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As melhores cartas de reclamação de passageiros

O Lito me escreveu ontem falando de um e-mail hilário que o sempre polêmico Sir Richard Branson recebeu e publicou. Trata-se de uma reclamação de um passageiro sobre a comida e o entretenimento de bordo num voo da Virgin Atlantic da Índia para a Inglaterra. O Lito disse que não iria publicar no AeM porque achava que não conseguiria traduzir captando o espírito da coisa. Mas como eu sou tradutor e achei a carta boa demais para não publicar, resolvi tentar. De fato, o sutil humor britânico sempre perde muito na tradução. Mesmo assim, vale ler a carta. Fiz uma tradução mais livre para tentar captar melhor o espírito. Por favor confiram as notas ao final explicando alguns pontos, marcados com *asterisco. Quem quiser ler o original, pode vê-lo aqui.

 

“Prezado Sr. Branson:

REF: De Mumbai para Heathrow, 7 de dezembro de 2008

Eu adoro a marca Virgin, realmente adoro, e é por isto que continuo a usá-la, apesar de alguns incidentes infelizes ao longo dos últimos anos. Mas este último incidente leva o troféu.

Ironicamente, ao final do voo eu teria pago com prazer mil rúpias* por um único biscoito, depois da jornada culinária dos infernos à qual fui submetido nas mãos da sua empresa.

Olhe para isto, Richard. Olhe só para isto:

Imagino que pela sua mente brilhante estejam disparando as mesmas perguntas que passaram pela minha naquele dia fatídico. ‘O que é isto? Por que me deram isto? O que eu fiz para merecer isto? E qual é a entrada e qual é a sobremesa?’

Não se chega a uma posição como a sua, Richard, com nada menos que uma generosa dose de capacidade de observação; então, eu SEI que você terá reparado no tomate ao lado das duas hastes esponjosas amarelas à esquerda. Sim, ao lado da haste esponjosa sem a pasta verde. Isso tem que ser uma pista, não tem? Nenhuma pessoa em seu juízo perfeito serviria uma sobremesa com um tomate, serviria? Bem, responda-me, Richard, que tipo de animal serviria uma sobremesa com ervilhas, como esta:

Eu sei que parece baaji,** mas está envolta em creme de confeiteiro, Richard, creme de confeiteiro. Talvez seja o pudim. Bem, você ficará fascinado ao saber que não era creme de confeiteiro. Era um gel azedo com um óleo claro por cima. A única característica que o salvava era que ele conseguia ser tão estranho para o meu paladar que tirou o gosto de curry que emanava do nosso incaracterístico cuboide central de um material bege. Talvez o prato à esquerda seja mesmo a sobremesa, afinal.

De toda forma, tudo isto é irrelevante no momento. Fui criado pelos meus pais de forma rigorosa, mas apropriada, e se eles soubessem que eu tinha começado a comer a sobremesa antes do prato principal, uma haste esponjosa seria a menor das minhas preocupações. Então, vamos tirar a cobertura de alumínio do prato principal e ver o que temos.

Tentarei explicar como isso me fez sentir. Imagine que você tem doze anos de idade, velho garoto Richard. Agora, imagine que é a manhã de Natal e você está sentado lá com seu último presente para abrir. É um presente grandão, e você sabe o que é. É aquele aparelho de som Goodmans*** que você escolheu num catálogo e escreveu para Papai Noel pedindo.

Só que aí você abre o presente e o aparelho de som não está lá. O que está é o seu hamster, Richard. É o seu hamster que está na caixa e ele não está respirando. Foi assim que eu me senti quando tirei o papel-alumínio e vi isto:

Agora, sei o que você está pensando. Você está pensando que é mais um pouco daquele creme de confeiteiro que veio com o baaji. Admito que pensei a mesma coisa, mas não era. Era mostarda, Richard. MOSTARDA. Mais mostarda do que qualquer homem conseguiria consumir em um mês. À esquerda, temos um pedaço de brócolis e uns pimentões num óleo marrom que parece cola; à direita, o chef preparou um pouco de purê de batatas. Obviamente, o amassador de batatas estava quebrado, então se decidiu que a melhor alternativa seria passar as batatas pelo trato digestivo de um pássaro.

