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De Cascavel-PR até Oshkosh em um Bonanza A-36 #aventura

Uma imagem especial marcou Oshkosh neste ano de 2012, dividindo as atenções entre Lockheed Galaxy C-5, Globemaster C-17, DC-10 da Orbis, entre outros, o valente Bonanza ancorado entre a platéia da “flight line” de Oshkosh chamava a atenção de quem é brasileiro.

Bonanza com a bandeira do Brasil e Oshkosh

Cena rara em Oshkosh

Mapa mostrando a rota de Cascavel até Oshkosh

Mapa mostrando o caminho de Cascavel até Oshkosh

As pernas de voo que o Bonanza cumpriu até chegar a Oshkosh:
Cascavel/ Rondonopolis 3.3 Hrs
Rondonópolis / Sinop 2.0 Hrs
Sinop / Alta Floresta 1.0 Hr
Alta FLoresta / Itaituba 2.5 Hrs
Itaituba / Boa Vista 3.3 Hrs
Boa Vista / Grenada 3.9 Hrs
Grenada / St Marteen 2.6 Hrs
St Marteen / Providenciales 3.4 Hrs
Providenciales / Fort Lauderdale 3.2 Hrs
Fort Lauderdale / Atlanta International 3.5 Hrs
Atlanta International / Chicago O’hare 3.9 Hrs
Chicago / Oshkosh 1.4 Hrs

Como será fazer uma viagem de Cascavel até Oshkosh em um monomotor? Como planejar? Quanto tempo durou? Quanto custou? Estas e outras perguntas foram feitas em um bate papo muito agradável que tive com o piloto do PR-EEK, Eduardo Krum.

AeM: É a primeira vez que vocês vêm até Oshkosh?
Eduardo: Voando de lá para cá sim, a primeira vez, mas já fiz três traslados de aeronaves com matrícula N daqui dos Estados Unidos para o Brasil.

AeM: Como foi planejar uma viagem tão longa em um monomotor, quanto tempo de planejamento para concretizar o voo?
Eduardo: Começamos a planejar 3 meses [antes do início da feira em Oshkosh], começamos a ter a ideia, [eu e meu pai], e aí pensamos: precisamos conseguir um parceiro para a viagem, mas estava difícil por que nenhum de nossos amigos conseguia tirar 20 dias de folga na empresa e o pessoal acabava desistindo do projeto. Até que finalmente conseguimos mais dois amigos para rachar a viagem. O planejamento da rota a gente fez se baseando mais ou menos com os mesmos trechos de quando levamos aeronaves daqui para lá, só que em sentido contrário obviamente.

AeM: E teve algum patrocínio na viagem?
Eduardo: Não, não tivemos nenhum patrocínio, dividimos a despesa entre nós quatro: eu, meu pai e dois amigos.
O custo da viagem acabou saindo mais barato que uma passagem de primeira classe, com tudo incluido: as taxas aeroportuárias, combustível, alimentação, hospedagem [aproximadamente 24 mil dólares, 6 mil para cada um. Uma passagem de primeira classe do Brasil aos EUA custa por volta de $7.000, só um trecho]. O combustível só é caro mesmo no Brasil. De Cascavel até boa vista foi o trecho mais caro da viagem [absurdo não]. Nas ilhas as taxas são um pouco caras e tem que ser caro mesmo, porque é uma ilha, as coisas são de difícil acesso, mas depois que entra no continente americano tudo fica muito barato.

AeM: Quanto tempo de voo?
Eduardo: Foram 34 horas de voo. O gostoso de vir é que pudemos aproveitar os pernoites sem pressa. Pousamos em Granada, Saint Marteen (Princess Juliana) só para para passear.

AeM: Ah, então sentiram o jetblast na praia de Maho-Maho? risos
Eduardo: Sim! E o jet blast machuca! risos

Foto do painel do Bonanza

Painel Bonanza A36

AeM: E mecânico? Trouxeram mecânico a bordo para o caso de terem alguma pane no caminho?
Eduardo: Não, nenhum mecânico a bordo. O EEK [Bonanza] tá novo, tem só 500 horas de voo.

AeM: Se não me engano, a cada 50 horas se troca o óleo não é? Vocês voaram 34 pra vir de lá até aqui…
Eduardo: Sim, a cada 50 horas troca [o óleo]. Trocamos antes de sair do Brasil e vamos trocar óleo e filtro [que não foi trocado na última] em Whichita na volta, e depois seguimos para Ft Lauderdale.

AeM: Como é o processo de sair do Brasil para um voo internacional com seu próprio avião? É complicado entrar nos Estados Unidos?
Eduardo: É muito mais fácil entrar nos EUA do que sair do Brasil. Nosso último aeroporto antes de sair do Brasil foi Boa Vista e o fiscal da receita queria saber exatamente tudo o que estava saindo do País [saindo!!], peças, bagagem, Notebook, Ipad… pediu a nota de um Ipad antigo que uso, que nem fabrica mais.… e disse que ia cobrar taxa na entrada quando voltássemos caso o iPad não tivesse Nota. Estamos pensando em alterar o retorno para Manaus só para não encontrar o [dito] fiscal novamente, se ele nos deu tanto trabalho para sair, imagina pra entrar.

AeM: E qual foi o primeiro ponto de entrada em território americano? Como foi o processo?
Eduardo: Foi Ft Lauderdale [na Flórida] o primeiro aeroporto nos EUA e a imigração é muito simples, como se fosse um a imigração de um passageiro comum, sem encherem o saco. É um guichê menor, mas carimbam o passaporte do mesmo jeito, tiram foto, impressão digital.

