Camiseta Electra

As aventuras com o Electra na Africa – “Causos” Parte 8

[Continuação da parte 7]

A segunda travessia ocorreu sem problemas até Kinshasa, na chegada o desembaraço com a polícia federal deles foi bem rápido (o dinheiro já estava disponível) e as muambas do Bingwa puderam ser desembarcadas.

Três semanas se passaram desde que eu havia partido, queria conversar com o Tarcísio e o Ronald para saber o que havia acontecido neste período, já que o Electra ainda não tinha voado por falta de pilotos.

Os pilotos Canadenses ficaram no mesmo condomínio que a gente, porém em uma casa separada.

Quando cheguei ao alojamento, meus dois amigos ainda estavam vivos, isso era um bom sinal. Mas eles contaram que a geladeira, que deveria ter sido abastecida semanalmente com comida, não estava sendo e eles tinham que se virar pra comprar comida. Isso não era um bom sinal.

Os novos planos da empresa incluíam voar o Electra dentro de no máximo dois dias, para isso o Bingwa pediu que entregássemos os passaportes para obter a documentação de tripulantes. Eu disse que não entendi o porque de tirar documentação de tripulante e ele me disse:
_Para que você possa ter livre acesso aos aeroportos que vamos pousar.
_Mas eu vim para dar treinamento para os seus mecânicos!
_Well, plans have changed, you have to fly now (os planos mudaram, agora você terá que acompanhar os voos).

Definitivamente isto não estava nos meus planos, mas era pegar ou largar (e os dólares adiantados já estavam no Brasil).


Sala de reunião

Nesta mesma noite tivemos uma reunião com o Dr, Mayani, Bingwa, um comandante Zairense que era o Diretor de Operações da Blue Airlines (DOBA) e a tripulação canadense.
Se a nossa documentação ficasse pronta no dia seguinte, o voo inaugural para Tshikapa com escala em Lodja seria no dia imediatamente posterior. Conversei com o DOBA sobre a mudança do peso e balanceamento do Electra após a remoção dos assentos e instalação dos paletts e ele me disse que já estava tudo calculado e certo.

Esse cara (que eu esqueci de anotar o nome) era um sujeito com inteligência acima da média. Era mestiço de pai grego com mãe zairense. Falava inglês e francês fluente mais os cinco dialetos do Zaire: lingala, suaíle, quiluba e kikongo, o que o fazia ter trânsito livre entre as várias tribos. Além dessa capacidade multilingual, ele decorou o manual de voo (Flight Manual) do Electra em duas semanas e iria pilotar junto com os canadenses no voo inaugural, além de voar o 727 e o Canadair.
Ele é o careca da foto e eu essa beldade gorda de 26 anos. Minha esposa diz que se tivesse me conhecido nesta época teria fugido..rs:

Durante a reunião meu interesse era saber como seria a operação em Tshikapa e Lodja, dois aeroportos com pista de terra e sem infra-estrutura alguma.

Convém lembrar que o Electra não possuía APU e para dar partida nos motores era necessário uma fonte pneumática.

Ele me disse que operariam como os outros africanos, após o pouso o motor #4 não seria “cortado” e manteria o avião alimentado de força elétrica e penumática.

Esse tipo de operação obviamente seria novidade pra mim, além de não ser nada segura, pois um bando de gente ia descarregar o avião, e um motor virando era convite pra uma catástrofe. Outra coisa, se desse uma pane no motor #4 como sairíamos de lá?

Perguntei sobre o abastecimento, já que não se poderia fazer abastecimento com o motor 4 virando (o painel de abastecimento do Electra ficava atrás do motor 3):

Não teria reabastecimento, decolariamos de Kinshasa com combustível para ir até Tshikapa com escala em Lodja, ficaríamos uma hora e meia com motor 4 virando nos dois aeroportos e depois voltaríamos para a base.

Desnecessário dizer que eu não fiquei muito confortável com a notícia…

No dia seguinte o documento estava pronto (o que o dinheiro não faz né?) e eu agora era F/E (flight engineer) de Electra no papel e os passaportes que entregamos não foram devolvidos com a desculpa de que eram necessários para outras autorizações.

Fui até o aeroporto para fazer uma inspeção de “diária” por minha conta e ver se estava tudo certo pro dia seguinte.

