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Como assim cancelaram o voo por causa do calor? Pode isso?

Update 8/Fev/2014: O Estadão noticiou direitinho neste link, com as opiniões do professor da faculdade de Ciências Aeronáuticas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), Hildebrando Hoffman, bem como a Associação Brasileira de Empresas Aéreas (Abear) – ambos disseram a mesma coisa que escrevi neste post. Obrigado aos leitores que acreditam em minha opinião por saber que ela sempre tem base e fundamento.

Recebi muitas perguntas a respeito desta matéria que saiu no Zero Hora de Porto Alegre sobre o cancelamento de um voo da Copa Airlines por motivo de calor. Fora a reclamação dos passageiros, a notícia apresenta um tom irônico, como se não acreditasse que um voo pudesse ser cancelado por causa do calor. No UOL, a notícia não foi diferente, como mostra esse vídeo.

Reprodução Zero Hora

Reprodução Zero Hora

Não vou entrar no mérito do que os passageiros falaram sobre a falta de informação a bordo, já que provavelmente o avião estava com portas fechadas e em momento de decisão sobre a decolagem ou não, os comissários não iriam servir nada a bordo mesmo. Vou falar sobre o lado técnico do porquê o voo foi cancelado corretamente, e que a moça que termina o vídeo no UOL falando que vai entrar na justiça, felizmente vai poder fazer isso justamente por causa do cancelamento, pois um acidente poderia ter ocorrido caso a decolagem tivesse sido tentada.

Aviação é coisa séria e não sobrepõe as leis da física. Nunca.

São quatro forças que atuam em um avião: Potência, Arrasto, Sustentação e Peso.

Forças que atuam em um avião

Forças que atuam em um avião

Para ter sustentação maior que o peso e subir, a potência tem que ser suficiente para vencer o arrasto (a parede de ar) e atingir uma determinada velocidade (ou ângulo de ataque) sobre a pista, e de preferência antes que ela acabe!

Vamos ignorar por um momento 3 forças: a sustentação, o arrasto e o peso.

Falaremos apenas do fator mais afetado pelo calor em um avião a jato: a potência do motor. Isso, esqueça o negócio que a mulher falou no vídeo sobre borracha de pneu e calor da pista, isso é “non sense” total.

A potência de um motor a jato é influenciada por diversos fatores (velocidade do ar, altitude, ar de impacto, densidade e temperatura, etc), mas vamos nos ater apenas ao calor e seu efeito mais direto, a mudança de densidade do ar. Para quem lembra das aulas de física, temperatura e densidade do ar são grandezas inversamente proporcionais, ou seja, o aumento da temperatura causa uma diminuição na densidade do ar. Guardem isso.

Calma que já chego no cancelamento do voo!

A densidade do ar tem um efeito profundo na potência produzida por um motor a jato, pois o volume de ar que entra nos motores em qualquer regime de RPM é “quase” fixo, por causa da geometria do duto de entrada. Como a potência é determinada pela massa e não pelo volume de ar, qualquer diminuição na densidade diminui a massa e consequentemente a potência.

Olhem este gráfico de relação temperatura/potência:

Quanto maior a temperatura, menor a potência

Quanto maior a temperatura, menor a potência

Estamos quase chegando no cancelamento. Se a potência diminui com a temperatura por causa da densidade do ar, então a velocidade para acelerar o avião na pista vai ser menor, concorda? Agora observem esta imagem:

Velocidades de Decolagem

Velocidades de Decolagem

Quando um avião começa a acelerar na pista, diversos cálculos são feitos para que, caso aconteça uma falha total de motor (ou outra falha grave), ainda assim a decolagem seja segura para todos. Um dos principais cálculos é para achar a “V1”, que é a velocidade de decisão. Que decisão? A decisão de decolar ou abortar a decolagem. Um dos principais fatores que restringem a V1 é o comprimento da pista. Quando a aeronave está correndo na pista e passa da V1, mesmo que um motor caia da asa, o comandante deve continuar a decolagem pois é mais seguro do que tentar abortar, já que a V1 define que a partir daquele ponto não haverá pista suficiente para parar o avião.

Agora um pulo rápido a Porto Alegre: Um 737-800 lotado de gente, carga e combustível. O calor de rachar e a densidade do ar baixa. A potência reduzida e uma pista de apenas 2280 metros. Após consultar os diversos manuais de performance, a tripulação percebe que não é seguro decolar, pois ou a V1 vai estar além do ponto da pista, ou não será possível atingir a V2 na altitude correta. Entenderam?

É só isso mesmo gente.

O voo foi cancelado para a segurança de todos. O que é melhor? Atrasar o início das férias em algumas horas ou ficar meses todo quebrado no hospital porque o piloto desconsiderou os cálculos para atender passageiros revoltados?

Deixo aqui os parabéns ao Comandante por ter tomado a decisão correta. É por causa de profissionais assim, que aguentam a pressão de passageiros, imprensa, órgãos reguladores e fazem a coisa certa que a aviação é tão segura.

P: Mas porque os outros aviões decolaram no calor na mesma hora?
R: Olhe a imagem lá em cima das forças. Com peso menor, a performance é melhor.

P: A borracha do pneu pode derreter na pista?
R: Não!

P: Por que demorou quase duas horas para calcular tudo?
R: Porque não é simples, são muitas tabelas e muitas variáveis e você não quer errar cálculos nesta hora. Não é ENEM, não tem meio certo.

P: Vou entrar com ação na justiça.
R: Faça isso, você pode acabar descobrindo que salvaram sua vida :)

Nota do Lito: Sempre é muito mais complexo do que eu faço parecer. Sei que tem leitores que possuem conhecimento avançado e que vão lembrar sobre pressão atmosférica, a influência da densidade na sustentação, outras definições de V Speeds, mas a proposta do AeM é fazer os leigos entenderem os assuntos cabeludos da aviação, e não os entendidos :)

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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