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As aventuras com o Electra na Africa – “Causos” Parte 9

[continuação da parte 8]

Cinco horas da manhã, banho tomado e já a caminho do aeroporto, com uma parada antes numa casa alugada que era usada para fazer a comida que seria servida no avião:

Menu: Pão francês com uma fatia de presunto e coca-cola em garrafa de 270ML.

Os sandwiches eram colocados dentro de uma bacia de plástico azul (dessas bacias grandes de lavar roupa). Em outras duas bacias foram colocados pedaços de gelo e muitas garrafas de vidro de coca-cola.

Partimos pro N’Djili International.


Vista da rampa de Kinshasa, com aviões amontoados nas taxiways

Ao chegar, vi que o Electra havia sido rebocado durante a madrugada para o local de onde sairia para o primeiro voo. E também vi que estavam carregando uns tonéis de 200 litros pela porta traseira, usando uma empilhadeira.

O que diabos teria dentro daqueles tóneis?

Perguntei pra um dos caras da manutenção “Qu’est-ce que c’est?”

_Gasoline

Quoi? Comment Ça?

_Gasoline

Quase caí pra trás.

Não respeitar qualquer regra ou procedimento aeronáutico por lá é uma coisa, agora transportar gasolina em tonéis dentro da cabine de uma aeronave está fora de qualquer senso de segurança que possa existir.

Subi pra ver de perto o que estava sendo carregado e quando entrei na cabine tive um baque. Uma foto vale mais que mil palavras:


Vista da porta traseira esquerda do Electra olhando para a frente do avião

Na foto é possível ver os tonéis amarrados na parte traseira e mais pra frente bacias de plástico e caixas com comida e utensílios. Percebam na foto também que até o porta-chapéu foi usado como espaço para carga. Não tinha nem como andar pela cabine, nem mesmo se precisasse descer o trem de pouso em emergência.
Pra ter uma idéia da quantidade de carga, do banheiro para trás não dava pra ver nada (os banheiros do Electra ficavam bem perto da porta de entrada dianteira (vejam neste desenho, logo atrás da escada no lado direito do avião)

Os porões de cargas estavam lotados de frango congelado.

Fiz minha inspeção de pré voo, fiz o sinal da cruz e fui conversar com o Ronald que seria o FE deste primeiro voo antes da decolagem. Pedi que ele ficasse de olho nos TIT’s (Turbine Temperature Indicators) e nos indicadores de HP (potencia), porque não havia como a gente ter certeza de que tudo que estava dentro do avião havia sido pesado de acordo, além dos tanques cheios de combustível pra ir e voltar sem abastecer.

O doctor Mayani apareceu, ele iria como passageiro no voo inaugural, além de outras figuras que o acompanhava.

Embarcamos e eu fiquei como responsável por ensinar a comissária a recolher a escada e fechar a porta, já que elas não sabiam nada sobre o Electra também.
Meu assento seria ao lado do Doctor.

Electra acionado, durante o push back olhei pela janela vi o Tarcísio acompanhando os mecânicos para ensiná-los a remover a barra de reboque.

Decolamos com Maximum Take Off Power (971 ºC de TIT) e lentamente começamos a subir. Talvez fosse só impressão, mas parecia um tijolo tentando subir, como se tivesse com peso muito além da conta.
Nesta etapa, o comandante era o Grego/Zairense e o copiloto era o Capt Canadense (Jim Carson). O outro copiloto canadense iria fazer a etapa de Lodja para Tshikapa ficando o Grego/Zairense como observador.

Após a decolagem, sento-me ao lado do Doctor e ele começa a conversar e me diz que está feliz que finalmente o Electra está voando pra ele, que ele vai lucrar 75 mil dólares só neste voo e que basta apenas cinco voos para o avião se pagar, depois disso cada voo será lucro e que minha função seria mante-los voando pelo menos mais de seis vezes.

Não entendi direito como um avião carregado de utensílios plásticos básicos e frango congelado e alguns tonéis de gasolina poderia gerar tanto lucro, mas depois eu captei qual era a jogada (vocês também vão entender mais pra frente).

A seguir, o pouso em Lodja e o primeiro pouso do Eletrão numa pista de terra e pedra e os estragos que isso acarretou.

[continua na parte 10]

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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