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Como o Boeing 777 sabe quanto tem de combustível nos seus tanques?

Ontem eu escrevi sobre a indicação de combustível em um Boeing 767, hoje eu vou falar um pouco como é no Boeing 777.

Assim como no 767, o 777 também tem um processador, só que ao invés de FQIS é chamado de FQPU (Fuel Quantity Processor Unit), e é bem mais avançado, tanto na parte de diagnóstico quanto na parte de sensores e sinais. Enquanto no 767 os sinais são elétricos, no 777 os sinais são digitais :)

Se você não leu o artigo anterior, é melhor dar uma lida antes deste aqui, senão pouca coisa vai ser aproveitada.

Então, pra saber a quantidade de combustível (em peso), precisamos saber a densidade, e quanto de volume o liquido está ocupando no tanque certo?

Para saber a densidade, temos os “Densitometers”, que vibram proporcionalmente à densidade: quanto mais denso, menor a frequência e vice-versa. Quem energiza e monitora o densitômetro é o próprio FQPU.

Agora vem a parte mais legal: lembram que no 767 as TU’s (Tank Units) eram um tipo de capacitor que variava a tensão de acordo com o combustível que entrava em seu tubo e assim o FQIS calculava a altura do combustível? No 777, a TU possui um transmissor ultrassônico em sua base e um receptor na ponta superior.

O FQPU envia um sinal para o transmissor ultrassônico que causa um pulso sônico que passa através do combustível até a superfície e volta ao transmissor. O FQPU mede o tempo que o sinal sonoro leva do transmissor até a superfície do combustível e calcula a altura que o querosene está naquela posição (são 52 TU’s no 777).

Mas ainda falta saber qual é a velocidade do som dentro do combustível para saber se a medição da altura está correta. Para isso, ao invés dos “compensators” do 767 que medem o valor dielétrico do combustível, o 777 possui 10 das 52 TU’s com targets de calibração que medem a velocidade do som dentro do combustível. Ao mesmo tempo que o pulso sônico é enviado e retorna da superfície do combustível, nestas TUs o target recebe o pulso sônico e através de sua altura constante, calcula o tempo de recebimento e consequentemente o resultado será a velocidade do som corrigido para este tipo de combustível que estiver no tanque (jetA ou jet A-1,etc).

Não é lindo isso? E como se não bastasse, nós podemos ver estes valores se quisermos, como na figura abaixo.

Este é um desenho de uma das páginas de manutenção em um display do 777, marquei em vermelho a densidade, a velocidade do som (VOS), a altura e a quantidade.

Mas… e se um indicador de combustível falhar? (coisa mais rara que enterro de anão). Como o mecânico vai saber qual a quantidade de combustível no tanque?

Bem, dentro de cada tanque existem diversas varetas magnéticas com marcações em polegadas, como se fosse uma régua. Basta abrir esta vareta e deixá-la descer bem devagar até que a ponta encontre a superfície do combustível (dá pra sentir uma tranco magnético quando chega na superfície do querosene).
Então, é só anotar quantas polegadas a vareta desceu e ai sabemos a altura do combustível.
Mas tem um problema com essa medição….e se o piso do aeroporto estiver desnivelado? e se o nariz do avião tiver muito alto? E se tiver muita carga no porão de carga traseiro e a bunda do avião tiver mais baixa do que o padrão? E como vai ser calculada a densidade?

Eu sabia que essa pergunta ia surgir..rs.

Bem, todo avião tem dois inclinômetros instalados, um lateral e um longitudinal. Esse inclinômetro é bem parecido com aqueles níveis de bolha que os pedreiros usam, só que mais precisos. Se tivermos que olhar o combustível pelas varetas, temos que saber quantos graus o avião está inclinado no seu eixo lateral e no seu eixo longitudinal (nariz baixo/alto).

De posse dessa inclinação, usamos umas tabelas “muito loucas” para saber qual altura de combustível é equivalente à medida que a régua está mostrando. Temos também um densímetro, parecido com aqueles de posto de gasolina, que colocamos pra boiar no querosene do caminhão de abastecimento e aí teremos a densidade. Voltamos para as tabelas “muito loucas” e usamos a que tiver a densidade mais parecida com o que medimos.

Pronto, a tabela nos dará quantas libras (ou quilos) de combustível tem dentro da asa, já ajustado para a inclinação do avião.

Facim, facim…. :P

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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