-400 da Varig.

Continua na parte 7, vai ter fotos bem interessantes da operação no Zaire, coisas inacreditáveis.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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