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Avro Vulcan, o mais imponente bombardeiro nuclear já construído

Continuando a série Esquecidos na história, o V de Vitóriahoje é ele, o mítico, a asa triangular delta chanfrada mais incrível da aviação, o Vulcan senhoras e senhores!

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Sei que o título é praticamente uma provocação a muita gente, diversos comentários surgirão no sentido de contestar minha afirmação. Podem discordar, mas ele é o jato de ataque nuclear com o design mais ousado e matador, já feito. Nunca o vi “face to face”, mas só por fotos já se nota o “ar” digno de aeronave matadora.

Voltemos a um ponto já abordado no primeiro texto, falando sobre o Vickers Valiant, quando o governo britânico solicitou no final dos anos 40 o desenvolvimento de aeronaves quadrimotoras a jato, de alta altitude e subsônicas com enorme capacidade de carga armamentícia e aplicação nuclear tática. Com isso diversos projetos surgiram, e apenas 3 foram aprovados (V-bomber’s) e dentre estes, o Vulcan é um dos mais curioso de todos.

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O projeto do Vulcan foi derivado de inúmeras outras pesquisas dentro da própria Avro. O designer Roy Chadwick desenvolveu um projeto de asa voadora com formato em delta, que mais tarde foi desenvolvido como apenas a asa em delta, com fuselagem alongada e motores embutidos na junção das asas.

Para testar o design pouco usual para época, a Avro desenvolveu a aeronave 707C WZ744 que nada mais era que um “mini-vulcan” um modelo em escala menor para que teste mais conclusivos pudessem ser realizados a respeito do formato da asa. Só para lembrar, estamos em plenos anos 50, computação ainda era algo primitivo e nada se sabia sobre simulação computadorizada sobre modelos aerodinâmicos. Então a solução encontrada para comprovar a viabilidade foi fazer um modelo em menor escala.

Logo que os primeiros “mini-vulcans” (vou me referir a eles assim, pois a nomenclatura 707C, pode gerar alguma confusão) voaram, o design de asa em delta se mostrou promissor. Fato curioso é que durante os testes, diversas câmeras de vídeo foram instaladas na cabine para filmar os instrumentos do painel, e depois diversos funcionários e técnicos analisaram segundo por segundo de vídeo, para recolher informações dos instrumentos do painel, uma vez que não existiam equipamentos para data-recording apropriados para aqueles complexos testes.

Após os testes com as “miniaturas” a Avro tinha convicção que seu grande jato com asa em delta e enorme capacidade de ataque, era um projeto factível e realizável. O projeto 698 teve luz verde para a construção do primeiro protótipo, que fez seu primeiro voo em 30 de agosto de 1952. Ao contrário do que acontece hoje, em que voos inaugurais são grandes eventos midiáticos, o Avro 698 VX770 fez seu primeiro voo sem muito alarde, assistido por alguns funcionários da fábrica e meia dúzia de jornalistas. Tudo correu bem com exceção de que a porta do trem de pouso principal se soltou, nada muito grave. Após diversos testes ao longo de 1952, tudo correu bem e em 53 a Avro oficialmente decide chamar o projeto 698 de Vulcan.

A primeira aeronave de testes voava com um motor Rolls Royce Avon (exatamente os mesmos que equipavam o Valiant), pois os motores Rolls Royce Olympus que estavam sendo desenvolvidos exclusivamente para o Vulcan ainda não estavam prontos.

O segundo jato de testes foi entregue em 1953 e já equipados com os novos motores, o avião pôde ser testado de forma conclusiva a altas velocidades e grandes altitudes, o que revelou um problema sério com o design da asa, que apresentou rachaduras em diversas regiões, principalmente nas pontas. O problema foi sério o suficiente para o projeto inteiro chegar a ser revisto. A essa altura você deve estar se perguntando, “Mas Victor, não foi testado isso nos “mini-vulcans?” e eu respondo que sim, foi! Mas a asa era muito menor naqueles testes, o que não revelou o “stress” que uma asa maior teria. A solução foi fazer um chanfrado nas pontas, e arredondar os bordos de ataque, deixando com aquela característica pontinha arredondada, e terminando o com o formato triangular. Lembrando que a envergadura do Vulcan é de 30m com uma superfície de asa de 368,26m2.

A primeira grande aparição do monstro de asa em delta foi no festival aéreo de Farnborough de 1955, aonde o piloto de testes da RAF Roly Falk girou um incrível tounneaux deixando todos perplexos. Isso era possível devido ao design da aeronave e a seu joystick, ao invés de um manche tradicional, o que permitia maior controle aos pilotos. A tripulação era composta por dois pilotos, um navegador, um engenheiro de voo e um engenheiro de eletrônica.

Sobre sua capacidade de ataque, o Vulcan poderia voar com duas ogivas nucleares ou com o míssil balístico Blue Steel, ou ainda com quase 20 toneladas de bombas convencionais. Como todos sabemos nenhum Vulcan lançou uma ogiva nuclear em ataque, apenas em testes. E seu uso militar ficou restrito a apenas uma guerra, falemos disso nos próximos parágrafos.

Diversas modificações foram sendo feitas e o Vulcan também foi adaptado para ser um air-tanker, prestando apoio a diversas operações a aeronaves de ataque, uma vez que ele possuía um alcance de quase 4000nm. Outras versões já na fase de produção receberam motores mais potentes, ampliando ainda mais a capacidade de ataque e de autonomia, dando quase 1000nm a mais de alcance.

