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Cai duro A e cai duro B – Refeições na Varig de Congonhas #causos

Outro dia fui almoçar com minha esposa numa Trattoria nos jardins e comecei a rir sozinho lembrando do tempo em que eu almoçava no restaurante dos funcionários da Varig em Congonhas. Ela me perguntou por que eu ria e eu contei sobre os “cai-duros” da Varig.

A Varig tinha em Congonhas uma base razoavelmente grande, eram 4 hangares (sendo um deles com uma parte usada para treinamento de comissários com um mockup de cabine de passageiros e outro usado para cargas). Haviam escritórios, consultório médico, setor de Recursos Humanos, setor de treinamento de manutenção, enfim, havia uma aglomeração razoável de pessoas que trabalhavam por lá.

Por esse motivo, os horários de almoço eram “intercalados” entre os departamentos, começando as 11 da manhã e seguindo até as 2:30 da tarde (se não me engano), quando fechava e abria novamente para a janta as 5 da tarde e fechava as 7:30 para reabrir novamente de 1 as 2 da manhã para a ceia dos que trabalhavam de madrugada (basicamente o pessoal da manutenção). Acreditem se quiser, soava uma sirene nos horários de almoço, como se fosse uma fábrica.

Neste complexo todo, haviam dois restaurantes, um que era chamado de “A” e outro de “B”.

O “A” ficava na parte de cima do “B” e possuía uma alimentação de melhor qualidade, servida em pratos brancos e o cardápio contava também com sobremesas de bordo e refrigerantes. Obviamente o preço era maior e o desconto vinha na folha de pagamento.

O “B” era do tipo “bandejão”, você pegava a bandeja de aço com repartições e se servia a vontade com direito a um suco (refresco) para “empurrar” a comida e geralmente um potinho de sobremesa que variava entre gelatina, cremogema, doce de milho e flan de caixinha.

O pessoal da manutenção preferia o “B”, que custava um “vale” que era distribuído pela Varig junto com o salário (e não era aceito no “A”) e rendia uma porcão bem grande de alimento para repor as energias..hehehe.., mas acho que a preferencia pelo “B” vinha mesmo do fato de ninguém se sentir bem no meio dos engravatados que comiam no “A”.

Era visível na Varig a distinção de classes entre pilotos e engravatados e o pessoal do “chão de fábrica”; pra vocês terem uma ideia quem usasse macacão não podia nem entrar no restaurante “A”, tinha que trocar de roupa pra poder almoçar! (devo observar que isto era apenas em São Paulo, pois no Rio (GIG) não havia essa discriminação, o pessoal de uniforme da área industrial podia almoçar no “A” sem precisar trocar de roupa).

A hora do almoço era uma farra, mas não tanto quanto a hora da ceia. As ceias eram servidas de madrugada, para quem trabalhava no horário do “corujão” e como só havia o pessoal da manutenção trabalhando, as gozações e sacanagens eram constantes. Era preciso ter muito cuidado por exemplo para não sentar à mesa usando boné, pois se isto acontecesse o restaurante parava com xingamentos e gritarias ate que o individuo se postasse com educação e tirasse o boné como sinal de respeito aos outros ..hehehe.

Os dias de feijoada (quartas feiras) eram os mais aguardados. A feijoada era preparada durante o dia e ficava curtindo em algum lugar para ser servida a uma hora da manhã, então o gosto era maravilhoso e o caldo virava um creme…hahaha.. é sério, eu nunca comi uma feijoada tão gostosa na minha vida (tirando a que a minha sogra faz hoje em dia…rs) como as servidas no cai-duro “B” nas madrugadas de Congonhas.

Em alguns feriados, durante a madrugada a comida ficava insuportável, então uma saída era reunir uma turma e ir andando pela avenida Washington Luiz até o restaurante (boteco na verdade), chamado de Boa Viagem (que nem sei se existe mais) e comer um PF (prato feito) com fritas. Como estavam todos de macacão azul sujos de graxa, dava um contraste interessante com os outros usuários do local, que eram bêbados e garotas de programa.

Como era horário de serviço, ninguém bebia cerveja nem rabo-de-galo no Boa Viagem…. *acreditam* ?
E quando era inverno, com 2 graus do lado de fora, ninguém bebia Ypioca também…. *só pra constar*

Quando eu fui transferido para Guarulhos (GRU) por volta de 1993, tive contato com outro cai-duro. Em GRU não havia espaço para dois restaurantes, então havia um só para engravatados e uniformizados. A qualidade parecia ser melhor do que a do Restaurante B de Congonhas, mas o gosto definitivamente não era.

Um belo dia, não chegou comida para os funcionários (ao contrario de Congonhas, em Guarulhos não havia cozinha, a comida vinha pronta de algum lugar) e ninguém sabia o porque, ate que veio a explicação: o “gourmet” que preparava a nossa comida era a mesma empresa que fazia as refeiçoes do presidio estadual, e os presos iniciaram uma greve de fome para melhoria da qualidade, então eles tiveram que refazer a comida dos presos e faltou gente pra cozinhar pro “cai-duro”.

Vejam vocês, até os presos não aguentaram a comida que nos serviam…

No final de 1994 eu entrei na Transbrasil, onde trabalharia por somente um ano antes de entrar na United, e tive o prazer de poder almoçar e jantar num dos melhores cai-duros da aviação. Na Transbrasil a comida era feita na hora, na própria cozinha e se você não gostasse do que estava disponível, podia pedir pra fritar um bifinho acebolado na hora. Deu até uma saudade agora.

Hoje em dia não vejo mais “refeitórios” para funcionários, a gente é obrigado a ir almoçar no Terminal de passageiros e comer correndo uma Pizza Hut, um McDonalds ou encarar o Vienna e seus preços abusivos e comida fria e insossa, ou então trazer a própria “maLmita” e esquentar no microondas.

E uma pena que aquele tempo de confraternizar com outros funcionários durante as refeiçoes se foi embora, junto com o serviço de bordo em que o amendoim era acompanhamento e não prato principal, o glamour de voar, o espaço para as pernas nas poltronas e tantas outras coisas boas que vamos perdendo ano a ano…

*p.s. A minha marmita é com certeza a melhor refeição do Aeroporto Internacional de Guarulhos :)

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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