As aventuras com o Electra na Africa – “Causos” Parte 4

01 / 03 / 201010 Comentários

Decolamos de Abidjan com chuva fina, e logo durante a subida o CDI do capitão travou, acusando o primeiro problema sério desde a saída de Congonhas (ainda bem que tínhamos o GPS funcionando perfeitamente e pudemos seguir viagem).

Fiquei realmente enjoado nesta etapa, não sei se por causa do calor que estava em Abidjan apesar da chuva ou por ficar ouvindo o barulho constante das hélices por muito tempo, não o barulho delas em si, mas da ressonância por falta de sincronia.

A etapa inteira sobre a África não teve vetoração de radar, a navegação foi feita através de posição transmitida e estimada por fonia. A cada waypoint alcançado, a posição era transmitida pelo rádio e a estimativa para chegar ao próximo informada.

Por um motivo estranho nós colocamos muito combustível ao decolar de Abidjan apesar da etapa não ser tão longa: O espaço aéreo do Gabão estava fechado por motivo de guerra civil e teríamos que fazer um desvio enorme por causa disso. Felizmente, na última hora chegou a informação de que havia sido autorizado o sobrevôo do país e a viagem ficaria uma hora mais curta.

Por volta de 3:20 da manhã iniciamos a aproximação e pousamos em Kinshasa as 3:40hs (hora local – 50 horas depois da decolagem de Congonhas). Após taxiar para um local remoto, permanecemos dentro do Electra porque não havia ninguém da empresa [Blue Airlines] esperando por nós e não podíamos desembarcar por que era um voo internacional e cheio de muamba.

O Solo Árido de Kinshasa

Depois de muito tempo sem poder sair do avião, chegaram uns policiais fardados e armados com fuzis e pediram para todos saírem (falando em dialeto com o Mr. Bingwa) pois queriam revistar o avião.

Ao descer na rampa do aeroporto, olhei pra cima e me assustei. Lembra das mariposas gigantes que vi em Abidjan? As que giravam em volta das luzes de Kinshasa eram ainda maiores, parecia filme de terror.

Fomos “educadamente” empurrados para uma sala dentro da alfândega, que nos reteve por mais de 2:00hs sem dizer palavra em inglês. Eu estava uniformizado como piloto pois fazia parte da tripulação e isso evitava vários problemas em relação à documentação.

Os pilotos, que eram ativos da Varig e haviam sido contratados para o traslado já estavam bastante irritados e o MR. Bingwa, que era o diretor da Blue Airlines e que estava com a gente, informava com a maior tranquilidade que o que eles (policiais) queriam era dinheiro para liberar a nossa entrada no país e evitar que o avião fosse fiscalizado e enquadrado como voo de contrabando.
Ele também disse que assim que o dono da empresa chegasse (um tal de Doctor Mayani), tudo estaria resolvido.

Finalmente as 6:00hs da manhã, quase três horas depois do pouso, apareceu um mulato claro de cabelo encaracolado, com trejeitos de gay, escoltado por dois caras com uniforme do exército também armados com fuzil e carregando uma valise preta, vestido com uma calça jeans com as pernas desfiadas na barra, chinelo tipo havaina e uma camisa de linho branca.

Era o Doctor Mayani.

Ele entrou em um anexo com o provável chefe da polícia federal e saiu de lá após alguns minutos, sem a valise. Fomos então liberados e seguimos para um furgão que nos esperava do lado de fora junto com outros carros de escolta com militares do exército e seguimos para o alojamento.

Não sei descrever a sensação de estar dentro de um filme de Tarzan.
Não que eu estivesse dentro de uma floresta, mas vendo todos aqueles nativos com roupas coloridas, um calor infernal e o chão coberto com uma areia cinza, me sentia num filme.
O solo era muito parecido com areia de praia só que bem escura, cinza chumbo.
Solo lunar.

O Zaire era um país muito pobre, nesta época ainda tentando se recuperar da última guerra civil e ainda sob o poder ditatorial de Mobuto Sesse Seko.
No caminho para o alojamento, apesar de bem cedo, víamos pessoas penduradas em carros e kombis (foto) por que aparentemente não havia transporte coletivo na cidade.