Na foto abaixo é possível ver a turma que eu trabalhava e tentava ensinar sobre o Electra:

O de avental branco a minha direita era o “memi xôzz ci uam tôrri” e ao lado dele o mecânico de motores.

Os três agachados eram eletricistas. O de bigode do meu lado esquerdo era aviônico e ao lado dele o cara de SD (sistemas diversos/hidraulista).

Ganhavam 40 dólares ….. por mês!

Alguns dormiam no aeroporto porque não tinham condições de voltar pra casa todo dia.
Este sofrimento dos outros a minha volta era algo que eu teria que enfrentar diariamente, e não seria nada fácil.

Na próxima parte eu conto (e mostro foto) de como encontrei o Electra para o voo inaugural para Tshikapa.

[continua na parte 9]

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Sobre o Autor

Um técnico com bom senso :) 28 anos de aviação comercial, de Lockheed Electra a Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
  • Rui

    Esse livro tá da hora, quantos capítulos serão? Já tá no Brasil?

    Falow

    • http://www.avioesemusicas.com Lito

      @Rui, estou em Las Vegas, depois vou pra LAX e SFO. Volto só no dia 22. Não sei quantos capítulos serão..rs.. acho que uns 15, é que começo a escrever e vou me lembrando de mais coisas.

      Abração

      • Paulo Cruz

        @Lito,Saudações Olha cara muito provavelmente nos vimos nessa Época de ouro da Aviação pois trabalhei na Vasp de na mesma época no corujão em CGO e tinha muitos Amigos na Varig rsrs mais até que na própria VASP pois sempre estava bisbilhotando por lá pela madrugada lembro de muitos causos tb Meus Amigos Ricardo Alvarenga Elétrica,Sr Carlos(Caveira)Hidraulísta eo Cmte Mancuso bons tempos e estou muito emocionado a cada capitulo que vc escreve e me lembro como se fosse hj o VJM deixando congonhas para nunca mais var, hj ja não atuo mais e estou em outro ramo mais as raizes deste tempo que não voltam mais nunca esquecerei boa sorte para vc nessa sua empreitada parabens e obrigado por compartilhar essa história conosco.

        Um forte abraço

        • http://www.avioesemusicas.com Lito

          @Paulo Cruz, o Alvarenga comentou hoje aqui no Blog também, tá querendo reunir a turma. Quando eu voltar de viagem vou criar uma lista de emails pra tentar achar o pessoal e você estará convidado.

          Um abraço

  • Ricardo

    Tomara que dure uns 1000 capítulos! Simplesmente fascinante essa experiência!

    Obrigado por compartilhar conosco!

    Abraço!

  • Paulo

    Muito bom!! Mas essa do passaporte hein?!

    Não passou pela sua cabeça de ficar preso como um "escravo"? Sinceramente eu não conseguiria dormir pensando nisso.

  • josé carlos

    Realmente são coisas simples mas muito interessantes os acontecimentos que vc viveu. Lembro-lhe que bem poderia escrever um "livrinho"…Guarde todo este material, um dia…quem sabe. Parabens e um abraço.

  • Neto

    Poxa Lito cada capítulo que você escreve há uma surpresa, impressionante o que você já passou hein;

    Continue escrevendo pois não vejo a hora de ler o próximo capítulo.

  • Paulo Scott Hood

    Lito . Estou acompanhando com muito interesse sua aventura na Africa . Quer saber, é tão interressante que acho que deveria transformar em livro incluindo mais detalhes do dia a dia dos ABSURDOS.

    Parabens pela mini serie.

    Paulo Scott

    São Paulo – Perdizes

    • http://www.avioesemusicas.com Lito

      @Paulo Scott Hood, minha esposa também acha que eu deveria escrever um livro, seria mais rico em detalhes do que o formato do blog… quem sabe um dia? Abraço Paulo.

  • http://www.facebook.com/people/Denilson-Carlos-Pereira-Carlos/100001484127335 Denilson Carlos Pereira Carlos

    DESGRAÇADO ! rs rs rs. Se eu for mal na prova a culpa é tua. Que porra de história é esta  que prende a gente e faz com que não consigamos parar de ler. rs rs rs

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