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Acidente em Buffalo – Hipótese

Renato disse: mas quando vc vai falar da sua opiniao do acidente em bufalo? o mardito piloto automatico e clima bom foi o causador de tudo?

Eu ouvi sobre esse acidente quando estava em Fernando de Noronha passando as férias. Por enquanto ainda há somente especulações da imprensa sobre o acúmulo de gelo nas asas e até comparações (por parte da imprensa americana) entre este acidente e o que ocorreu com um ATR 42 em outubro de 1994, porém o Q400 acidentado é muito mais moderno e de acordo com pilotos que operam o avião enfrenta muito bem as condições de gelo, sendo considerado um dos melhores turbohélices nessas condições, com sistemas bem modernos de combate ao gelo.
Há uma teoria se desenvolvendo (mas ainda prematura, já que somente o NTSB vai chegar as conclusões sobre o acidente) sobre acúmulo de gelo no estabilizador horizontal e que eu considero altamente plausível pelo que ocorreu nos momentos finais do voo.
Fato marcante: Há indícios na caixa preta dos pilotos conversando sobre gelo nas asas. Se havia gelo nas asas, é correto afirmar que havia muito mais gelo no estabilizador do que nas asas. E porque afirmo isso? Por que a forma do aerofólio no bordo de ataque do estabilizador horizontal é mais “gordo” que o aerofólio da asa e portanto mais suscetível a acúmulo de gelo. Para confirmação desse fato, assistam esse vídeo no Google sobre a pesquisa da NASA/FAA sobre os efeitos do gelo em aeronaves turbohélice. É incrível a semelhança do vídeo em relação ao que aconteceu neste acidente:
Formação de gelo / Baixa altitude / Aproximação / Alteração de regime dos motores / Piloto automático engatado.
O vídeo trata da questão do Estol de Cauda por formação de gelo (e não do Estol de asa tão temido pelos pilotos) e há três agravantes que podem levar ao Estol de cauda:

  • Abaixar os flaps
  • Aumentar a velocidade
  • Aumentar a potência dos motores
  • Ora, essas três condições estão sempre presentes durante uma aproximação para pouso e a aeronave estava a 5 milhas do aeroporto quando caiu!
    Os pilotos podem ver o gelo acumulando nas asas e tomar as ações necessárias (combater via anti-ice / de-ice e escapar da área afetada) mas não podem ver o gelo acumulando no estabilizador horizontal.
    Mas há sintomas de aviso de que isso está acontecendo:

  • Leveza nos controles, principalmente p/ frente (nose down)
  • Dificuldade em trimar (compensar) o avião
  • Oscilações nos comandos induzidas pelo piloto (leve para frente, pesado para trás)
  • Trepidação nos controles, mas não na aeronave
  • No entanto, todos esses sintomas não podem ser percebidos se o piloto automático estiver engatado…e parece que o piloto automático estava engatado, contrariando padrões operacionais (ainda não confirmado mas amplamente divulgado pela imprensa). O vídeo cita que o o gelo na cauda faria a aeronave tender a baixar o nariz rapidamente, e pelo que li sobre os momentos finais do Flight Recorder do Q400, ele teve severas oscilações de nariz.
    Um outro ponto a se considerar como perda total de sustentação foi a queda praticamente na vertical, atingindo apenas uma casa e sem danos espalhados pela vizinhança, e a cauda do avião apontava para o lado contrário da direção do aeroporto, o que pode significar que ele caiu na vertical e em parafuso (mais um sintoma de perda de controle no estabilizador horizontal)
    Um estol de cauda é muito mais crítico que um estol normal. Todos os pilotos são treinados para se recuperar de um estol: baixar o nariz, acelerar os motores. Mas o estol de cauda requer exatamente o oposto como ação evasiva: Levantar o nariz e diminuir a potência dos motores!
    Daqui a mais ou menos um ano, sairá o relatório final do NTSB sobre esse acidente, e vamos saber em detalhes o que aconteceu de verdade e comparar com essa hipótese do estol de cauda.

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    Sobre o Autor

    Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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