Camiseta Electra

Crônica de minha despedida dos Airbus A300 da Vasp

Sabia que um dia chegaria!
Dia pós dia, esse dia chegaria!
E foi chegando, os Boeing 737-200 ao seu lado já viravam pedaços retorcidos de metal, não tardaria a chegar perto de 2 dos 3 grandes amigos!

Até que amanheceu nublado em 18 de Abril de 2012, quando a máquina chegou perto do Sierra November November! Antes tinham feito o favor de retirar tudo que pudesse ser vendido do seu interior. Quem foi você Sierra November November?

Quem foi você, meu amigo!

Chegou ao Brasil em 31 de Janeiro de 1983, e por essa bandeira voou, passou em Manaus, passou em Porto Alegre, passou em Salvador, passou em Teresina, passou por tantos lugares, passou até em Orlando, Aruba, Buenos Aires. Chegou até a experimentar uma camiseta diferente em 1990, quando operou para o Lloyd Aereo Boliviano, conhecendo Santa Cruz de La Sierra, Miami… você que nasceu lá em Toulouse, alcançando os céus a primeira vez em 16 de Dezembro de 1982 e pela VASP sua vida inteira dedicou, até parar em 2004, lembro bem, você teve um estouro de motor numa decolagem em Recife ao tentar cumprir o VASP 4195, em uma operação de guerra seu único irmão disponível na época o PP-SNM parou em CGH para te doar um motor que foi levado pelo seu amigo de empresa PP-SMW para Recife e de lá você voou até CGH, onde devolveu o motor para o SNM e ficou em um check, do qual você esteve bem perto de terminar, mas antes sua empresa parou mesmo foi de voar com os aviões do seu porte!

Ahhh SNN, parado na boca do hangar, observando seu primeiro irmão SNL condenado a ficar ali e ali ficaram até a manhã nublada de 18 de Abril, quando você sentiu a dor de ser triturado por uma impiedosa máquina.

E você Sierra November Lima! Você chegou ao Brasil com pompa e circunstância, naquele inesquecível 5 de Novembro de 1982, para festividades de aniversário da VASP! O primeiro avião de fuselagem larga da VASP, um orgulho para a empresa, que entraria em 1983 para o seu 50° aniversário!

Você que também nasceu em Toulouse, teve o gostinho dos céus em 28 de Junho de 1982, lembro bem de um anúncio de sua mãe Airbus que dizia: ASSINADO, SELADO E ENTREGUE, lá você tentava disfarçar sua real identidade, se dizia F-WZMJ, mas na ponta do seu grande leme estava o seu nome verdadeiro: LIMA! Logo atrás de você em 8 de Novembro de 1982 chegou seu irmão MIKE, formando uma elite nas rotas da VASP! A vida foi mais dura contigo, você foi parado para servir de fonte de reposição de peças para seus irmãos, diziam que você tinha problemas de corrosão, não sei se é verdade e nem você vai poder me contar!

Porém foram extremamente cruéis contigo meu caro LIMA, te deixaram penando naquele hangar desde o meio de 2001 até ser despejado da cobertura que te protegia, tiveram a cara de pau de pintar seu enorme leme com as cores novas da empresa até o final dela, numa falsa esperança de que você voltaria ao ar. Ah, SNL, você viu a VASP parar e viu um amigo seu de empresa chamado PP-SFI ser a esperança do retorno que nunca aconteceu. A crueldade foi sem fim contigo, logo você, o primeiro A300 da VP! Trituraram seu irmão SNN em sua frente, naquela manhã nublada de 18 de Abril, e não tiveram piedade em te cortar em pedacinhos em 19 de Abril.

Próximo dali em Guarulhos, está aguardando o seu final o MIKE, PP-SNM, talvez com mesma máquina que destrocou os seus irmãos…

Meus dois amados Airbus A300B2K-203, foram picotados, no que chamam de Espaço Livre, engraçado que chamam de desmontar e o que aprendi pelos meus pais, pela vida, pelas escolas que desmontar não é sair picotando destruindo, desmontar é seccionar partes, mas não vou condenar ninguém aqui.

