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E a matéria da “Super Interessante” deixou a desejar

As vezes eu me pergunto o que leva ao fascínio por acidentes de avião. E eu mesmo me respondo: é porque como quase nunca acontece acidente, levantam-se estatísticas desde os primórdios para fazer “volume” e aproveitar o medo inconsciente das pessoas para ganhar “clicks”.
Claro que isso não é exclusividade de nenhum órgão de imprensa, todos possuem uma maneira peculiar de tratar assuntos de aviação, e concatenar fatos totalmente não relacionados para produzir “volume”. Nós vimos nesta semana em que o MH370 desapareceu, que órgãos de imprensa adicionavam ao mesmo noticiário o voo da GOL com capotas abertas e um voo da TAP que alternou a Ilha do Sal. Ora, todos os dias ocorrem no mundo inteiro algum problema que pode ocasionar um pouso em um lugar alternativo, e isso faz parte da segurança da aviação em evitar acidentes. Isto não é notícia relevante.

Geralmente não perco meu tempo rebatendo matérias (nenhuma linha sobre o incidente da GOL saiu neste Blog por exemplo), mas o artigo da Super Interessante de Dezembro de 2009 que foi ressuscitado pelo Facebook entra na categoria jornalística “Tablóide Inglês de Desinformação” e merece algumas linhas.

A começar pelo título: Como cai um avião? Que título é esse? Não vou nem falar da máxima usada na indústria de que aviões não caem, mas vou ficar esperando a sequência de artigos, do tipo: Como bate um carro? Ou quem sabe, Como afunda um navio?

O artigo começa assim:

O avião é o meio de transporte mais seguro que existe. Mas algo sempre pode dar errado.

Sempre pode dar errado?? Sempre mesmo? Como se explica então as milhares de decolagens diárias que terminam em pouso seguro?
E o artigo continua, descrevendo como seria o anúncio de uma comissária fictícia que só falasse a verdade:

Durante a decolagem, o encosto de sua poltrona deverá ser mantido na posição vertical. Isso porque, em nossa nova e moderna frota de aeronaves, as poltronas da classe econômica são tão apertadas que impedem a evacuação da aeronave em caso de emergência.[…]

Talvez os autores não saibam, mas os assentos da primeira classe e da executiva também são colocados na vertical, isto não tem absolutamente nada a ver com o aperto da classe turística.
A comissária continua:

[…]A probabilidade de sobreviver a um pouso na água com um avião grande é mínima (geralmente a aeronave explode ao bater na água)

Ah sim, vimos isso no caso do rio Hudson, uma explosão ao bater na água..ahan.

O artigo prossegue falando dos casos que fariam um avião cair e chega na famosa despressurização, o horror dos horrores:

Em agosto de 2008, um Boeing 737 da companhia Ryanair, que ia para Barcelona, sofreu despressurização parcial da cabine. “Veio uma lufada de vento gelado e ficou incrivelmente frio. Parecia que alguém tinha aberto a porta do avião” […]. O que salvou os 168 passageiros é que o avião estava voando a 6,7 km de altura, mais baixo do que o normal, e isso permitiu que o piloto reduzisse rapidamente a altitude para 2,2 km, onde é possível respirar sem máscara.

Bem, não é porque o avião estava voando a 20000 pés que o piloto desceu rapidamente. Isto é o que TODOS OS PILOTOS do mundo vão fazer se ocorrer uma despressurização. Não interessa a altitude de cruzeiro, se as máscaras caíram ou não, o procedimento é descer. Vamos informar melhor? E no exemplo dado, o avião não caiu, então o título do artigo ainda está devendo.

Prosseguindo no devaneio:

Falha estrutural (ou como a força G pode despedaçar a aeronave).
O avião pode perder uma asa, leme ou outra parte vital quando está no ar. Quase sempre, o motivo é manutenção malfeita – a estrutura acumula desgaste até quebrar. Mas isso também pode acontecer com aeronaves em perfeito estado.

Não sei nem o que dizer aqui. Sério. Head in Hands. O cara não tem idéia da resistência dos materiais, dos processos de inspeção, do controle rigoroso de qualidade de cada rebite, enfim, de nada.

Se o piloto fizer certas manobras, gera forças gravitacionais muito fortes – e a fuselagem arrebenta.

