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As aventuras com o Electra na Africa – “Causos” Parte 4

Decolamos de Abidjan com chuva fina, e logo durante a subida o CDI do capitão travou, acusando o primeiro problema sério desde a saída de Congonhas (ainda bem que tínhamos o GPS funcionando perfeitamente e pudemos seguir viagem).

Fiquei realmente enjoado nesta etapa, não sei se por causa do calor que estava em Abidjan apesar da chuva ou por ficar ouvindo o barulho constante das hélices por muito tempo, não o barulho delas em si, mas da ressonância por falta de sincronia.

A etapa inteira sobre a África não teve vetoração de radar, a navegação foi feita através de posição transmitida e estimada por fonia. A cada waypoint alcançado, a posição era transmitida pelo rádio e a estimativa para chegar ao próximo informada.

Por um motivo estranho nós colocamos muito combustível ao decolar de Abidjan apesar da etapa não ser tão longa: O espaço aéreo do Gabão estava fechado por motivo de guerra civil e teríamos que fazer um desvio enorme por causa disso. Felizmente, na última hora chegou a informação de que havia sido autorizado o sobrevôo do país e a viagem ficaria uma hora mais curta.

Por volta de 3:20 da manhã iniciamos a aproximação e pousamos em Kinshasa as 3:40hs (hora local – 50 horas depois da decolagem de Congonhas). Após taxiar para um local remoto, permanecemos dentro do Electra porque não havia ninguém da empresa [Blue Airlines] esperando por nós e não podíamos desembarcar por que era um voo internacional e cheio de muamba.

O Solo Árido de Kinshasa

Depois de muito tempo sem poder sair do avião, chegaram uns policiais fardados e armados com fuzis e pediram para todos saírem (falando em dialeto com o Mr. Bingwa) pois queriam revistar o avião.

Ao descer na rampa do aeroporto, olhei pra cima e me assustei. Lembra das mariposas gigantes que vi em Abidjan? As que giravam em volta das luzes de Kinshasa eram ainda maiores, parecia filme de terror.

Fomos “educadamente” empurrados para uma sala dentro da alfândega, que nos reteve por mais de 2:00hs sem dizer palavra em inglês. Eu estava uniformizado como piloto pois fazia parte da tripulação e isso evitava vários problemas em relação à documentação.

Os pilotos, que eram ativos da Varig e haviam sido contratados para o traslado já estavam bastante irritados e o MR. Bingwa, que era o diretor da Blue Airlines e que estava com a gente, informava com a maior tranquilidade que o que eles (policiais) queriam era dinheiro para liberar a nossa entrada no país e evitar que o avião fosse fiscalizado e enquadrado como voo de contrabando.
Ele também disse que assim que o dono da empresa chegasse (um tal de Doctor Mayani), tudo estaria resolvido.

Finalmente as 6:00hs da manhã, quase três horas depois do pouso, apareceu um mulato claro de cabelo encaracolado, com trejeitos de gay, escoltado por dois caras com uniforme do exército também armados com fuzil e carregando uma valise preta, vestido com uma calça jeans com as pernas desfiadas na barra, chinelo tipo havaina e uma camisa de linho branca.

Era o Doctor Mayani.

Ele entrou em um anexo com o provável chefe da polícia federal e saiu de lá após alguns minutos, sem a valise. Fomos então liberados e seguimos para um furgão que nos esperava do lado de fora junto com outros carros de escolta com militares do exército e seguimos para o alojamento.

Não sei descrever a sensação de estar dentro de um filme de Tarzan.
Não que eu estivesse dentro de uma floresta, mas vendo todos aqueles nativos com roupas coloridas, um calor infernal e o chão coberto com uma areia cinza, me sentia num filme.
O solo era muito parecido com areia de praia só que bem escura, cinza chumbo.
Solo lunar.

O Zaire era um país muito pobre, nesta época ainda tentando se recuperar da última guerra civil e ainda sob o poder ditatorial de Mobuto Sesse Seko.
No caminho para o alojamento, apesar de bem cedo, víamos pessoas penduradas em carros e kombis (foto) por que aparentemente não havia transporte coletivo na cidade.

Uma coisa me chamou a atenção: todas as mulheres que eu vi durante o percurso até o alojamento levavam uma trouxa na cabeça (tipo trouxa de roupa), e algumas tinham um bebê amarrado nas costas, exatamente como nos filmes!.

O caminho até o alojamento foi bem longo e ao chegar deu para perceber que era mais uma fortaleza do que um alojamento, era cercado por um muro bem alto e protegido por pessoal do exercito (de fuzil!) numa guarita.

Era bem parecido com um condomínio fechado de luxo, como esses de Alphaville, só que todo branco, o que aumentava ainda mais o contraste com a pobreza que existia ao redor.

Aqui uma foto da entrada da casa, com o cozinheiro (de bermuda), o jardineiro e o cara que fazia escolta permanente e toda a minha belezura e glamour aos 26 anos de idade:

Continua na parte 5.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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