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Ele Finca?

História bem engraçada que mostra como nós levamos a sério o Flight Simulator e não gostamos quando alguém chama de “jogo”..rs

Este relato descreve uma situação curiosa, parecida com a de uma matéria que acabava de ler onde o autor a intitulava de Nunca diga ‘Jogo’ que hoje acho até graça, mas quando aconteceu comigo na ocasião, a última coisa que fiz foi achar engraçado. E acredito que todos os que praticam a simulação de vôo teriam uma reação parecida com a minha.

Ainda na época em que o Flight Simulator 2002 estava no auge, e após ter trocado a placa de vídeo do computador para melhorar o desempenho, o mesmo começou a ter problemas com o HD e a chuva de defeitos e sumiços de programas começaram a incomodar. Na verdade, “acho que era um daqueles vírus espertinhos”. A primeira coisa que sumiu foi o Outlook e ai complicou, pois através dele que eu acessava a indústria que represento para emitir os pedidos diários. Sem trabalhar não podia ficar e então em caráter de urgência urgentíssima chamei o técnico do meu servidor para consertar o defeito. O atendimento foi rápido, e em poucas horas a campainha já tocava. O técnico se apresentou e imediatamente foi para a frente do monitor, que com sua super eficiência e conhecimento detectou o problema em poucos minutos. Até ai tudo bem. Mas o que isso tem com simulação de vôo? Bom, é simples: Como ele consertou rapidamente o defeito e clicando no ícone da internet na área de trabalho, o mesmo viu o ícone do Flight Simulator e sem cerimônia deu inicio ao seguinte dialogo:

Técnico: Este ícone aqui é do Flight Simulator?
MS: Sim!

Técnico: Já ouvi falar muito desse programa. Como funciona?
MS: Bom é um simulador de vôo, no qual é possível reproduzir situações mais próximas da realidade o possível que é utilizado inclusive para estudo e treinamento.

Técnico: Rapaz, gostei disso, deixa eu ver um avião?
MS: Claro

Neste momento coloquei o meu melhor Boeing com o melhor painel e no cenário mais bonito que possuía na ocasião. Lá estava, o “Breguinha” todo imponente, reluzente no portão 9 do Aeroporto de Congonhas, o tráfego do Marcos Konde operava como relógio suíço, e só isso já era o suficiente para ficar horas olhado o movimento lá da torre.

Técnico: Que painel bonito, como funciona?
MS: Todos os comandos e marcadores funcionam como na realidade, justamente simulando o que acontece com os sistemas.

Técnico: Tem como fazer funcionar?
MS: Bom, funcionando já está, mas acho que o que você quer é ver uma decolagem e pouso não é?

Técnico: Isso! Isso!
MS: Então vamos lá!

Como estava com tempo para tal e o técnico não tinha pressa em ir embora, organizei tudo para um vôo de curta duração. Primeiramente me preparei psicologicamente, pois não era todo dia que pilotava com um atento telespectador do lado. Cartas na mão e feitos os procedimentos habituais, taxiei para a pista 35L conforme autorização da torre e espera antes da cabeceira com decolagem autorizada após pouso de um 737-400. Acelero o brega e o técnico se ajeita melhor na cadeira (come se fosse ajudar). O Flight Director/FD (diretor de vôo, que fazia o papel do co-piloto) canta as velocidades e assim que ouço “rotate” suavemente puxo o manche e começamos a voar. Mantendo a razão de subida estável e de olho na velocidade enquanto o meu ‘co-piloto’ (FD) solicita o recolhimento do trem e logo após dos flaps. Estabilizo no nível 070 já na perna do vento, e com todos os procedimentos usuais e comunicações de praxe começo então e me preparar para a descida e finalmente o pouso. O rapaz estava super concentrado e eu feliz pensando “acho que consegui mais um adepto para a simulação de vôo”.

Então o pior acontece:

Técnico: Rapaz isso é bom mesmo! Como funcionam os comandos do manche?

Fiz então algumas manobras para que ele entendesse os movimentos básicos, inclusive com subidas explicando o que iria acontecer com a velocidade e outros parâmetros da aeronave.

Técnico: Muito Bom! Já que você me mostrou então como se vira o avião, tem como você me mostrar como que faz para fincar ele no chão? Ele finca de verdade? Da pra ver ele afundando no chão?

Neste momento, um silêncio reinou na sala. E ele esperando a resposta. Contei até cinco, não deu então contei até dez e sem que me apercebesse o dedo foi direto na tecla P (pause). Mais uns segundos, e o dedo foi na tecla ESC até que saísse do simulador. Naquele momento eu queria sair até do Windows e da sala também se possível.

Dei mais uma olhada no sujeito que com a cara mais lambida do mundo perguntou:

Técnico: Ué, o joguinho Travou?

Olhei pra ele com vontade de fincar, não o avião no chão, mas sim a mão na lata dele. No meu pensamento garanto que não apareceram flores, e lembrei-me imediatamente da matéria “nunca diga ‘Jogo'”. Só aí entendi o que realmente passa na cabeça de um simuleiro quando houve certas blasfêmias como estas.

Abraços,
Milton Sérgio
Goiânia-GO

fonte: http://generosomanuta.zip.net/

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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