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É possível um piloto pousar na taxiway ao invés da pista?

No último dia 19 de Outubro, um Boeing 767 da Delta pousou na taxiway M (mike) no aeroporto de Atlanta quando terminava o voo que havia iniciado no Rio de Janeiro na noite anterior.
Mas como um piloto pode confundir uma taxiway com uma runway (pista de pouso)?
Bem, as coisas na vida real não são tão simples como no flight simulator, e o relatório preliminar do NTSB já aponta uma cadeia de fatores humanos que levaram ao incidente.
Se você não sabe o que são fatores humanos, sugiro a leitura dos artigos que escrevi sobre isso (clique para ler a parte 1, parte 2, parte 3 e parte 4)

Uma série de circunsntâncias atípicas precederam a chegada do voo da Delta naquela manhã em Atlanta. Claro que nenhum passageiro ou tripulante se machucou no incidente, e eu não tenho a informação sobre a taxiway M aqui, mas algumas taxyways podem ser usadas como pista. A questão é quando ela é incorretamente utilizada como se fosse a pista.
O que foi apurado até agora: A cadeia de incidentes começou ainda durante o voo de cruzeiro, quando um dos três tripulantes a bordo (o checador) começou a passar mal e foi deslocado do cockpit para a classe executiva. A tripulação notificou o despacho da Delta e declarou uma emergência médica para o ATC e decidiu manter o voo para Atlanta com os dois pilotos restantes.
Na aproximação para o aeroporto, o controlador de tráfego aéreo ofereceu trocar o pouso da pista 27L para a pista 27R, via “sidestep”, para que a aeronave ficasse mais próxima do terminal e facilitasse a evacuação do tripulante que estava passando mal. Os pilotos aceitaram a mudança de pista.
Abaixo tem o layout do aeroporto de Atlanta.

A manobra chamada “sidestep” consiste em voar por instrumentos aproximando-se de uma determinada pista e quando visualizar a pista que precisa pousar, fazer a curva e alinhar com aquela. Observando o layout acima, os pilotos fizeram a aproximação para a pista 27L e já em condições visuais trocaram para a 27R.
Naquela manhã escura, o ILS da 27R não estava operando e as luzes de aproximação também estavam inoperantes devido a manutenção no aeroporto.
Perceberam a cadeia de eventos se desenvolvendo?
A tripulação pousou na taxiway M, localizada a apenas 200 pés (60 metros) da pista 27R. Após o pouso, a tripulação taxiou para a rampa sem problemas.
Depois de um incidente como este, em que os fatores são analisados friamente, é possível identificar vários fatores humanos que contribuíram para o ocorrido.
Eu sou também instrutor de procedimentos e treinamento de segurança (Safety) na United e uma coisa que eu sempre passo para os outros mecânicos é para ficarem com os sentidos bem aguçados quando começarem a ocorrer eventos fora da rotina.
Quando temos um problema de pane perto da hora do voo sair, pressão e stress começam a se desenvolver para que você conserte o problema o mais rápido possível para que o voo não atrase. Nestas horas, a maioria “corre” para tentar solucionar e esquece os procedimentos. Um atalho para pular um procedimento é o camino mais fácil para ocorrer a união dos elos da corrente que gera um incidente.
No momento de maior pressão, você tem que respirar e fazer as coisas com muito mais atenção.
É muito mais fácil relatar um atraso de manutenção porque você fez a coisa certa do que enfrentar uma entrevista com um inspetor do FAA (ou da ANAC) porque você fez algo errado que colocou o avião em perigo.
Lembrem-se sempre disso: se as coisas começam a sair dos trilhos, faça mais devagar e com mais atenção.
Safety first and always.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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