Os Airbus A300 foram e vão ser pra sempre a minha referência de aviação, vou sempre lembrar tantas vezes que fui ao aeroporto só para ver, justamente SNL, SNN… aviões lindos que faziam o som mais belo da terra pra mim, o par de CF6-50C cantando sob suas belas asas, ah os A300… agora apenas em lembranças de um coração apaixonado por aviões…

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Sobre o Autor

Alexandre Conrado, Piauiense, amando e pesquisando aviação comercial desde 1982, dedicando-se profissionalmente em Aeroportos e Manutenção há 13 anos. É apaixonado por hélices, poucos jatos e música eletrônica, atualmente é pós graduando em Gestão Aeronáutica.
  • Paulo Afonso

    Saudosa VASP!

  • http://twitter.com/leokingsize Leo Vasconcelos

    Guardadas as devidas proporções, senti algo parecido quando os 777 da Varig foram tomados pela Justiça. Ver o VRA e o VRB (voei nele!) indo embora doeu.

  • http://www.flightdeckinside.com/ Sander

    Não tive a felicidade de ver essas belíssimas máquinas voando. Assim como não tive o prazer de ver muitas outras, mesmo assim ainda sinto saudade.
    Queria ter nascido umas duas décadas antes para ter podido voar esses verdadeiros aviões…

    Pelo menos eles ficarão gravados nas memórias indeléveis da história.

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100003197680486 Leonardo Meca

    é muito triste o que aconteceu com os lindos aviões da VASP, como aqueles que estao em CGO.

  • http://www.facebook.com/luctimm Lucas Timm

    Minha pequena história com o Airbus A300

    Não sei exatamente em qual dos três, eu era muito guri na época (95 ou 96, infelizmente eu não me lembro). Mas meu primeiro vôo foi por um deles, de Guarulhos pra Porto Alegre. Eu tinha uns 7 ou 8 anos, e vim desacompanhado carregando uma pastinha com minha certidão de nascimento (original) no pescoço.

    O vôo atrasou por minha causa — o juizado não queria me deixar embarcar. Se me lembro bem, o motivo alegado é que minha família morava no interior do Rio Grande do Sul, não em Porto Alegre, e o juiz ficou “preocupado” do avião chegar em PA e não haver ninguém me esperando. Era a única alternativa para complicar, uma vez que toda a documentação exigida estava lá. Coitado, mal sabia ele que a mãe já me esperava por lá desde cedo (não no aeroporto, é claro).

    Após meu avô falar grosso com o juiz selando bem a discussão, o embarque foi autorizado. E se me lembro bem, as palavras foram: “Meu neto não é boca aberta. Se ele chegar e a mãe dele não estiver lá, ele vai esperar sentadinho na loja da VASP.”

    Após isso, uma comissária (“aeromoça”) me pegou pelo braço na hora, e disse: “Dá tchau pro vovô”. Saímos correndo, Cumbica afora, até que ela me deixou dentro de um tunel esquisito e disse: “Continua caminhando até o final, lá na frente tem outra tia te esperando”. E tinha! Fui imediatamente colocado na classe executiva (ou primeira classe, whattever), ao lado de outro guri (um tal de Felipe, que nunca mais o vi), e de outras crianças que voltavam da Disney cheias de brinquedos. Fui muito bem recepcionado.

    Depois da decolagem, o tal do Felipe (que já tinha voado várias vezes) me explicou como funcionavam os botões das poltronas. Aliás nunca mais vi isso :) A cada curva nós soltavamos o cinto de segurança e “surfávamos” acompanhando o ângulo do avião. hehe, nós damos trabalho pras comissárias.

    Naquela época eu também imaginava que o avião teria hélices, fazia barulho e voava de ponta-cabeça. Não presenciei nada disso durante o vôo. Fiquei imaginando quão grande era aquela máquina (sempre fui extremamente curioso) e quando fui até a cortina, verifiquei que tinha muito mais pessoas do que eu imaginava ser possível na parte de trás. Quando chegamos em Porto Alegre, ao desembarcarmos, vi que as “turbinas” ainda giravam devagar, o que fez sentido de não ter ouvido nenhum barulho durante aquelas 2 horas de vôo. De 737 ou Airbus A320 não passa de 1:30 :P

    O tempo passou, e durante anos eu imaginei que aquela viagem tivesse sido realizada num Boeing 737. Quando mudei para Goiânia acabamos morando na frente do aeroporto por certo tempo, então eu apenas conhecia os Fokker 100 da Tam e Boeings 737 da Vasp, Varig, Transbrasil e Rio Sul. Que não havia sido um Fokker 100 eu não tinha dúvidas, pois só a Tam tinha Fokkers, e as “turbinas” ficavam atrás — diferente do que eu tinha visto. Então era a única alternativa que me sobrou acreditar.

