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As aventuras com o Electra na Africa – “Causos” Parte 3

22 de Junho de 1993 – Ilha do Sal

Após passar pela imigração da Ilha, que obviamente estava deserta aquela hora da noite, seguimos para o hotel (distante 20 minutos de carro do aeroporto).
A estrada era um breu só, não dava pra saber se estávamos passando por uma floresta ou por um deserto.

Chegamos no hotel que era bastante simples, estilo pousada. Uma coisa que me chamou a atenção foi a água que saía da torneira, praticamente “salobra”, densa, e com um gosto meio salgado (será que o nome da ilha veio daí?).

Acordei as 8:00hs da manhã (07:00 GMT) e ao sair do quarto, a maior surpresa: A ilha era um verdadeiro paraíso!

Toda aquela escuridão que eu vi a noite se transformou em areias claras e água azul turquesa límpida como cristal.
Acho que devido ao difícil acesso à ilha, estava tudo deserto, na faixa de praia inteira tinha apenas um sujeito atirando com arco e flecha em um alvo, e vários veleiros numa marina próxima.

Tirei varias fotos e o que mais me impressionou foi sem duvida a cor da água, muito mais transparente e azul do que em Natal, é como se você visse o fundo do mar através de um topázio.

Juntei-me ao resto da tripulação que acordava e fomos tomar café (o pessoal da ilha fala português, pois são açorianos, mas era muito difícil entender alguma coisa, era mais fácil comunicar em inglês).

O café foi simples como o hotel (de frutas só tinha banana, maçã e laranja), e eu tomei um suco que não consegui descobrir o sabor, mas era delicioso.

Seguimos para o aeroporto em seguida, nem deu para descansar um pouco ou ver o resto da ilha. No caminho deu para ver como a ilha é deserta, e tem vários bancos de areia (dunas).
O motorista disse que essas dunas (e a ilha inteira) foram formadas pela areia que é trazida pelo vento do deserto do Saara.

Passamos pelos procedimentos de alfândega e decolamos as 10:50hs (hora local), o Electra estava se comportando muito bem apesar do vazamento constante na hélice do motor 2.

Estávamos seguindo para Abidjan, a última escala antes de chegar em Kinshasa no Zaire. Eu continuava um pouco enjoado ainda, o “woooonnn woonnn” das hélices incomodavam depois de um certo tempo, parecia um mantra indiano.

Chegamos em Abidjan (Costa do Marfim) já era noite e com muita chuva, a escala seria bem curta apenas para abastecer.

Quando eu abri a porta do avião, tive o primeiro contato com o cheiro da África. É um cheiro diferente, não dá para explicar. Não é sujeira, é um outro patamar.
Outra coisa chamou a atenção: havia milhares de mariposas gigantes circulando os postes de iluminação do aeroporto. Eu não sei se eram na verdade mariposas, mas se fossem eram muito bem nutridas.

Houve problemas com o abastecimento, com a LPU para dar partida nos motores e com a GPU para alimentar o avião por que o pessoal era muito mercenário.
Coloquei mais óleo na hélice #2.

Um rapaz veio a bordo e me pediu dinheiro, eu disse que só tinha dinheiro brasileiro e isso não valia nada por lá, mas mesmo assim ele quis, e eu dei Cr$ 2.000 já que ele não sabia o valor mesmo (acho que seria o equivalente a R$ 2,00 hoje).

O Mr. Bingwa começou a distribuir dinheiro (cash) e aí as coisas começaram a funcionar.

Decolamos depois de 2 horas de solo em Abidjan e ainda tínhamos mais 5 horas de vôo pela frente.

Continua na parte 4

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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