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As aventuras com o Electra na Africa – “Causos” – Última parte

[Continuação da Parte 15]

Demorou um pouco, mas aqui vai a ultima (e longa) parte da aventura na Africa. Uma versão mais longa e mais detalhada sairá em E-book algum dia :)

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E os dias foram passando, e chegou a hora de comprar comida e visitar a secretaria do consulado para denunciarmos a apreensão dos passaportes.

Os dias de folga eram raros e tínhamos que aproveitar e fazer tudo de uma vez.

O primeiro passo seria trocar dólares por zaíres (acento agudo no “í” – za-í-res). Como não queríamos pedir informações para o Doctor e queríamos fazer as coisas à nossa maneira, pegamos dicas com os mecânicos de onde trocar dólar pelo dinheiro local.
Nos ensinaram um lugar no centro da cidade, fomos até lá com o motorista e o escolta.
Parecia que estávamos comprando drogas, tamanho era o “esquema” para trocar as notas. Acredito que a troca de dinheiro na rua era ilegal, mas haviam vários “doleiros” e lugares de troca.
Decidimos trocar 100 dólares cada um de nós (300 no total).
Só havia um problema: A inflação no Zaire era muito maior que no Brasil (mais de 1500% ao ano) e eles não cortavam os “zeros” do dinheiro como nós fazíamos no Brasil.

O resultado:

Cada 30 centavos de dólar compravam 100.000 zaíres. As notas vermelhas acima são de 1.000.000 (1 milhão) de zaíres. Cada nota de 1 milhão valia portanto 3 dólares.
Na foto dá pra ver um saco de papel, que era usado como carteira pra poder carregar tantas notas ao mercado.

Pra vocês terem uma idéia, uma coca-cola custava 500.000 zaíres.

Imaginem a dificuldade de conferir o dinheiro na boca do caixa… a gente comprava uns quilos de carne (que era caríssima), leite em pó e mais algumas coisinhas e entregava vários pacotes de notas pra moça do caixa conferir.

Coisa de louco.

Esta saída de casa por conta própria até o centro da cidade nos fez ver um outro lado que não tínhamos presenciado ainda: apesar do país estar destruído, em alguns prédios havia comércio e inclusive vimos uma loja de passagens da Sabena. Pelo menos para a Bélgica poderíamos fugir se fosse preciso. (a Sabena voava duas vezes por semana com um DC-10 para Kinshasa, talvez por que o Zaire tenha sido colônia da Bélgica).

Descobrimos o local do escritório do consulado e conseguimos falar com o secretário. Explicamos toda a situação desde que saímos do Brasil, que estávamos trabalhando para o Doctor Mayani, que ele havia retido nossos passaportes, que não tínhamos comunicação com o Brasil, enfim, contamos tudo.

O secretário não foi de muita ajuda, apenas nos disse que o passaporte era propriedade nossa mas nenhum “crime” havia sido cometido ainda. Resumindo, ele anotou todas as nossas reclamações mas como não havia acontecido nada, nada seria feito, mas tudo seria documentado.

E os dias se transformavam em semanas, o calor não diminuía, não chovia, a saudade de casa apertava.

O terceiro Electra já havia chegado (o Tarcísio havia voltado com o Bingwa para fazer a travessia), era o 9Q-CDL , ex PP-VLC. Com somente três aviões na frota, não demorou muito para “canibalizarmos” o CDL para manter o CDI e CDG voando.

Tínhamos problemas constantes de instrumentos (RMI/CDI/ADF/VOR), de sistema elétrico (geradores/GCU’s/Porta Escovas), mas como que por milagre, o velho Eletrão continuava firme cumprindo as missões. Havia também mais tripulantes locais pilotando.

Confesso que aprendi a rezar muito antes de cada decolagem.

Passados mais uns dias, o comandante Carson pediu “baixa” e estava voltando para o Canadá junto ao seu co-piloto. Escrevi uma carta para a minha família e pedi que ele postasse ao chegar em seu País, seria minha primeira comunicação com o Brasil, pelo menos saberiam que eu estava vivo.

