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“Caindo, caindo” – O que o Fantástico não mostrou.

Ontem, o Fantástico da Rede Globo conseguiu estragar um belo documentário produzido pela Discovery Curiosity e Dragonfly Film and Television Productions no ano passado. O documentário foi na verdade um experimento científico, que envolveu mais de 300 pessoas para fazer um Boeing 727 se acidentar em 27 de Abril de 2012.

Imagem do Documentário Discovery Curiosity - Plane Crash

Imagem do Documentário Discovery Curiosity – Plane Crash

Se por um lado o Fantástico acertou em exibir trechos editados do documentário, por outro errou com inserções sem nenhum sentido de especialistas e pilotos comentando o que não precisava, e errou também na dublagem, chegando a inventar um alarme de “caindo, caindo”. Agora perguntem a si próprios: que fabricante no mundo colocaria um alarme de “caindo” em seu avião? Já pensou se o alarme falhasse em cima do oceano, o que a tripulação iria fazer? É tão absurdo que nem sei por onde criticar.

A intenção primária de fazer um 727 se acidentar não foi ter a imagem disto acontecendo e mostrado de vários ângulos para satisfazer a “morbidez” do público e dos folhetins semanais, nem muito menos informar que passageiros da primeira classe tem mais chance de morrer em um acidente aéreo. Muito ao contrário, a intenção principal do experimento foi justamente estudar o que acontece em acidentes do tipo CFIT (Controlled Flight Into Terrain – Voo controlado colidindo com o solo) para salvar cada vez mais vidas. Leiam o link acima da Wikipedia para perceberem a quantidade de acidentes CFIT que aconteceram nos últimos anos.

Os pesquisadores, ao instalarem a enorme quantidade de equipamentos para medir as forças decorrentes do acidente, estavam coletando dados que serão estudados por anos à frente e incorporados nos próximos projetos de construção aeronáutica. Ao filmarem de dentro, estavam estudando o movimento dos objetos soltos para saber como melhorar a fixação deles. Ao usarem bonecos (crash test dummies), estavam pesquisando as diferentes posições de impacto adotadas pelas empresas aéreas para entender qual causaria mais chance de sobrevivência. Ao perceberem a quantidade de fios que se desprenderam com o impacto e influenciariam na evacuação, vão estudar uma maneira melhor de os prender. Ao verem a cabine de comando se romper por causa do tipo de construção do trem de pouso do nariz, tentarão implementar em futuros designs o mesmo critério de construção do trem principal, que é feito para se soltar em caso de impacto. Ao retirarem os bonecos, estudaram quais as dificuldades de uma equipe de resgate para remover sobreviventes.

Ou seja, todo o estudo foi baseado na capacidade humana de procurar soluções para aumentar a chance de sobrevivência em acidentes não catastróficos, mas o Fantástico não mostrou nada deste lado da pesquisa, preferindo dar destaque à queda do avião em si, pelo menos foi a imagem que me passou.

Nas palavras da produção da pesquisa: “For the first time, leading scientists and veteran crash investigators, who have been enthusiastic supporters of this project, witness a plane crash in real time and explore what happens to the airframe and cabin, as well as the effects on the human body during a catastrophe of this magnitude. We hope to provide new information about how to improve the chances of survival while providing scientific results on passenger safety and new technologies, including new ‘black box’ flight data recording systems.”

Quem quiser assistir o documentário original sem as intervenções despropositadas, façam uma busca nos sites de torrent por “curiosity plane crash”. O AeM não incentiva o uso não autorizado de material com direitos autorais, mas este é um vídeo educativo que merece ser compartilhado.

O ET Bilú diria: procurem o conhecimento.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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