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Discutindo o setor aéreo no Brasil – precisamos mudar, e rápido.

A rede Bandeirantes no Domingo passado fez um especial para discutir as crises no setor aéreo brasileiro, com participação do CEO da Azul David Neeleman.

Vale muito a pena assistir o programa inteiro e por isso coloco aqui os 3 vídeos, com aproximadamente 15 minutos de duração cada.

Depois da participação de ver e ouvir as palavras do Neeleman, posso dizer três coisas:

1- Eu penso exatamente como ele na maioria das questões que aborda.
2- Se alguma coisa mudar neste país com opiniões de CEO como as dele, poderemos ter um marco histórico neste país: aviação antes e depois de David Neeleman.
3- O congresso brasileiro precisa começar a trabalhar de maneira urgente para resolver a questão das algemas que cerceiam o desenvolvimento aéreo brasileiro….putz, esqueci que um dos eleitos é Tiririca… o povo não pensa em quem vota e depois coloca a culpa no presidente, que não pode legislar. Enfim….

Bem, a primeira (e melhor) parte do especial:

Revelador não?
Sutilmente houve uma alfinetada nas concorrentes como parte do problema aéreo, mas a frase principal foi esta:

“Imagine se a Petrobrás tivesse que seguir as leis que são usadas na aviação?”

Tudo o que ele falou é tão claro para mim e tantas vezes discutimos estes mesmos assuntos entre nós (que conhecemos a aviação americana de perto) e é tão difícil compreender porque não se adotam as mesmas medidas aqui.
Cáspita, se pra fazer operação simultânea de pousos e decolagens em Guarulhos o Brasil tiver que romper com a ICAO, pois que faça! Os Estados Unidos não seguem a ICAO e não conheço outro país que seja tão visitado por meio aéreo. Qual o problema então?

Não tenho conhecimento profundo sobre as “algemas” da Infraero e não sei se a culpa é do governo ou da própria, mas convivo diariamente com soluções remendadas de problemas que deveriam ter sido previstos há muito tempo e não foram. Eu sou pago para ver coisas erradas no avião e consertá-las. Imagino que deve haver alguém olhando coisas erradas na infra-estrutura… só não sei porque não são corrigidas!

Não costumo falar disto aqui no blog, mas um exemplo para que todos entendam o que é conviver num aeroporto saturado como Guarulhos (GRU):

Em 2000, GRU possuía provavelmente metade da população aeroportuária que possui hoje (pessoas que trabalham no aero). Em 2000 haviam 4 entradas para a rampa do aeroporto (ASA A, B, Interligação C e asa D), sem contar as entradas pelas empresas aéreas que se situavam nos TECAS (terminais de carga – VArig/Vasp/Transbrasil). Não se usavam máquinas de raio-X, apenas detetores de metais.

Quando veio o ataque terrorista nos Estados Unidos em 2001, a segurança foi intensificada e máquinas de raio-X se fizeram necessárias para aumentar a segurança. Você acha que foram compradas máquinas de raio-X para todas as entradas? Óbvio que não, o caminho mais fácil [e obtuso] foi fechar todas as entradas e deixar apenas a entrada “C” com apenas 2 máquinas, uma para quem entra e outra para quem sai (sim, acho que São Paulo possui o único aeroporto do mundo que os funcionários são submetidos a passar pelas máquinas de raio-X também na saída).
Dez anos se passaram, a população de funcionários dobrou (como tudo relacionado ao setor aéreo) e continuamos somente com 1 (uma!) entrada para o acesso a rampa aeroporto. Nos horários de rush, formam-se filas enormes de funcionários para sair. E o pior, esta fila é tão grande que invade a área onde tratores de bagagens fazem manobras, atrasando a entrega de malas para os passageiros!! Todo santo dia acontece isto!

Será que não há dinheiro suficiente para comprar mais máquinas de raio-X e contratar mais funcionários de segurança para desentupir a entrada e saída de funcionários? Qual será o problema de solucionar algo tão simples? Quem será o responsável por ver isso? Eu sou um técnico em aviação, eu não sou um técnico em infra-estrutura.

O nível de stress dos funcionários está aumentando por falta de espaço para pessoas e veículos, tudo está saturado, não é só a parte que afeta o passageiro. Toda solução apresentada para cada novo problema que surge é paliativa, não existem soluções pensadas, a impressão que dá é que não há administração…ou como diz o repórter no vídeo, há incompetência também.

A solução existe, basta olhar como foram resolvidos estes mesmos problemas há 30 anos atrás nos Estados Unidos e em outros países…basta copiar.

Foi só um pequeno exemplo e um desabafo, o caos aéreo está por toda parte e qualquer proposta de solução tem que contar com a participação também dos setores envolvidos, ninguém conhece mais a rampa do aeroporto do que quem trabalha nela, e não um engravatado que vê números.

Parte dois e três do vídeo:

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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