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Descarga nos banheiros – A tecnologia aeronáutica a favor da boa higiene e conforto.

Ir ao banheiro é uma coisa tão corriqueira não é? É simples, só fazer o número 1 ou número 2 e apertar a descarga certo?
Mas imagine se o seu banheiro estivesse a mais de dez mil metros de altitude, como funcionaria a descarga? Para onde iria o esgoto?

Hoje em dia os aviões comerciais possuem os banheiros limpos, perfumados, com vasos de teflon para as “coisas” não grudarem (embora pareça ter gente que come cimentcola quartzolit) e ventilação, mas sinto informar que nem sempre foi assim.

Não vou voltar muito ao passado, vamos lembrar de apenas alguns anos atrás quando o Electra cruzava os ares entre São Paulo e Rio de Janeiro, transportando políticos, empresários e os artistas mais famosos do país. Alguém lembra como eram os banheiros da “Garça”? (apelido que os tripulantes davam ao Electra).

Vou refrescar a vossa memória:

Pia do Banheiro do Electra da Varig

Botão de descarga (desculpem a falta de foco)

Vaso sanitário e água azul

O famoso Anti-Splash

Bem, a memória visual eu acho que refresquei, agora será que é possível lembrar do odor deste tipo de lavatório? É um odor característico dos banheiros de “água azul”, que possuem a água desta cor por causa de um produto químico adicionado ao tanque de dejetos para “retirar o odor” de dejetos humanos e proteger o sistema contra corrosão (afinal a urina humana é extremamente corrosiva).

O banheiro do Electra era semelhante a um banheiro de ônibus, o tanque de dejetos ficava logo abaixo do vaso sanitário, e por melhor que seja o produto químico, convenhamos que milagres não existem e daí surgia o tal “odor característico”. Prometo que não vou deixar o post muito escatológico, mas vejam na foto 4 acima uma borracha preta no fundo vaso.

Aquela borracha possuía o sugestivo nome de “anti-splash”… e aviões sofrem turbulência… precisa desenhar?

Voltando aos tempos “mudernos” e aos vasos sanitários de teflon e descarga à vácuo, e ainda tentando não fazer escatologia (e não conseguindo), vocês têm idéia da velocidade que um cocô trafega nos tubos de titânio de uma aeronave comercial de grande porte depois que você “puxa” a descarga? Não que você deva se orgulhar da proeza, mas a viagem do vaso até o tanque é feita na velocidade média de 60 metros por segundo! Colocando em termos mais corriqueiros, isso dá 216 Km/H (quilômetros por hora)! “Eles” atingem esta velocidade porquê, ao contrário dos banheiros antigos em que o tanque ficava abaixo do vaso, os reservatórios agora ficam bem próximos à cauda da aeronave e um sistema de vácuo causado pela diferença de pressão interna na cabine de passageiros e a pressão atmosférica (externa) succiona os dejetos e líquidos com muita precisão. Ver o vídeo abaixo.

Apesar de toda esta tecnologia, tem uma coisa que irrita muito quem trabalha em manutenção de aeronaves: banheiros com problema de entupimento. Sim senhores, banheiros de avião também entopem (ver passageiros que comem argamassa logo acima). Brincadeira, o entupimento é causado comumente por duas coisas: pó de café que as comissárias costumam jogar no vaso (POR FAVOR: Se você é ou vai se tornar comissário de bordo, faça um favor ao seu colega de empresa: NÃO JOGUE PÓ DE CAFÉ NO VASO SANITÁRIO #$%#@@!).
O segundo motivo são passageiros que acreditam que a tubulação de um avião é da largura de uma tubulação tigre de apartamento e jogam fraldas, absorventes higiênicos, meias, relógios, e papel, toneladas de papel.

Mas olha, vou contar uma coisa para você mecânico novinho que reclama de entupimento em aviões modernos: imagine ter que pegar a borracha do anti-splash quando ela caía (e ela caía!) no tanque de dejetos… precisa desenhar?

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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