O Bingwa partiu para o Brasil para trazer o quarto e último Electra (era o 9Q-CDK, ex PP-VJU que estava ainda em fase de preparação para fazer a travessia, e traria um novo mecânico que, teoricamente, iria me substituir quando chegasse. (Era o Rogério, que já andou comentando em alguns posts atrás).

A falta de comunicação com o mundo era uma das coisas mais difíceis de suportar em toda essa aventura. Como eu não estava a serviço pela Varig (eu estava licenciado) não havia suporte a nada e o local mais perto que a Varig voava dali era em Luanda, capital da Angola.

Então, em um final de tarde após chegar de mais um voo, combinei com o Ronald de ficarmos um pouco mais de tempo no aeroporto pois eu queria fazer um teste usando o rádio HF do 9Q-CDG (que era o único que funcionava). Eu iria aproveitar o final de tarde para tentar chamar algumas estações de rádio que a Varig mantinha no Brasil (eu possuía as frequências das bases do Rio de Janeiro, Recife e Manaus).

Como as ondas de rádio de HF (High Frequency) se propagam “rebatendo” na Ionosfera e sofrem interferência solar, eu achava que nossas chances de sucesso seriam melhores no por do sol.

Tentei primeiro a comunicação com a “Varig Recife”, que era o ponto mais perto de onde estávamos:

_Varig Recife, Varig Recife. Electra PP-VJU chamando da Africa em check de manutenção, câmbio.

_ shshshhshshsshhshsshshsh

_Varig Recife, Varig Recife. Electra PP-VJU chamando da Africa em check de manutenção, câmbio.

_ shshshhshshsshhshsshshsh

Tentei por dez vezes, sem resposta. Eu sabia que o rádio estava funcionando porque havia o sinal de “tuning” ao pressionar o PTT.

Mudei a frequência para a Varig Rio.

Novamente 10 chamadas tendo apenas a falta de “squelch” como resposta.

Talvez não conseguíssemos falar com o Brasil dali. Talvez a antena de HF já não estivesse tão boa. Talvez não fosse um bom dia.

Mudei para a frequência da Varig Manaus, era a última frequência que eu tinha anotado em meu bloco de “macetes”.

Após a terceira chamada, ouvimos alguém com sotaque característico do norte do Brasil respondendo nossa chamada. Eu e o Ronald pulamos de alegria, era como se fôssemos náufragos fazendo um sinal de fumaça que finalmente havia sido visto por um navio.

A comunicação por HF era bastante precária (parecida com as comunicações PX que muitos amadores usam) e por dentro dos ruídos conversamos muito com esse rapaz de Manaus e pedimos para que ele entrasse em contato com o chefe de manutenção em Congonhas (o sr. Bastos) para que este entrasse em contato telefônico com nossa família e desse notícias de que estava “tudo bem” com a gente.

Depois de quase dois meses, foi a primeira vez que conversamos com alguém do Brasil, e bebemos muita cerveja para comemorar. Neste dia, eu e o Ronald também decidimos que já era hora de voltar, não ficaríamos os três meses contratados.

Não dava mais pra ver tanta miséria, conviver com a pressão constante de ser assaltado, a falta de segurança, a falta de procedimentos, as missões arriscadas transportando gasolina.

A cada pouso em Kinshasa depois das missões, eu agradecia a Deus e ao Electra por estar vivo. Tantas coisas podiam dar erradas todos os dias.

E eu cada vez mais magro.

Avanço rápido.

A decisão de ir embora estava tomada, depois de 60 dias no Zaire.
Eu e Ronald marcamos um encontro com o Doctor Mayani, que já deveria estar sabendo que iríamos pedir para sair. Os canadenses já haviam saído, faltavam os brasileiros.

O local onde o Mayani ficava lembrava um pouco uma favela de um morro carioca, não porquê fosse uma favela ou um morro, mas era um local sem asfalto e a casa (ou fortaleza, pois haviam vários sujeitos armados em todos os lados) era de bloco aparente, como se estivesse em construção.
A mesa dele ficava no andar superior da casa.
Subimos por uma escada cercada de seguranças.

