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Cockpit Estéril, mordaça operacional abaixo de 10 mil pés

Cockpit Estéril

Cockpit Estéril

Bem, gosto muito do seu site […] já tirou muitas duvidas que eu tinha, obrigado, mas você me levantou outra
Por que quando o avião ultrapassa 18.000 pés ninguém pode perturbar os pilotos?

Antes de explicar, vamos corrigir suas dúvidas: Na verdade não se pode perturbar os pilotos abaixo de 10.000 pés. Acima de 18.000 pés é a altitude que as comissárias podem se levantar e o aviso de apertar cintos pode ser desligado se houver condições para isso.

Então vamos lá, por que os pilotos não podem ser perturbados desde o Taxi até 10 mil pés (3 mil metros) de altitude? Esta regra se chama Sterile Cockpit, e foi imposta pelo FAA em 1981 após anos de estudos sobre acidentes cuja causa principal havia sido atribuída à distração dos pilotos no cockpit durante as importantes fases de aproximação e pouso. Nos primórdios da aviação comercial com tripulação múltipla, os pilotos não tinham muito tempo para se distrair, já que tinham que navegar, cuidar dos motores e pilotar o avião. Com o aumento da automação no cockpit (piloto automático, sintonia automática de rádios de navegação, auto-throttle, entre outras), os pilotos passaram a ter mais tempo para conversar sobre assuntos não essenciais ao voo e o gravador de vozes da cabine passou a capturar desvios de conduta na maioria dos voos em que ocorreram acidentes.

Então em 1981 a FAA demandou as seguintes regras a serem seguidas abaixo de 10 mil pés:

1- Nenhum tripulante fará qualquer tarefa que não seja associada à operação segura da aeronave.
2- Nenhum tripulante permitirá qualquer atividade que possa causar distração durante uma fase crítica de voo, exemplo, comer, conversas sobre assuntos não operacionais, conversas não essenciais com comissários, entre outras. Só é permitido conversar sobre os assuntos pertinentes ao voo.
3- Fases críticas de voo são consideradas: todas as operações de Taxi, Decolagem, Pouso e altitudes menores que 10 mil pés.

Agora vamos analisar a seguinte situação: Vejam este vídeo de um passageiro sobre o ocorrido durante a decolagem, quando as capotas de um dos motores se abriram causando pânico em alguns passageiros.

Como os comissários deveriam agir numa situação como essa? O evento ocorreu em uma fase crítica, eles devem quebrar a regra de cockpit estéril e informar os pilotos antes de atingir os 10 mil pés, ou aguardar?

Bem, este é um problema que a FAA vem tentando padronizar em todas as empresas aéreas, afinal o que deve ser informado aos pilotos em condição estéril? Em resumo, qualquer indício de fumaça, fogo, vibração anormal, ruídos anormais e vazamentos de combustível devem ser informados. Não entender perfeitamente as regras de cockpit estéril e hesitar em informar aos pilotos sobre estes problemas pode ser potencialmente mais sério que a distração causada por uma violação à regra.
É preciso ter em mente porém que os pilotos no entanto não atenderão nenhum chamado que ocorra entre o início da rolagem de decolagem e a altitude mínima de segurança, por que a primeira coisa que eles têm que fazer é voar. Para terem uma idéia do quão importante é esta fase até a altitude mínima, os próprios computadores de alerta de problemas inibem determinadas mensagens de falha para evitar que os pilotos tentem se preocupar com um problema que os leve a se distrair antes de estar voando com segurança. Desnecessário dizer que após atingir a altitude mínima os computadores mostrarão a falha que ocorreu.

Sei que isto não serve de consolo para um leigo que vê pela sua janela uma capota de motor saindo e entra em desespero, mas antes de entrar em pânico tente lembrar que nada vai poder ser feito até determinada altitude e que manter a calma pode ser o mais seguro para todos.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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