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Colisão de um 737-200 com um peixe, Fish Strike! #Verdade

Segunda Feira, 30 de Março de 1987.
O sol nascente no sudeste do Alaska hoje é daqueles típicos de cartão postal.
A temperatura está por volta de 10C e quase não há nuvens no céu.
Os moradores de Juneau, capital do Estado, apreciam a “alta” temperatura e os primeiros raios de sol da primavera.

O voo 61 da Alaska Airlines pousou vindo de Seattle no horário. A tripulação ainda não sabia, mas iria fazer parte de um voo histórico em algumas horas. Logo após o pouso, os dois pilotos ajudaram o pessoal de rampa a descarregar um pallet contendo dois iglus que estavam no compartimento dianteiro de carga. Este 737-200 era do tipo “combi”, com duas posições de pallets na frente e 72 passageiros na parte de trás. Era a configuração ideal para atender as pequenas comunidades presentes por todo o território do Alasca, pois como não há ligação por estradas entre o continente e Juneau, a aviação passa a ser vital para as necessidades da cidade. Após decolar de Juneau, o voo seguiria para Yakutat e Cordova, antes de seguir para Anchorage, a cidade mais larga e sempre confundida com a capital, onde o voo 61 terminaria.

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O Capitão Bill Morin, com 7 anos de experiência, estava no comando do Boeing 737-200QC escalado para o voo daquela bela manhã. O seu co-piloto era Bill Johnson, que estava na empresa há apenas 3 anos, tendo trabalhando antes na Boeing como instrutor de 737. Ele já fazia parte dos instrutores da Alaska Air, mas neste dia foi “acionado” enquanto estava na reserva.
Depois de um café rápido no terminal, a tripulação retornou à aeronave, onde o senhor “C”, um inspetor do FAA os acompanharia como “jump seat” até Anchorage, tendo como uma de suas funções avaliar a performance da tripulação, bem como observar a comunicação, controle do equipamento e procedimento de ATC dos dois pilotos. Sempre que um inspetor do FAA acompanha um voo, a tensão no cockpit aumenta alguns graus. O comandante “brifou” o senhor “C”, dizendo o que esperava dele no assento traseiro, inclusive como auxilio para monitorar o tráfego em rota.

O planejamento para a decolagem era partir para o Oeste pela pista 26 em rota direta para Yakutat. Ao sair do pequeno terminal de Juenau pela taxiway paralela à pista, eles notaram várias águias circulando ao sul do aeródromo, na direção da Ilha Douglas.

Visão da pista e da direção da Ilha Douglas

Visão da pista e da direção da Ilha Douglas

Águias são muito comuns no Alasca, sempre “planando” com suas grandes asas à procura de presas.

Águias são muito comuns no Alasca, sempre “planando” com suas grandes asas à procura de presas.

O comandante Morin havia pousado em Juneau, então para seguir o protocolo de cada piloto se alternando em cada perna, Bill Johnson faria a próxima decolagem, que incluía uma curva à esquerda logo após sair do solo (semelhante as saídas pela pista 20 do Santos Dumont no Rio de Janeiro). Esta curva é chamada de “Juneau Cut”, que segue um vale para evitar as montanhas a Oeste do aeródromo, e virou símbolo das chegadas e saídas desde os primórdios da aviação no Alasca. Somente após o advento das aproximações RNP é que novas opções apareceram para os pilotos.

Com a potência máxima aplicada em seus motores P&W JT8D, o 737 correu pela pista antes de “rodar” suave suavemente mais ou menos na metade da pista. Quando o trem de pouso recolhia, Bill iniciou a curva para o “cut” enquanto puxava o nariz mantendo um ângulo de 20°. Durante a subida inicial, os tripulantes notaram uma grande águia se aproximando pela esquerda da aeronave, mas os dois perceberam ao mesmo tempo que passariam por baixo dela com uma boa separação. Todos sabiam que bater em uma águia daquele tamanho com um jato, voando a 320 KM/h, causaria sérios danos.

