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E o May Day do 737 da GOL que passou na Globo?

No último dia 24 de Novembro, o leitor Padu Moraes deixou um link em um comentário sobre o incidente com o 737 da Gol após decolagem de Congonhas.

O incidente em questão ocorreu no dia 16 de Outubro, com uma perda parcial dos instrumentos essenciais ao voo.

Este é o áudio integral do incidente:

A matéria do Jornal da Globo não está tão ruim como de costume, e foca principalmente no trabalho do controlador de voo, que diga-se de passagem foi extremamente profissional passando as informações de “ground speed” (velocidade em relação ao solo) a todo momento para os pilotos.

Eu evitei comentar o incidente por que é difícil falar sobre algo que você não possui todos os dados sem cair em especulações que podem ser o oposto da verdade, principalmente em aviação.

O que eu posso comentar sobre a matéria da Globo ou sobre o possível acontecimento a bordo é que provavelmente houve uma condição de “unreliable airspeed”, em que as indicações dos instrumentos essenciais ao voo (velocidade e altitude) do piloto e do copiloto eram diferentes.

Neste ponto, as informações passadas pelo controlador de voo foram cruciais para que os pilotos identificassem quais instrumentos estavam corretos, e é aqui que entra a segurança que se encontra hoje em dia em qualquer aeronave e é por este ângulo que eu, como técnico, prefiro analizar o incidente: Os métodos de segurança embutidos no projeto da aeronave para evitar que uma falha humana causassem um acidente funcionaram perfeitamente bem.

Explico: Lembram quando eu escrevi sobre a redundância em sistemas de aeronaves? A redundância não existe somente para o caso de panes (uma vez que todo equipamento eletrônico ou mecânico é sujeito a falhar), mas também para o caso de erros humanos, tanto em manutenção quanto tripulação.

Só pra não deixar passar em branco e acho que isso faz parte de como a imprensa prende a atenção do telespctador com o sensacionalismo: em determinado momento, o William Waac diz aos 02:58 do vídeo que os pilotos “não sabem aonde estão”, o que não é verdade. Os pilotos seguiram sem curvar corretamente, se você não sabe qual a velocidade ou altitude correta em que está é óbvio que não vai querer curvar mas não perderam sua posição no espaço (situational awareness).

Eu não sei se realmente foi um “cabo” deixado solto deixado pelo pessoal da manutenção como informa o vídeo da Globo, ou se foi qualquer outra coisa, o fato é que não houve perda de toda a instrumentação a bordo graças aos sistemas redundantes das aeronaves.

Sei que algumas pessoas vão comparar este incidente da Gol com o do Air France AF447, especialmente por causa da animação que a Globo fez, mas não há comparação entre os dois, uma vez que o AF447 por uma fatalidade perdeu TODAS as suas indicações.

Mais uma vez o que ocorreu para o desfecho feliz deste incidente não foi um milagre e sim o treinamento do controlador, o treinamento e experiência dos pilotos no cross check e o design de segurança embutidos nas aeronaves. Aconselho lerem a série que escrevi sobre fatores humanos em acidentes aeronáuticos e como o estudo desta matéria aumentou dramaticamente a segurança de voo.

Quanto a empresa aérea, resta investigar o que aconteceu, implementar medidas para evitar que ocorra novamente e o principal, divulgar as informações da causa entre todos os outros operadores para que todos tomem medidas preventivas, e este círculo de aprendizado é auto alimentado pra que eu [e você] embarque cada vez mais tranquilos :)

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
  • Muito bacana a sua explicação, como é corriqueiro, didática e esclarecedora.
    Valeu Litão!

  • Gol

    Lito. Dizem quem foi uma mangueira do tubo de Pitot solta.

  • Show Lito!   E a cada dia que passa a aviação se torna mais segura e os sistemas ganham credibilidade. Tudo e todos estão sujeito a falhas, mas como sempre há diversas outras alternativas.   Vendo esse incidente, vemos quão importante é a presença de um humano perante a máquina!

  • De Sordi Roncetti

    Que belo trabalho esse do controlador, hein! tranquilo e sereno, vetorou sem pânico para as demais aeronaves.