Aham, a fuselagem dos aviões é bem fraca senhor autor. O acidente com o Asiana provou isso, só que ao contrário, senhor autor.

E a Boeing adiou o lançamento de seu novo avião, o 787, para alterar o projeto dele (simulações indicaram que, durante o voo, as asas poderiam sofrer forças G altas demais).

Não filho, não! A Boeing localizou pontos na seção central da asa que deformariam QUANDO levadas a extremos de carga, e não que elas poderiam sofrer forças G altas demais.

Pane nas turbinas
Acontece. Mas não pelo que você pensa.

O maior inimigo das turbinas não são as falhas mecânicas; são os pássaros. Entre 1990 e 2007, houve mais de 12 mil colisões entre aves e aviões.

Nenhum caiu neste intervalo de 17 anos por este motivo rapaz, então porque você está falando de bird-strike em um artigo com o título de “como o avião cai”?

Como no incrível caso de um Airbus A320 da US Airways que perdeu os dois motores logo após decolar de Nova York, em janeiro de 2009. Mesmo sem nenhuma propulsão, o piloto conseguiu voar mais 6 minutos e levar o avião até o rio Hudson. Num dos raríssimos casos de pouso bem-sucedido na água, ninguém morreu.

Ah, o bird-strike duplo ficou fora do intervalo de tempo de 17 anos acima e realmente levou o avião a fazer uma amerissagem, mas advinha só: o final foi bem melhor do que os que gostam de gerar pânico esperavam. E sabe por quê? Porque milhares de engenheiros aeronáuticos integram sistemas com o que há de mais moderno em engenharia na hora de projetar uma aeronave, para que a vida seja resguardada para o caso de tudo falhar. Eles todos devem fazer um Facepalm ao ler alguns artigos como este da revista.
Em tempo: há inúmeros outros casos de pousos bem sucedidos na água, basta pesquisar.

E chegamos à Turbulência.

Turbulência não derruba avião. Os jatos modernos são projetados para resistir a ela. Você já ouviu esse discurso? É uma meia-verdade.

Ansioso para saber mais.

Um levantamento feito pela Federal Aviation Administration (FAA), agência do governo americano que estuda a segurança no ar, revela que entre 1992 e 2001 houve 115 acidentes fatais em que a turbulência esteve envolvida, deixando 251 mortos

Nossa! Onde os aviões caíram e por que?

As vítimas eram passageiros que estavam sem cinto de segurança, e por isso foram arremessados contra o teto a até 100 km/h (velocidade suficiente para causar fratura no pescoço). Ou seja: em caso de turbulência, o maior perigo não é o avião cair. É você se machucar porque está sem cinto

Ué? Cadê a meia verdade? O próprio autor se contradiz em apenas um parágrafo?As vítimas fatais não estavam usando cinto, e o avião não caiu! Porque entrou turbulência no texto então?

E o supra-sumo do infográfico: Onde mais se cai?

onde-mais-se-cai

Percebam que em um período de 86 anos, tivemos 198 acidentes no Brasil. Vou repetir: Em um período de 86 anos, 198 acidentes aéreos no Brasil. Somente em 2011, somente no município de São Paulo, tivemos 25.391 acidentes de trânsito, 1 morte a cada 6,4 horas! (fonte CET). E o cara vem escrever um artigo de “como o avião cai”?

Continue olhando o gráfico e perceba que nos Estados Unidos foram 2613 acidentes! Logo, o Brasil é muito mais seguro de voar do que nos EUA! Yes!
Não! Esperem! O continente Africano é muito mais seguro, zero acidentes! Este sim é um gráfico de grande valia.

Como eu disse no início, não gosto de rebater matérias, isso é um trabalho impossível para o qual eu não tenho mais tempo e nem paciência. Mas este tipo de artigo da Super Interessante irrita quem trabalha em aviação. É como se todo o trabalho que diversos setores fazem para levar pessoas de um ponto ao outro da maneira mais segura possível fosse reduzido a um sensacionalismo barato de “corta pra mim, corta pra mim”.

Vocês podem até achar que sou “corporativista”, afinal estou na indústria que defendo. Mas estatísticas podem falar bem mais do que eu. Estatísticas, não infográficos como os da matéria.

Se os padrões de segurança da aviação fossem usados para admitir alguns autores em veículos de comunicação, talvez não tivéssemos que ler textos assim.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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