As aventuras com o Electra na Africa – “Causos” Parte 5
O cansaço depois de tanto tempo “na estrada” era grande e um banho muito necessário.
Apesar disso, o Doctor Mayani fez questão de fazer uma “recepção” de boas vindas no alojamento com café da manhã com frutas típicas, incluindo a melhor fruta que já comi na vida: Mangusteen.
O Doctor era uma pessoa culta e falava um inglês muito bom também, apesar de um pouco de sotaque francês. Todos que estavam na casa o tratavam como um rei, só faltavam ajoelhar quando ele falava algo.
A conversa à mesa rolou sobre os planos que ele tinha para o Electra, de transportar mercadorias para o interior do Zaire, lugares somente alcançados por via aérea.
E que daria todo o suporte aos tripulantes da Varig caso eles decidissem ficar mais um tempo no Zaire.
Então depois da “propaganda” de boas vindas e com boa comida, fomos descansar para no dia seguinte seguir para o aeroporto logo cedo e fazer o primeiro voo local, que seria de Kinshasa para Tshikapa, um voo de duas horas até uma pista de terra e brita no interior do país.
Na manhã seguinte, quando chegamos ao aeroporto, a primeira surpresa: Os mecânicos da empresa haviam removido todos os assentos de passageiros do Electra que ficavam do banheiro para trás e tinham parafusado no lugar dos assentos umas plataformas de pallets.
E pior, o avião já estava com carga até a tampa. (Os banheiros do Electra ficavam na parte dianteira do avião, bem perto da porta de entrada)
Responsáveis como eram, os pilotos da Varig se recusaram a fazer o primeiro voo com carga, disseram que iriam até Tshikapa vazios para reconhecer a pista (afinal o Electra não era homologado para operar em pista de terra), se tudo corresse sem problemas, fariam o voo com carga. Eu também dei meu pitaco, informando que a remoção dos assentos alterava o CG (centro de gravidade) do avião e portanto novos cálculos teriam que ser feitos com a instalação de “chão paletizado”.
Obviamente o Doctor Mayani não estava interessado em nossa opinião e muito menos em gastar combustível indo com um avião vazio até Tshikapa. Discutiu de maneira grossa com os tripulantes.
Disse para eles: Se não querem voar, arrumem suas malas e voltem para o Brasil agora! Não quero saber de vocês por aqui. . Acredito que ele estava esperando que nós, os estrangeiros, o tratassem como rei também, o que não foi o caso.
No mesmo dia os tripulantes foram convidados a ir embora do País, com passagem da Air Afrique saindo do Congo e indo para a Africa do Sul, onde pegariam o voo da Varig para casa. Obviamente eu não gostei do que aconteceu, a ausência de tripulantes experientes e responsáveis não era algo que estava nos [meus] planos, mas como eu iria apenas ensinar os mecânicos deles (assim eu pensava), resolvi ficar.
O Tarcísio e o FE também ficaram, os dois comandantes foram embora. Perguntei ao mecânico de vôo por que ele não foi junto com os tripulantes de volta pro Brasil, e ele disse que precisava do dinheiro, porque só a aposentadoria da Varig não era suficiente para manter o padrão de vida.
Já que eu estava por lá e o avião não iria decolar, reuni os mecânicos para dar as primeiras instruções básicas sobre o Electra.
Perguntei quem era o chefe e um rapaz mais alto e com avental branco se adiantou e com um péssimo inglês, meio que com mímica, disse que era o chefe. Perguntei se ele entendia inglês para traduzir para os outros e ele abanou com a cabeça positivamente.
Comecei mostrando a posição em que a hélice deveria ser colocada para se verificar o nível de óleo, e ele disse assim (vou escrever exatamente como ouvi):
_ah, memi xôzz ci uam tôrri.
_What? Eu disse.
_memi xôzz ci uam tôrri, memi xôzi ci uam tôrri.
Desisti de tentar entender. Fui mostrar onde e como abria a carenagem do motor, para mostrar o FCU, starter, gerador, EDCs
_hummm, memi xôzz ci uam tôrri
_OK… pensei.
Fui mostrar o painel de abastecimento de combustível, as drip sticks (sight gages) e já estava esperando o “memi xôzz ci uam tôrri” mas desta vez não veio. Ok.. pensei de novo.
Depois de uma hora ensinado várias coisas debaixo daquele sol fulminante e vendo cabeças balançando e falando em dialeto Lingala, chegou uma outra pessoa de avental branco, com mais idade e que falava um inglês melhorzinho e se apresentou como chefe da manutenção.
Eu disse: Mas este outro senhor aqui abanou a cabeça quando eu perguntei se ele era o chefe.
E o chefe real disse: esse aí nem falar inglês sabe!
Aquela sensação de ter pregado no deserto por mais de uma hora se apoderou de mim.
Mas eu ainda precisava desvendar uma coisa: perguntei pro chefe real o que significava “memi xôzz ci uam tôrri”, porque o chefe falso várias vezes falou isso quando eu mostrei algumas coisas do Electra.
E então o mistério foi desfeito: como o chefe falso era militar da força aérea Zairense e havia trabalhado nos C130 Hércules, tava falando francês junto com inglês quando eu mostrava algo no Electra que era igual ao Hércules:
Même Chose C One Thirty (C130) -> A mesma coisa do C130.
O fato é que eu sabia que as coisas que eu havia mostrado não eram a “même chose que o C-130, porque apesar do motor do Hércules ser o mesmo do Electra, as diferenças eram significantes.
Percebi que teria problemas com aquela “turma” de alunos.
Sem mais muita coisa pra fazer, voltamos para o alojamento para “reconhecer” o terreno.
Fui até a parte de trás e havia uma piscina! Que legal, daria para refrescar um pouco o calor e tornar a estadia na Africa menos torturante…
Olhei a piscina mais de perto e percebi que a água estava verde… e tinha um sapo morto no fundo. Provavelmente fazia meses que não era limpa. Foi descartada como lugar para se refrescar.
Voltei pra dentro, já que a casa tinha ar condicionado central e fui até a geladeira. Ela estava cheia de frutas exóticas que eu nem sei o nome, inclusive a menor melancia que já vi na vida, que cortei pensando que fosse um melão.
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Apesar do conflito inicial dos pilotos com o Doctor Mayani, eu ainda não tinha a noção exata do que seria trabalhar com aviação na Africa, isso vai ficar um pouco mais claro nos próximos capítulos.
Continua na parte 6



Que beleza,até que demorou pra começar a pirataria!rsrs
Nossa! Que situação haha, to doido pra ler o resto!!
Que história mais interessante. Ancioso para a próxima parte. Abraço. Fique na Paz.
Pow LITO, que historias ein….além de tudo, experiência de vida!! Muito legal.
Lito, Fantástico!
Esses personagens estão com nome reais? Está até parecendo um livro Agatha Christie! Não estou me aguentando para ler o resto da saga.
@Lpkok, sim, nomes reais. E estou cortando muita coisa pra leitura não se tornar cansativa. Se tudo der certo termino em menos de 15 partes.
Caramba! muito bom essas histórias! descobri seu “blog” a poucos dias, e já virei fã! passei algumas horas vendo posts mais antigos, e espero anciosamente o desenrolar dessa história! =D
Caramba…Lito, você deve ter muitos “causos” para contar, hein? Estou me sentindo como quando leio um excelente livro – com medo dele acabar e a magia daqueles momentos desaparecerem.
Mas, continue…está fantástico.
Ri demais com o ‘chefe’ falando contigo em inglês e francês…que epopéia!! Digna de um livro sem dúvidas.
poxa!! muito boas essas histórias!!!!