Uma coisa me chamou a atenção: todas as mulheres que eu vi durante o percurso até o alojamento levavam uma trouxa na cabeça (tipo trouxa de roupa), e algumas tinham um bebê amarrado nas costas, exatamente como nos filmes!.

O caminho até o alojamento foi bem longo e ao chegar deu para perceber que era mais uma fortaleza do que um alojamento, era cercado por um muro bem alto e protegido por pessoal do exercito (de fuzil!) numa guarita.

Era bem parecido com um condomínio fechado de luxo, como esses de Alphaville, só que todo branco, o que aumentava ainda mais o contraste com a pobreza que existia ao redor.

Aqui uma foto da entrada da casa, com o cozinheiro (de bermuda), o jardineiro e o cara que fazia escolta permanente e toda a minha belezura e glamour aos 26 anos de idade:

Continua na parte 5.

Posts Relacionados:

Sobre o autor:

Um técnico com bom senso :)

Todos os posts de Lito

10 Responses to “As aventuras com o Electra na Africa – “Causos” Parte 4”

  1. Clau disse:

    Nossa!!! Muito legal seu “causo” do Electra na África…Aguardando ansiosa o desfecho mirabolante…rs
    Vc tem o dom da narrativa!
    ABÇ

  2. Alberto disse:

    Muito legal, estou acompanhando tudo, relato bem feito, só falta o Tarzan (é o novo) rsrsrs

  3. Marcel Mendes disse:

    Quem eram os tripulantes deste voo? E o FE Tarcisio? Por onde anda? Na ultima vez que encontrei ele em CGH anos atras ele não estava nada bem. Talvez devido as inúmeras malárias e intoxicações que pegou por lá.
    Estou acompanhando, aguardo o desfecho.

    • Lito disse:

      @Marcel Mendes, eu lembro dos tripulantes mas não lembro o nome deles (e não publicaria por ética). Mas o CMTE era um “alemão” ruivo que tinha bigode, base São Paulo…rs.
      O Tarcísio eu tô tentando contato, eu achei que ele não fosse sobreviver por lá, ele já não tinha a saúde muito boa (inclusive estava em estado avançado de perda auditiva).
      Independente disso, Tarcísio é uma grande alma que foi muito sacaneado pela vida.

  4. Joao da Luz disse:

    Joselito, e o cegonha por onde anda?
    Vc chegou a trabalhar com ele lah?
    Se sim com certeza vai ter mais estorias ou Historias para contar, pois aquele era uma figura….
    Sei que qdo ele voltou,foi enquadrado por trafico internacional de animais na policia federal, pois estava trazendo um macaquinho de estimacao que comprou lah.
    Depois disto trabalhei com ele na Vasp e nao tive mais noticias.

    abraco

    • Rogerio Bittencourt disse:

      @Joao da Luz, e ai joão……….huhuhu

      to em floripa……na Total…….ja sou manezinho da ilha……
      manda um e-mail ai………….abração

      rogerio

      • Joao da Luz disse:

        @Rogerio Bittencourt, Fala cegonha,cara qto. tempo, vc eh gerente de base aih?
        Eu estou morando no Canada agora jah tem 5 anos, continuo na area porem agora do lado do fabricante, nao mais cia aerea.
        Meu, combina com o Joselito para ele postar hitorias suas do Zaire tb.
        Isto aqui ta virando o CGH da nossa epoca, jah tem eu, vc, o Joselito e o Marcel ex-EIA, agora comandante de 737 que esta lah em Omã.

    • Lito disse:

      @Joao da Luz, o Cegonha apareceu por aqui… hehehe. Não trabalhei com ele, ele foi me substituir lá no Zaire. Lembro do problema do mico, mas acho que ele se livrou sem muito problema.

  5. Elen Davis disse:

    meninoooooo tú era uma varetinha rsrsrsrsrsrs……… :) !!!

  6. Brito (Icaro) disse:

    E eu que achava que o Paraguai era um caos…rapaz, vou começar a enxergar Ciudad Del Este como um paraíso depois do que li aqui!

Deixe um Comentário

Nota: Este post tem mais de 5 meses. Muita coisa já pode ter mudado, tem certeza que quer comentar aqui?.

 

Switch to our mobile site