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CRUZEIRO DO SUL – Herança Lufthansa no Brasil

A poderosa Lufthansa em 1927 começou a criar subsidiárias ao redor do mundo para sustentar sua rede de rotas e uma destas subsidiárias se chamava Sindicato Condor, que viria a operar no Brasil. Vale lembrar aqui, que esta foi a primeira companhia aérea a operar no Brasil, e inclusive devido a ociosidade da frota, repassou uma de suas aeronaves para a VARIG nascer, gerando um grande conflito sobre pioneirismo da primeira aérea Brasileira, mas sinceramente para mim a primeira foi a Sindicato Condor.

A grande operadora de aviões Junkers, com a explosão da segunda guerra, veio a ser nacionalizada trocando o nome para CRUZEIRO DO SUL. Seu presidente na época era José Bento Ribeiro Dantas e o seu fiel escudeiro Leopoldino Amorim.

A CRUZEIRO foi também uma pioneira em desbravar o país e durante a segunda guerra mundial se complicou pelo fato de possuir uma frota basicamente de aeronaves alemãs, sendo obrigada a migrar para os Douglas DC3 americanos.

Moderna e atrevida, a CRUZEIRO investiu na sua frota ao longo dos anos adquirindo Convairs e Douglas DC4, operando linhas internacionais pela América do Sul (Bolívia, Peru, Colonias Inglesas e Francesas).

O tempo voava para a CRUZEIRO DO SUL que partiu para a era do jato operando aeronaves Caravelle (cuja fábrica hoje são as instalações da ATR). Com a armação da quebra da PANAIR, coube a CRUZEIRO participar do jogo sujo e herdar as linhas amazônicas e alguns Caravelles. A CRUZEIRO também foi uma grande operadora dos aviões japoneses NAMC YS11, que a VASP chamava de Samurai.

Os anos 70 vieram e com eles a CRUZEIRO foi a pioneira em encomendar os Boeing 727-100, mas coube a VARIG receber primeiro. A companhia precisava de forma definitiva, enfrentar TRANSBRASIL e VASP pela corrida do segundo lugar e estas já operavam uma frota mais capaz aos serviços que desempenhavam, então veio com um financiamento americano a compra de seis Boeing 737-200 que se aliariam a 8 Boeing 727-100 formando a rede da CRUZEIRO DO SUL.

PP-CJG 727-100 Cruzeiro do Sul, foto de Daniel R. Carneiro

A ousadia porém prejudicou a saúde financeira e a CRUZEIRO começou a vislumbrar uma fusão com a TRANSBRASIL, até que a VASP interessadíssima em voar ao exterior acertou a compra da CRUZEIRO, e com o negócio já fechado, começou a pechinchar o preço, pechinchou mais uma vez e aí a VARIG veio com um valor por ação superior a suas próprias ações e comprou a CRUZEIRO!

Cabe lembrar aqui que nesta época os donos da CRUZEIRO tinham uma empresa chamada CRUZEIRO TAXI AÉREO, sediada no Rio de Janeiro. Esta taxi aéreo operava serviço de aerofoto com aeronaves Beech QueenAir, Helicópteros Super Puma em vôos na Bacia de Campos e Amazônica, Islander, etc.

Seria ali em 1975 a morte da CRUZEIRO, pois de agora em diante passaria a ser o fantoche da VARIG, mas em que aspecto? Os Funcionários, códigos de vôo, direitos de rota e representantes independentes nas negociações com o poder concedente, a CRUZEIRO aparecia como mais uma empresa independente, ainda que claramente o voto sempre fosse a favor da VARIG. Para o público passava-se a impressão de mais opções e concorrência, mas a realidade era outra, e ainda por cima a VARIG usava a marca secundária para experiências.

A primeira veio em 1979 com a encomenda de 4 Airbus A300B4-203 e a segunda em 1983 com a incorporação do único MD80 da história da aviação comercial Brasileira. A VARIG no entanto assombrada com o sucesso dos A300 na CRUZEIRO e os problemas de usar tais aviões nas rotas para Miami, optou por receber os dois A300 restantes da encomenda em suas cores.

O MD80 apesar do sucesso na operação acabou sofrendo o azar de uma variação econômica e as seis unidades que voariam na CRUZEIRO foram canceladas. Os anos 90 vieram e com a abertura das rotas internacionais, começou a deixar de fazer sentido a continuidade da marca, alguns 727-100 foram vendidos, os A300 também, sobrando os seis valentes 737-200 em cores próprias que a partir de 1 de Janeiro de 1993, passaram a ser aviões VARIG… encerrava-se ali a CRUZEIRO DO SUL, porém com a demanda e necessidade os aviões voaram alguns anos mais com pintura CRUZEIRO, até serem pintados de VARIG.

PP-CJT B737-200 - Foto de Carlos M. Dória

Ironicamente em 2001, a VARIG entrou em crise profunda e um dos aviões resgatados para sustentar a gaúcha no ar, foi o PP-CJT, mais tarde vendido para aviação Argentina. As estrelas na cauda sumiram. A lembrança além da memória das pessoas eram os helicópteros da taxi aéreo, que seguiu independente. Para delírio dos entusiastas, no final de 2011 surgiu um EMB120 matricula PP-IAS voando inicialmente no Rio e Belo Horizonte com a logomarca da CRUZEIRO na cauda e nome na fuselagem, era a CRUZEIRO TAXI AÉREO com novos investidores e adquirindo aeronave, dias depois surgiu um King Air PT-ONU com o mesmo logotipo na cauda. Semanas depois o PP-IAS foi para Manaus operar para Tefé em favor de uma empresa de exploração de petróleo.

EMB-120 PP-IAS - Foto de Lvcivs

Será o retorno quem sabe um dia da CRUZEIRO DO SUL? Obviamente o espírito não será o mesmo, mas o legado sim!

Nesses anos de aviação, tive oportunidade de conhecer ex-funcionários da CRUZEIRO e os mesmos falam com amor pela mesma até os dias atuais, como uma verdadeira família e escola, inclusive na época da incorporação pela VARIG como uma empresa superior à VARIG, sendo que esta teria feito um excelente investimento ao adquirir a CRUZEIRO.

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Sobre o Autor

Alexandre Conrado, pesquisador de aviação e profissional no segmento desde 2001
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