Claramente, depois de regurgitadas, as batatas foram batidas e misturadas com um pouco de mostarda. Todo mundo gosta de um pouco de mostarda, Richard.

A essa altura, eu já estava realmente começando a me sentir um pouco hipoglicêmico. Eu precisava de uma dose de açúcar. Felizmente, foi fornecido um pequeno biscoito. Ele já tinha me chamado a atenção antes, devido à sua apresentação intrigante:

Parece um saco de provas da cena de um crime. UM CRIME CONTRA A MALDITA CULINÁRIA. Ou era isso, ou algum tipo de biscoito do submundo dos becos, comprado de um maníaco armado e drogado com seu próprio suprimento de mercadoria. Você certamente não gostaria de ser apanhado carregando um desses pela alfândega. Imagine morder um pedaço de latão, Richard. Ainda seria mais macio para os dentes que o espécime acima.

Eu estava exausto. Tudo que eu queria era relaxar, mas obviamente, tive que me sentar com aquela meleca à minha frente por meia hora. Juro que as hastes esponjosas se mexeram num determinado momento.

Depois de liberado, decidi relaxar com um pouco do seu mundialmente famoso entretenimento a bordo. Liguei o aparelho:

Peço desculpas pela qualidade da foto, mas foi incrivelmente difícil capturar o rosto do Boris Johnson**** em meio às linhas brancas que tremiam e corriam para cima e para baixo na tela. Talvez estivesse melhor em outro canal:

Será o Ray Liotta? Esta foi a pergunta que me fiz repetidas vezes, por toda a penosa meia hora em que tentei assistir ao filme desse jeito. Depois disso, desliguei. Eu já tivera o bastante. Eu estava mais faminto do que jamais estivera em toda a minha vida adulta e estava com uma dor de cabeça de rachar depois de espremer os olhos olhando uma imagem quebrada.

Minha única opção era simplesmente olhar para a poltrona à minha frente e esperar que viesse comida ou o sono. Não veio nenhum dos dois por um tempo incrivelmente longo. Mas quando veio, superou minhas mais delirantes expectativas:

branson7

Sim! Era outro biscoito de prova da cena do crime. Só que agora é para mergulhá-lo nessa coisa branca.

Richard…. O que é essa coisa branca? Parecia ser iogurte, mas depois de ficar olhando para aquilo, finalmente captei o que era. Era uma mistura do creme de confeiteiro do baaji com o molho de mostarda. Aquilo me lembrou da minha primeira semana na universidade. Eu tinha ouvido alguém dizer que se pode fazer um drinque misturando vodca com refrescos. Menti para os meus novos amigos e disse a eles que eu já tinha feito aquilo um monte de vezes. Quando eu tentei fazer o drinque numa bacia enorme, formou-se um queijo, Richard, um queijo. Aquele queijo se parecia muito com a sua baaji-mostarda.

Então, foi isso, Richard. Não comi absolutamente nada. Minha única pergunta é: como você pode viver assim? Não consigo imaginar como deve ser o jantar na sua casa; deve se parecer com algo saído de um documentário sobre a Natureza.

Como eu disse no início, adoro a sua marca, realmente adoro. Só é uma vergonha que uma coisa tão simples possa derrubá-la até ela ficar de joelhos e implorando por comida.

Atenciosamente,

XXXX”

 

NOTAS:

* Rúpia é a moeda da Índia. Ao câmbio de hoje, 1000 rúpias seriam equivalentes a aproximadamente R$ 37,50. Isso é quanto o pobre passageiro pagaria por um único biscoito naquele dia…

** Baaji, bhaji ou pakora é um tipo de fritada indiana de legumes condimentados (pleonasmo, eu sei, em se tratando de um prato indiano), semelhante ao tempurá japonês.

*** Goodmans é uma marca britânica tradicional de aparelhos eletrônicos de som e imagem.

**** Boris Johnson é o prefeito de Londres, uma figura polêmica, ultraconservador e a festa dos cartunistas por seu cabelo louro volumoso e sempre mal penteado.