  • De Sordi Roncetti

    Lito, ouvi nessa gravação e em outros pousos; o que quer dizer curta e longa final?

    • Não existe uma definição (que eu saiba) sobre exatamente quando uma final vira curta, mas ao passar pelo outer marker (trem em baixo e travado) já é considerado curta final (avistando pista). 

      • Então Lito e De Sordi Roncetti.

        Longa final é quando a aeronave inicia o segmento de aproximação final a uma distância superior a 4NM do ponto de toque ou, quando em uma aproximação direta, ela estiver a 8NM do ponto de toque (entrando ali na reta longa final).
        Abaixo a isso, deduz-se, é curta final.

        Abraços!

        • Valeu pela informação Alessandro, você sabe se esta definição existe em algum documento? Se tiver a fonte seria legal e eu até publicaria aqui.

          • Por nada meu caro.

            Então Lito, o documento que define a reta final em longa e curta eu não encontrei. Porém, a título de publicação e referência, procurei e achei a definição em um glossário aeronáutico publicado no site da FAB.

            O link para o glossário é: http://www.fab.mil.br/portal/trafegoaereo/Abreviaturas%20e%20termos.pdf

            (Uma dica aos leitores do blog é a leitura completa do mesmo, para melhor compreensão e familiarização com vários dos termos utilizados na Aviação.)

            Compensa também o acesso à página onde consta o link para o glossário (http://www.fab.mil.br/portal/trafegoaereo/). Tem muita informação para quem quer saber [mais] como funciona o Controle do Espaço Aéreo.

            Forte abraço e desculpe a demora na resposta.

  • Pingback: May Day do 737 da GOL que passou na Globo - Notícias Aviação PMW - Online PmW()

  • Muito bom, que trabalho do controlador. Isso mais deixa cada vez com mais segurança em voar de avião!

    Lito, fiz um um post da sua matéria que redireciona para seu site, espero que não tenha problemas.
    http://onlinepmw.com/wp/may-day-do-737-da-gol-que-passou-na-globo/

    • Sem problemas :)

  • Henrique Feliciano de Azevedo

    Desculpe lito, mas 737 tem computador de voo? Seria o FMC? Ou é só Airbus que tem? Grato

    • Gustavo Pilati

      Tem sim, assim como no Airbus possui FMC e outros tantos recursos que possibilitam o voo automático.

      A diferença do Airbus é que ele tem um sistema de proteção de envelope de voo que impede que o piloto coloque a aeronave numa condição perigosa.

  • Gongalosorio

    Não sei que técnico você é, mas lhe falta um pouco de lógica. Quem não está desorientado não precisa pedir proa ideal, como os pilotos fizeram. Se você entende um mínimo de CRM, que você faz supor seus leitores que você entende (duvido), notou que os dois pilotos estão falando a mesma coisa ao mesmo tempo, sintoma claro de bagunça. A matéria da Globo é excelente: humana, desprovida de detalhes técnicos capazes só de confundir o público — coisa que os chamados “técnicos” adoram fazer em nome do domínio de detalhes irrelevantes. Nada tem de sensacionalismo o fato de que os pilotos estavam desorientados. Você por acaso teve acesso ao track do radar? SE tivesse, veria que o avião barrigou na decolagem — claro, com unreliable airspeed o flight control fez o auto throttle ir para trás, e tinha sim uma óbvia conexão com o 447: stall na subida. Na confusão uma coisa teria ajudado os pilotos a concluir que não estavam na situação do AF447: o controle recebia o modo C do transponder — portanto, pitot não seria o problema. Você está mais preocupado em atacar a Globo do que em explicar o lado “técnico”. Típico caso de tapa olho ideológico. Vai discutir filosofia.

    • Nossa, temos um expert em CRM aqui, que nem ouviu o CVR mas sabe que os pilotos estavam em confusão. Que manja de track de radar mas não sabe que o sistema de navegação do avião é totalmente independente do sistema de dados de ar. Que não percebe que se os pilotos estavam em vetoração radar era muito mais fácil solicitar a proa para qualquer lugar ao invés de ficar programando FMC. Enfim, eu poderia ficar aqui discutindo com você a noite toda sobre qualquer assunto que quisesse, só que a discussão para por aqui simplesmente porque você é mal educado e não sabe opinar. 
      Como eu sempre procuro ajudar as pessoas, assista um pouco de Discovery também, assistir só a globo pode fazer mal a sua saúde.