    Mas quando comecei a me interessar pela aviação, e descobri a diferença entre os portes das aeronaves, imaginei que esse vôo teria acontecido DC-10. Mas quando fui ver um antigo layout de cabine dos Airbuses A300 da VASP em comparação aos DC-10 e MD-11, tive a certeza que meu primeiro vôo foi no A300, e também pelo flight deck — Entrei por engano enquanto procurava o banheiro. A porta estava aberta, a tripulação não me viu, mas a imagem de todos aqueles instrumentos ainda existe na minha memória. :)

    Após isso demorou algum tempo até eu poder voar novamente. O almoço virou lanchinho, que virou amendoim, e agora até a água é paga em algumas companhias (sim, Webcrap, estou olhando para ti). O Salgado Filho ganhou outro terminal de passageiros, o antigo foi reaberto há pouco mais de um ano, não existem mais wide-bodies em rotas regulares no Brasil, o Lito é mayor no Foursquare em Guarulhos, os Airbuses A300 foram destruídos e a vida segue em frente…

    Cheers,
    Lucas Timm

  • http://www.facebook.com/people/Rodrigo-Vieira/100001670087399 Rodrigo Vieira

    Consegui fotografar o interior deles, 2 dias antes de serem picotados, estão no meu facebook.

    • http://www.facebook.com/luctimm Lucas Timm

      O álbum não está publico, poderia fazer a gentileza? :)

  • http://pulse.yahoo.com/_XKLNXMYOX65A2TKATFYVOA6L3M Orlando

    Os som daqueles motores era uma sinfonia, aqueles Airbus eram verdadeiros pássaros. Tive a Honra de fazer parte do grupo de Flight Engineers, foi por pouco tempo, mas foi intenso. Me lembrarei eternamente disso.

  • http://pulse.yahoo.com/_XKLNXMYOX65A2TKATFYVOA6L3M Orlando

    Ouçam a sinfonia que o giro das blades produziam e entendam porque o ronco dos GE CF6-50 são e sempre serão um dos mais belos.
    http://www.youtube.com/watch?v=HyyEupF8OBk 

    • ar-sousa

      Legal. Muito bom o vídeo!!!

    • AugustoGalvao50

      E de levar às lágrimas o que fizeram com eles!!!

  • http://pulse.yahoo.com/_XKLNXMYOX65A2TKATFYVOA6L3M Orlando

    Ah, esqueci de mencionar sobre o “Buzz” característico do ronco do motor.

  • Generoso Ferrero

    Essa foi um momento bom da aviação, NÃO VOLTA MAIS!!!

  • Pablorenato

    Amigos… trabalhei na Vasp de 82 até 91, pude fazer parte dessa grande família, trabalhava no GIGXT ( no setor de telex no aeroporto do Galeão ). Até hoje sinto saudades daquele tempo!! Pena que uma má administração jogou a Vasp e todos os funcionários no buraco!

  • AugustoGalvao50

    Sempre digo e vou continuar! A FAB perdeu uma oportunidade de ouro! Poderia ter ficado com estas aeronaves à epóca, converteriam-nas em KC’s e estariam aí hoje em perfeito estado voando e prestando ótimos serviços a força aérea.
    Nem vou detalhar o procedimento jurídico para isto acontecer, para não revoltar os amigos da aviação, que com certeza concluiriam que não o fizeram ou por burrice ou obtusidade! E agora lá se vão os 767′s da Transbrasil do mesmo jeito!

  • Eduardo

    Já voei no velho A300 da Vasp THE-BSB
    Agora o que me deixa com raiva é a anac não autorizar o uso do A321 no aeroporto de teresina por alegar que a aeronave é GRANDE DEMAIS !

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