AeM: E o pagamento das taxas aeroportuárias?
Eduardo: Isso é outra coisa que é muito mais caro no Brasil que aqui. Pousamos em grandes aeroportos internacionais, Atlanta, O’hare.. a taxa de O’hare foi só 55 dólares, com todo o apoio de solo que você possa imaginar, carro, combustível, carona para o terminal e tem alguns aeroportos que nem taxa cobram, como Ft Lauderdale por exemplo.

AeM:E aí você começa a perceber o porquê da aviação nos EUA ser tão evoluída não é? Combustível barato, avião barato, não tem um milhão de taxas, qualquer sujeito classe média consegue ter um avião..
Eduardo: É, um Cessna 172 se consegue comprar por 30 mil dólares, voa o quanto quer, fácil, taxa, carteira, tudo fácil…

AeM: E aqui em Oshkosh não paga nada para deixar o avião?
Eduardo: Não paga nada, só paga combustível, e nem isso porque não conseguimos abastecer ainda(risos). Chegamos 8:30 da manhã, ligamos, pedimos, mas o povo não tem acesso aqui por causa do público, daí vamos decolar assim mesmo e voar uma hora para um aeroproto que fica perto daqui, daí abastecemos e vamos para Whichita visitar a fábrica da Cessna, da Beech, depois vamos para Vero Beach, na fábrica da Pipper e rumamos pra o Brasil.

AeM: E o tempo na travessia? Teve algum problema com tempestades, tempo ruim?
Eduardo: Não temos do que reclamar. Não tivemos nenhum problema, tempo bom o tempo todo e vento de cauda de até 30 nós, só pegamos vento de proa mesmo chegando em Chicago. Na verdade a nossa saída atrasou em Cascavel por causa do mau tempo e o único tempo ruim mesmo que pegamos foi saindo de Boa Vista, tivemos que fazer um trecho em instrumentos. Em SINOP também, nós decolamos para Itaituba, mas como estava fechado lá alternamos Alta Floresta, ficamos 1 hora e pouco até abrir Itaituba e fizemos Itaituba – Boa Vista.

AeM: Qual foi o maior trecho voando sobre a água? Quantas Horas?
Eduardo: Foi o trecho entre St Marteen e Providenciales, deu umas 3:40hs total, sobre a água dá umas 3:20hs, mas você enxerga terra, olha para a esquerda e a 20 milhas tem uma ilha, 40 milhas a direita tem outra, e em todas as ilhas tem aeroporto então a gente não voa uma hora sem ter um lugar pra pousar né? A rota é ajustada, a gente sempre abre para algum lado para se manter sempre próximo a um lugar para pousar.

AeM: E a performance do A36? Vocês em quatro passageiros, mais a bagagem…qual o peso máximo de decolagem que vocês pegaram? Comprometeu a autonomia?
Eduardo: A lotação do Bonanza são 6 passageiros, estávamos em 4 mas tínhamos muita bagagem, mas ainda assim tínhamos uns 150kgs de margem. A autonomia é de 5:30hs com peso máximo.

AeM: Fala um pouco do avião, o Bonanza é dócil? Rápido?
Eduardo: Sim, muito dócil de pilotar, 150 nós de cruzeiro, consumo de 14 a 16 galões dependendo da altitude, 60 litros de combustível por hora aproximadamente na média.

AeM: E qual a altitude média que planejaram na rota?
Eduardo: Na média 8500 pés, em alguns pontos tivemos que vir a 11.000, ali em Boa Vista e Granada tem uns lugares bem altos, fomos até 11.500. Sobre o Caribe viemos baixo por que queríamos ver as ilhas, viemos a 3, 4 mil pés sem se preocupar com o consumo.

AeM: Você fez seu curso de piloto no Brasil?
Eduardo: Fiz o PP no Brasil, mas vim para cá fazer comercial, multi, instrumentos, fiz tudo aqui.

AeM: Valeu Eduardo, obrigado por matar a curiosidade do pessoal que lê o Aviões e Músicas e tenho certeza vai apreciar bastante esse nosso bate papo.
Eduardo: Prazer foi meu, grande abraço pro pessoal.

Foto dos 4 amigos que foram juntos a Oshkosh no Bonanza

Os 4 amigos Adriano Sabião, José Torres, Eduardo Krum e Eugênio Krum junto ao PR-EEK.

Foi muito legal conversar com o Eugênio e o Eduardo, que é um garoto mas já sente na pele as dificuldades que esse nosso querido Brasil, através dos seus representantes, impõe ao desenvolvimento da aviação (e de qualquer outro campo pra falar a verdade). Tudo é difícil, tudo é caro, tudo tem menos qualidade e preço maior, a ganância acima do bem comum. Estamos perdendo mais um bonde para uma nação de futuro enquanto um fiscal se preocupa com um cidadão saindo do país com um iPad velho.

Pra quem quiser refazer a viagem dos amigos no FSX, eis os aeroportos em sequência: SBCA-SWRD-SWSI-SBAT-SBIH-SBBV-TGPY-TNCM-MBPV-KFXE-KATL-KORD-KOSH

Bonanza PR-EEK e o sol se pondo em Oshkosh

PR-EEK Bonanza A-36 e o sol se pondo em Oshkosh

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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