Nos anos 70 um Vulcan foi modificado para voar e testar um dos motores do Concorde, preso a sua barriga.

Mais de 100 jatos foram construídos, ao longo de seus 30 anos de serviço na RAF, sua aposentadoria oficial foi em 1984.

Fatos curiosos

Um Vulcan já esteve no Brasil, quando foi interceptado voando no espaço aéreo brasileiro, a aeronave estava a caminho das Ilhas Malvinas voltando para Ascensão depois de um bombardeio a uma instalação de radar argentina perto de Stanley nas Ilhas Malvinas (Falklands). Para isso, teve que ser usado um tipo de míssil que não era compatível com as capacidades do avião e foi adaptado neste com uma gambiarra não testada anteriormente. Um dos mísseis, ao disparar, danificou o encaixe da mangueira de reabastecimento em voo e o avião não teria como chegar a Ascensão (são 6300 km exatos, segundo o Great Circle Mapper), durante a famosa guerra da Inglaterra contra a Argentina. O jato havia decolado para sua longa missão da ilha de Assunção Ascensão no atlântico e foi interceptado quando se dirigia ao Rio de Janeiro para pousar em emergência, pois o Brasil não queria ter envolvimento nenhum com a guerra das Malvinas, logo pois isso poderia ter gerado um enorme incidente diplomático entre Brasil, Argentina e Grã-Bretanha. O jato ficou retido por alguns dias mais de um mês no Galeão até que teve autorização para voltar a sua base. Fico imaginando a ligação que a Margareth Tatcher fez pro Figueiredo: “Libera meu avião ou vou ai buscar!”

Palavras do Capitão Raul Dias, em entrevista ao jornal zero hora.

“Decolamos e tem um detalhe: a torre de Santa Cruz nos passou direto para a defesa aérea. Recebemos a instrução para chegar a uma altitude de 36 mil pés e nos deram a subida com pós-combustão, um movimento de rápida aceleração — houve até a quebra da barreira do som próximo ao Rio, o que foi muito comentado na cidade. Era, evidentemente, uma consequência da missão, e não uma firula. Embora nós não estivéssemos com mísseis, tínhamos 560 cartuchos de dois canhões 20 mm em cada F-5. Mas, claro, não foi um duelo entre caças. Mas nós decolamos sem saber com o que iríamos deparar. Quando avistei o Vulcan, eu disse: ‘espadas dois cobertura’ e assumi posição de combate. O Vulcan era um avião majestoso. Eu tentei, então, fazer a comunicação e ele, em um primeiro momento, manteve o rádio em silêncio. Quando ele respondeu, eu o orientei — porque eu estava recebendo orientações da defesa aérea — e ligado no canal internacional de emergência, pelo qual passei as coordenadas para o bombardeiro. Depois, nós o escoltamos até o Galeão.”

Link para a matéria: http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/noticia/2012/03/brasil-e-gra-bretanha-quase-se-enfrentaram-nos-ceus-na-guerra-das-malvinas-diz-piloto-de-caca-3713070.html

 

Ainda sobre as Malvinas, o ataque que devastou a aeroporto de Port Stanley foi lançado por Vulcans que descarregaram toneladas de bombas convencionais. O efeito desse ataque foi um terror psicológico para os Argentinos, uma vez que uma ameaça de um ataque britânico a costa Argentina era cada vez mais real. Os jatos eram reabastecidos em voo tanto na ida quanto na volta. Só para se ter uma ideia de distância, a ilha de Assunção fica a 2000km ao norte de Pernambuco Ascensão fica uns 2200 km a leste de Recife, bem no meio do Atlântico Sul, a meio caminho entre o Brasil e a África, as Malvinas ficam ao sul da Argentina. Uma prova cabal da versatilidade e das capacidades operacionais do Vulcan.

O Projeto XH558

O XH558 foi o primeiro Vulcan BMK2 a ser entregue a RAF em 1960 e foi o último de todos os modelos a ser aposentado em Março de 1993. Entre 86 e 93 foi aeronave de demonstração da RAF, fazendo diversos shows ao redor do planeta. Foi vendida para uma firma familiar, que se dispôs a cuidar da aeronave, porém nunca mais voou. Até que em 1997 Dr. Robert Pleming lançou um audacioso plano para recolocar o gigante em ação! Foi criada a fundação Vulcan to The Sky.

Durante o biênio 1998-2000 o grupo conseguiu fechar uma série de acordos com fabricantes de peças para suprirem as demandas que a enorme restauração iria pedir. O maior problema para um projeto desse era o financiamento, até que em 2003 uma “alma caridosa” doou 2.7 milhões de libras esterlinas, viabilizando o sonho.




O trabalho de restauração começou mesmo em 2005, quando vários ex-mecânicos da RAF que trabalharam no Vulcan se integraram a equipe e ex-funcionários da Avro também se uniram para ajudar. Em 2006 ele saiu do hangar pela primeira vez em 7 anos. Em 2007, 2 meses de testes foram realizados com os motores, semanas depois ele ganhou novamente os céus, emocionando a todos. Em 2008 ele foi autorizado a voar oficialmente e desde de então tem feito inúmeras exibições. Porém o projeto carece de recursos, pois manter o grandalhão voando custa muito caro e depende de uma série de doadores.

Um abraço!

Victor Candido.

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Sobre o Autor

Espaço dedicado aos textos dos leitores do AeM que colaboram com artigos de aviação.
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