      Passar bem.

      • Gongalosorio

        Como é fácil pegar um técnico que nada entende de navegação aérea. Quando o repórter da Globo — que você, desonestamente, chama de sensacionalista — diz que os pilotos estão perdidos ele tem toda razão e você, nenhuma. Pois essencial na navegação aérea é o ponto vertical no espaço. Quer que eu traduza? Quanto tem embaixo até bater no chão. Sem leitura confiável de altitude, eles literalmente não sabem onde estão. Claro que qualquer um consegue saber se está à direita ou esquerda de Santos, ou no quarteirão acima ou abaixo da casa da sogra. Para pilotos é diferente e a dúvida sobre a altura em relação ao solo é fatal, ainda mais considerando o relevo de São Paulo. Quer outra prova de que você está errado e o repórter da Globo está certo? Os pilotos indicam que querem ir para Campinas. E anunciam que querem ir para Dadib. Dadib é um fixo alinhado com o IAF do procecimento RNAV da 33 de SBKP, que é AFAV, onde ele teria de estar a 4200 pés. E o que acontece? Os pílotos desistem do RNAV, desistem de Dadib, e pedem vetoração para a final da 33. Isso só acontece em aviação, senhor “técnico”, quando a tripulação está perdidinha da silva. Ninguém que navega numa terminal por meios próprios precisa pedir proa para controlador. Eu não quero voar em avião que você conserta. E pare dee enganar os leigos com seu diletantismo precário.

        • Troll detected. Do not feed the trolls.

          • Rodrigo Alves

            Excellent….

          • LEMOS

            MUITO BEM LITO,ESSE ANONIMO FRUSTADO NÃO MERECE CREDITO.VAMOS AVANTE MEU IRMÃO.LEMOS

        • Anônimo

          HAHAHAHAHAHAHAHAHAH Piloto só pede vetoração quando está perdidinho da silva? Cara, você provou que é um tremendo ignorante nessa frase.

          Pilotos perdidos? Com 2 inerciais, 2 GPS, 2 VOR, 2 ADF, que são independentes da medição de velocidade? Ah vá…

          Os pilotos pediram vetoração pois nesse tipo de situação, DE EMERGÊNCIA, a prioridade é VOAR O AVIÃO EM SEGURANÇA.

          Se você realmente soubesse um mínimo de aviação, saberia de um preceito básico: Aviate, Navigate, Comunicate.

          Que foi o que eles fizeram: detectaram a falha, pilotaram o avião, mantiveram a proa (Navigate) e comunicaram o controle (Comunicate). Neste tipo de situação, a prioridade no tráfego é dada à aeronave em emergência, e nada mais lógico e inteligente que o controlador limpar o caminho do avião e direcioná-lo.

          E quem tá faltando com a lógica é você: se a decolagem foi “embarrigada”, não foi por diminuição de potência. A perda da indicação de velocidade não afetaria os motores pois até mil pés a potência é fixada no valor de decolagem independente da velocidade. A “embarrigada”, se é que houve, seria devido a uma diminuição na atitude pelos pilotos, para ganhar a velocidade perdida com a Unreliable Airspeed até eles identificarem a falha.

          É cada um que aparece… é muita baboseira e falta de educação juntas! Eu nem vou me dar ao trabalho de responder tanta besteira pq tenho coisa melhor pra fazer.

          Passar bem. Bem longe do blog!!!!

        • Rui

          Gongalosorio me desculpe, mas se vc e’ jornalista e’ muito mal educado! Pessoas inteligentes discutem ideias, na vdd vc e’ um cara que   “FALA MUUUUUITO!!!!!!!!”

  • Marcelo Silva

    Lito,quando eu vi essa reportagem eu já pensei em você escrevendo algo a respeito disso no seu blog.

  • Heleno_df

    Olá o Boeing 737-800, na reportagem diz que ele era novinho recém incorporado a frota da gol, é verdade?