Ele nos recebeu sentado, estava de roupa branca como um pai de santo.
Perguntou qual a razão da visita.

Nós dois dissemos que queríamos ir embora e queríamos acertar as contas e ter nossos passaportes de volta.

Ele contemporizou e disse que nosso contrato não estava acabado e que ainda teríamos mais 30 dias de trabalho para ele. Eu e Ronald dissemos que por problemas de saúde não poderíamos continuar mais.

Ele ficou extremamente nervoso e disse que não confiava em nossa palavra, que não queria mais a nossa presença por lá e que só confiava no Tarcísio (que havia decidido que ficaria no Zaire indefinidamente).

Falou com alguém que estava do seu lado na mesa e essa pessoa foi para o fundo da sala e trouxe nossos passaportes e vários pacotes de dólares e umas canetas para verificação de possíveis dólares falsos.

Ele nos mandou conferir nota por nota.

Pediu para outra pessoa redigir um documento que assinaríamos como recibo e outro documento que informava o controle de Imigração do Congo que estávamos entrando no País deles com uma quantia elevada de dólares.

Ele mesmo assinou a carta, que era semelhante a esta que reproduzo abaixo.

_Não quero mais ver vocês por aqui. Depois de amanhã as 6 da manhã o motorista vai pegá-los para trazer até o porto. Peguem a primeira barca para o Congo. O motorista entregará suas passagens aéreas de Brazzaville (capital do Congo) para Joanesburgo e seus documentos de saída. Em Joanesburgo procurem a Varig que seus bilhetes de volta estarão por lá.

Virou as costas e saiu. Nem um “obrigado” nos deu. Também não esperávamos por isso.

As informações que tínhamos desta barca que fazia a travessia era que havia muitos ladrões na área do porto, e que não poderíamos tirar o olho das malas nem um segundo. Que bom não é?

Voltamos para casa com o motorista e sem escolta (o contrato havia acabado e a proteção também), pois tínhamos que arrumar as malas (e minha caixa de ferramentas que ainda estava no aeroporto) e nos preparar para passar a última noite no Zaire no dia seguinte.

Com a preocupação de não sermos assaltados na barca durante a travessia, eu e Ronald resolvemos fazer algo que hoje vai soar engraçado por causa de um certo deputado preso em Congonhas há um tempo, mas que na época foi a única coisa que pensamos.

Passamos a noite costurando uma cueca na outra e colocando a maioria dos dólares por dentro, como se fosse um forro. Dólares na cueca.

Tentamos convencer o Tarcísio a desistir de ficar por lá, agora sozinho, ele se recusou e disse que gostava de lá, e no fundo eu entendia as suas razões.

O ultimo dia transcorreu normalmente, o Tarcísio foi acompanhar o voo e eu e Ronald nos despedimos de todo o pessoal da Blue Airlines. Peguei minha caixa de ferramentas e voltamos para o alojamento, nossa estadia estava para terminar.


Tarcísio fica só em “Mon Fleurs”

Não consegui dormir a última noite, depois de tanta pressão e stress, era como se alguém fosse entrar ali no alojamento e pegar nossas coisas para ficarmos para sempre por lá.


Carta que nos deram quando da retenção do Passaporte

Na manhã seguinte, no horário combinado o motorista apareceu. Nos levou até o porto e fizemos a imigração de saída do Zaire. Eu carregava uma caixa de ferramentas pesada em braço e uma mala de tripulantes no outro, negando pedidos de ajuda por parte dos carregadores que apareciam de todos os lados.
Talvez fosse um medo irracional, mas era o que sentíamos, desconfiávamos de tudo num país à época movido à corrupção e subornos.

A travessia de barca era de pouco mais de 4 quilômetros.

E então, depois de dois meses e cinco dias no Zaire, no dia 25 de Agosto de 1993, pisamos finalmente em Brazzavile, na República do Congo. Um país de colonização francesa e que não tinha os mesmos problemas ditatoriais do Zaire nem a hiperinflação.
Como tínhamos a passagem para o dia seguinte comprada e em mãos, não tivemos problema em entrar no Congo.