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Provavelmente quando a águia viu o 737 se aproximando acreditou que um pássaro muito maior estava vindo pegar sua refeição, então fez uma curva fechada para o sul, que foi acompanhada pelos pilotos do 737, e no processo deixou cair o alimento que trazia em suas garras. Em um daqueles segundos que parecem durar uma eternidade em câmera lenta, os dois pilotos viram a presa caindo em direção a aeronave.

O peixe atingiu a aeronave com um ruído de impacto atrás da última janela do cockpit do lado do comandante, com uma força que deixou uma pequena mossa na fuselagem. Depois de um breve momento de silêncio, ainda atordodados pelo que acabara de acontecer, os dois pilotos “escanearam” os instrumentos dos motores para confirmar que tudo estava certo enquanto Bill Johnson fazia um rápido check nos controles de voo. Quando determinaram que tudo estava normal, Bill Morin deixou escapar: “nós batemos no que eu acho que acabamos de bater?”

Concordando que de fato haviam colidido com um peixe, a tripulação contactou o despacho da empresa e o controle de manutenção para instruções a seguir e todos concordaram que o voo poderia continuar para o destino, em Yakutat. Ainda na aproximação, a tripulação foi informada que a aeronave teria que ser inspecionada, mas como não havia um mecânico qualificado em Yakutat, eles teriam que aguardar um mecânico que já havia saído de Juneau em um pequeno Piper Cherokee Six e estava a caminho para fazer a inspeção. Quando taxiava para o terminal, a tripulação percebeu que quase todo mundo que trabalhava no pequeno aeroporto estava aguardando sua chegada. A notícia do que tinha ocorrido tinha viajado na velocidade do rádio.

Depois do corte dos motores, os pilotos e o inspetor do FAA deixaram seus assentos para inspecionar o avião, mas depois de um voo de 45 minutos não havia mais muita coisa para se ver a não ser a mossa abaixo da janela, uma trilha de sangue e algumas escamas. Enquanto o mecânico não chegava, o comandante anunciou pelo P.A. pedindo para que os passageiros desembarcassem e esperassem no terminal, onde seria mais confortável. Ele explicou o que havia acontecido, mas muitos passageiros se recusavam a acreditar e diziam que ele estava tentando esconder algum problema mecânico sério.

Após a inspeção do mecânico e o “ok” para voo, os passageiros reembarcaram e seguiram para Cordova e Anchorage conforme programado, só que a notícia já havia chegado até Anchorage muito mais rápido que o Boeing e quando a tripulação fez sua última perna, o peixe já havia se transformado em um Salmão Rei, com 1,5 metros de comprimento e 9Kg. O Sr. “C”, quando entrevistado para a edição de Agosto de 1987 da revista FAA World, revelou: “Quando os mecânicos chegaram para fazer a inspeção, ficaram de queixo caído, assim como nós também. O que eles encontraram foram os restos de um peixe estimado com um peso de 1,3 a 1,8 Kg enfiado na carenagem da raiz da asa esquerda”.

A história apareceu na imprensa nacional americana dois dias depois, ironicamente no dia 1º de Abril, e muitos leitores pensaram se tratar de piada de mentiroso. O fato é que o incidente ocorreu, e ficou conhecido como voo Salmon-30-Salmon e a Alaska Air desde então pinta um de seus aviões da frota com um enorme Salmão e decoração marinha:

Bela pintura

Bela pintura

Interior Marinho

Interior Marinho

Placa comemorativa do Salmon-30-Salmon

Placa comemorativa do Salmon-30-Salmon


Tomei conhecimento desta história pelo amigo Renilson R. Reis, que a ouviu durante uma viagem ao Alasca, narrada pela motorista do ônibus [fazendo papel de guia], vejam no vídeo abaixo a narração:


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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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