    • Anônimo

      Sim, procede!! Ao que parece, foi o PR-GUL, que tinha menos de 2 semanas desde entregue.

  • Lsl Leo

    Odeio trolls leigos. Prefiro confiar em uma pessoa seria e de carater……. Prabens Pelo ost litoooo abrass

  • Daniel Martins

    Hehehe, eu vi essa reportagem e pensei… deve ter sensacionalismo ai ou informação mal dada…  eu sabia que existem sistemas redundantes e por isso já fiquei desacreditado da matéria da globo… qualquer um que lê sites como A&M e simula no FS sabe disso… na real eu acho que somos abençoados por sabermos essas coisas e a maoiria não! ahuahuahua…

  • Jaguarpaw

    Primeiramente ao Mal educado expert em aviação. Um piloto sobrevive de informações provenientes dos sistemas do avião, certo? Se o Senhor escutou a gravação, viu que muitas indicações estavam discrepantes, ou seja, como acreditar em informações desencontradas dentro do próprio avião? O espertalhão pode verificar também que a tripulação em nenhum momento disse estar perdida, tanto que confirmou vertical de Santos, vertical de Congonhas, etc., mas por outro lado, também estavam com indicações de velocidade e altitude discrepantes, como executar algum procedimento com tais problemas? O senhor teria coragem/ p… para tal? O sistema indicava vento de cento e tantos knots. Desculpe, mas o senhor detém a correta informação se o avião estava no modo automático de aceleração, ou se a tripulação o havia desconectado na decolagem? para afirmar que o “autothrottle” desacelerou o avião. Já reparei em muitos “briefings”  em que a tripulação menciona que “em caso de panes solicitaremos vetoração para tal procedimento ou para pouso, já ouviu por acaso? Como uma tripulação perdida solicitou condições do Galeão? só se além estarem perdidos eles também são loucos. Aprendi que aviação nós devemos usar todos os recursos disponíveis, se a tripulação achou por bem usar o controlador como meio primário de vetoração/ navegação, fizeram bem, porque agora temos 105 VIDAS E TODOS OS FATOS PARA APURAR E EVITAR QUE OUTRA SITUAÇÃO DESSA SE REPITA. O senhor pode conferir o currículo do autor neste Blog e eu tenho15 anos de aviação, como Técnico em Manutenção Aeronáutica, Flight Engineer e agora Piloto, e o Senhor quem é? Tem um ditado na aviação que se encaixa bem aqui. “DEPOIS DA ONÇA MORTA TODO MUNDO QUER SAIR NA FOTO”

    • Anônimo

      Perfeito, meu caro!

  • Pingback: O encontro do piloto da Gol com o controlador, desta vez a matéria saiu certa #imprensa « Aviões e Músicas()

  • Totalmente dispensável o comentário do nosso troll-colega. Excelente a maneira com que o os pilotos procederam e melhor ainda foi a atuação do controlador. Deprimente foram os comentários abaixo!

  • Ines Chagas

    Lito, fiquei tensa nos últimos 4 min. da conversa, literalmente, arrepiei. Divulga os nomes destes caras. Eles merecem tratamento de heróis, reconhecimento. Não podem ficar “escondidos” nos foruns de aviação – como bem disse o próprio especialista da Glonews.
    Postei este link no Face.

  • Marcel

    Eu me lembro que quando ainda voava no Brasil, numa manha muito fria em CGH ao preparar um 737-300 para o vôo, eu solicitei ao copiloto fazer o walk around bem rapido devido a fria garoa. Ele, muito profissional fez a inspeção completa e constatou as tomadas de estática em ambos lados da fuselagem tampadas com o “silver tape”. Chamamos o inspetor de manutenção e ele, muito constrangido, nos informou que tinham lavado o avião durante a madrugada, colocaram os tapes e depois esqueceram de retirar. Fui obrigado a fazer um relatório, claro.

    • Imperdoável. Falha grave de procedimento. Hoje em dia é mandatório reportar no logbook sempre que se colocam proteções em tomadas de estática, pitots e até safety pins nos landing gears. Abração Marcel. 

  • Luis Carlos Mari
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