Pegamos um taxi para um hotel perto do aeroporto, passaríamos a noite por lá, o voo no A300 da Air Afrique para Joanesburgo seria na manhã seguinte.

Somente quando entrei no quarto do hotel um pouco da pressão sobre os ombros diminuiu.
E eu dormi para que a manhã seguinte chegasse mais rápido.

Partimos logo cedo para o aeroporto, uniformizados como pilotos e sem os dólares na cueca. Embarcamos na Air Afrique e pelo fato de estarmos de uniforme, a comissária nos ofereceu dois assentos vagos na classe executiva. As coisas pareciam que finalmente estavam dando certo.

Chegamos a Joanesburgo por volta de 10:00hs da manhã depois de quatro horas de voo e fomos direto para a loja de passagens da Varig, onde pegaríamos nossos bilhetes para São Paulo no voo da noite, que saía quase uma da manhã.

Ao nos identificarmos para a agente que trabalhava na loja e contar sobre nossas passagens reservadas, ela nos disse que não havia qualquer passagem por lá, nem mesmo qualquer reserva no nosso nome.

Estávamos tão perto, e ao mesmo tempo tão longe…

Eu já pensava em usar os dólares recebidos na missão para comprar a passagem de volta, pois a única coisa que queria era sair dali. Mas nem sabia como ia conseguir um GC ali naquele lugar (GC era um código usado pela Varig para emitir passagens com desconto para seus funcionários)

Mas tivemos uma idéia melhor. Pedi à moça para usar o telefone e ligar para a Varig no Brasil e felizmente consegui encontrar o Sr. Bastos em Congonhas. Expliquei toda a situação para ele, e que teríamos que voltar naquela noite (o voo da Varig vinha de Hong Kong e operava somente três vezes por semana) e o que ele poderia fazer por nós.
Foi então que ele disse que o Bingwa estava por lá para levar o quarto avião, que deveria sair no dia seguinte.

Eu lembro de ter falado para o Bastos: Por favor, tire algum equipamento do avião, não deixe que ele decole até que o Bingwa se comprometa a pagar pela nossa volta.

E assim foi feito, nós compramos uma passagem de retorno com a promessa de que o Bingwa faria o reembolso quando chegássemos no dia seguinte.

Entrei em território brasileiro na hora em que pisei no Boeing 747-400 da Varig, não sei nem descrever a sensação que tive. A Varig era o pedaço do meu Brasil ali naquela terra distante. As doze horas de voo que tinham pela frente era só mais um detalhe.

Nesta época, a Varig mostrava um filme do Brasil pelos projetores quando se iniciava a aproximação para o pouso.
Era um filme que mostrava imagens do Brasil, da Bahia, das caravelas de Fortaleza, Do pão de Açucar, da Praça da Sé… e eu chorei quando assisti.

Eu havia cumprindo minha missão, muito além do que um simples obrigado poderia supor.

Há tantas pessoas que saem do Brasil para sua primeira viagem internacional, para Londres, Paris, New York, e voltam reclamando de como o Brasil é ruim.

A minha primeira viagem internacional foi para o Zaire, e eu voltei chorando de saudades de como o nosso país é maravilhoso.

Apenas três anos depois eu já era funcionário de uma empresa americana, podendo voar para qualquer lugar, e sempre que estou fora, não interessa o lugar, tenho a certeza de que, mesmo com todos os problemas, melhor que o nosso País não há.

Notas:
O 9Q-CDG (PP-VJU), que me proporcionou a primeira comunicação com o Brasil via HF, caiu em Kinshasa no dia 13 de Março de 1995, durante o pouso, sem vítimas fatais. Perda total.

O 9Q-CDI (PP-VJN), de quem guardo a plaqueta de identificação, caiu em 08 de fevereiro de 1999 após decolar com 6 toneladas acima do peso máximo e ter perdido o motor #3. Não havia copiloto neste voo, o F/E estava no assento do copiloto e um mecânico estava no lugar do F/E. Não houve sobreviventes.

O 9Q-CDL (PP-VLC) foi totalmente canibalizado para venda de peças a outras companhias e está abandonado no aeroporto de Kinshasa.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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