 

Branson disse em seu blog que telefonou pessoalmente para o passageiro para pedir desculpas e agradecer a ele por seu e-mail “construtivo, apesar de jocoso”. Acrescentou que é importante ouvir as reclamações dos clientes, para melhorar o serviço “e também para poder rir de si mesmo”. Segundo o jornal inglês Daily Telegraph, que publicou originalmente o e-mail do passageiro, o diretor de Comunicações Corporativas da Virgin Atlantic, Paul Charles, a empresa lamentava que o passageiro não tivesse gostado da comida, que era premiada e muito apreciada nas rotas da Virgin para a Índia.

A carta já foi publicada há quatro anos, mas esta semana, Branson relembrou-a em seu blog, ao comentar uma outra carta de reclamação de passageiro que se tornou viral (e mais ainda depois que Branson postou o link para seus mais de 3 milhões de seguidores no Twitter). Trata-se de uma carta aberta do tenista profissional inglês Arthur Hicks à LIAT, companhia aérea que atende a várias pequenas ilhas do Caribe, e publicada no jornal The BVI Beacon, das Ilhas Virgens Britânicas, para onde Hicks viajou recentemente. O original está aqui, e abaixo segue a minha tradução, valendo as mesmas observações que para a carta anterior:

 

“Prezada LIAT,

Peço licença para dizer que é muita consideração sua proporcionar aos seus passageiros um passeio tão aprofundado e completo pelo Caribe.

A maioria das outras companhias aéreas nas quais viajei desejaria simplesmente levar-me do ponto A ao ponto B, de forma um tanto apressada. Fiquei intrigado por ter sido permitido que parássemos em não meramente um ou dois, mas magníficos seis aeroportos ontem. E quem quer voar no mesmo avião o tempo todo? Temos que trocar de avião e reabastecer em cada etapa do caminho!

Gostei em especial de experimentar os scanners de segurança em absolutamente todos os aeroportos. Acho ridículo que as pessoas imaginem que eles sejam todos a mesma coisa. E quanto a ser apalpado por vários habitantes das ilhas, bem, sinto-me como se já tivesse sido abraçado por metade do Caribe.

Também achei uma coisa única que tudo isso tenha sido feito em ‘compasso caribenho’*, porque eu realmente gosto de ter tempo para absorver a atmosfera das várias salas de embarque. Quanto à nossa chegada, quem quer ainda ter que pegar uma balsa depois de voar tanto? Fiquei contente porque o barco já tinha partido havia muito tempo na hora em que chegamos a Tortola** ontem à noite — e todos aqueles bares e restaurantes barulhentos estavam fechados.

Então, obrigado, LIAT. Agora realmente compreendo por que você é A Linha Aérea do Caribe.

P.S. Pode ficar com a mala. Nunca gostei dela, mesmo.”

NOTAS:

* Ou seja, notoriamente devagar e sem pressa. Acho que aqui chamaríamos de “compasso baiano”. Tão sem pressa que muitos passageiros da LIAT perdem o avião porque não conseguem cumprir as formalidades do check-in a tempo de pegar o voo, pela lerdeza deles mesmos. É sério!

** Tortola é a principal ilha das Virgens Britânicas, arquipélago onde, por sinal, o próprio Branson tem uma mansão cinematográfica numa ilha particular.

 

Branson contou em seu blog que um colega comentou: “Acho que é por isto que dizem que LIAT quer dizer Languishing In Airport Terminals!” (Isso seria algo como “definhando à espera em terminais de aeroporto”.) Achei um tanto deselegante da parte dele, especialmente considerando que a LIAT é parceira de code share da Virgin Atlantic em algumas rotas…

 

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Sobre o Autor

Mineirim de BH exilado em Sampa, ex-informata, atual tradutor técnico, apaixonado por aviões desde o primeiro voo. Adora tititi de aeroporto, cheiro de querosene, barulho de turbina em decolagem. Sabe diferenciar um 737NG de um A320 passando pelo som dos motores. Frustração: não voou no Concorde (mas o viu pousar uma vez).
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