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Estouro de pneu na decolagem

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Ontem estava fotografando um Boeing 747 (N182UA) da United que estava decolando para Los Angeles (UA840) e um de seus pneus estourou na decolagem. O barulho foi impressionante! Infelizmente não consegui capturar a imagem… Mas isso me trouxe algumas perguntas.

A reportagem do Sydney Morning Herald mostra uma foto do trem de pouso sem dois pneus e um rastro no cimento na pista. O impacto na hora do pouso é muito maior por causa da falta desses pneus ou os outros pneus conseguem ‘compensar’ esse problema?

Pergunta do leitor Alexandre M.

Vamos dividir suas perguntas:

1- O impacto na hora do pouso é muito maior por causa da falta desses pneus ou os outros pneus conseguem ‘compensar’ esse problema?

O impacto pela falta de um pneu não é maior, a força exercida contra o asfalto é a mesma. O que acontece é que a falta de um pneu no eixo diminui a área de contato com a pista, e como sabemos daquelas longínquas aulas de física, Pressão é igual a Força divida pela área certo? P=F/A – Se diminuirmos a área (1 pneu a menos), a pressão vai aumentar nos pneus remanescentes e aí estes serão comprometidos assim como o asfalto.

2- Outra pergunta, o avião sobrevoou o oceano Pacífico e retornou após duas horas para o aeroporto de Sydney. Desculpe minha visão de completo leigo no assunto, mas se já estava voando, por que não seguir viagem e pousar em Los Angeles? Um estouro como esse pode causar danos maiores e como medida de precaução deve-se retornar? É isso?

O sobrevoo sobre o Pacífico foi para alijar combustível, para entender porque um avião não pode pousar com o mesmo peso que decola, leia este post.

Agora vamos entender porquê o voo não seguiu para Los Angeles. O estouro de pneu é perceptível na cabine de comando. Em um primeiro momento, o barulho pode ser confundido com stall (surge) de compressor, mas após rápida verificação de parâmetros chega-se a conclusão que foi pneu. Quando isto ocorre, o tripulante precisa tomar algumas decisões importantes em frações de segundos, mesmo sabendo que o fabricante do avião tomou medidas de segurança para evitar que um estouro de pneu danifique outros sistemas vizinhos ou associados:

1- Devo recolher o trem de pouso ou não?
2- E se eu recolher o trem e pedaços de borracha ficarem presos na porta do alojamento e o trem não descer depois?
3- Será que afetou alguma linha hidráulica?
4- Será que afetou algum componente elétrico?
5- Será que afetou alguma superfície? Flap?

Tudo isso passa na cabeça de um tripulante treinado. Como o voo de Sydney para os Estados Unidos é feito quase que exclusivamente sobre a água, a decisão de retornar já estava tomada muito antes do incidente ocorrer, pois na fase de briefing entre os pilotos esta possibilidade de estouro de pneu é considerada.

O senso comum poderia sugerir que jogar fora 80 toneladas de combustível e deixar passageiros chateados em um avião perfeitamente normal que poderia seguir o voo seria uma atitude extremamente conservadora, mas é aí que mora justamente a segurança da aviação: não se opera com incertezas, ou há 100% de confiança ou retorna-se para averiguações, ou como o leitor coloca, retorna-se por precaução.

Mas poxa Lito, neste seu post de 2011, um Boeing 767 da Delta estourou o pneu na Decolagem (vídeo) e mesmo assim seguiu viagem até São Paulo. Isto foi um ato inseguro então?

Não, não, não. neste caso de 2011 o voo que estava saindo de Detroit cruzaria diversos aeroportos gigantes em território Americano. Nesta situação a tripulação poderia observar os parâmetros de vários sistemas por várias horas para ter a certeza que tudo estava certo antes de começar a cruzar o golfo do México, então a decisão da tripulação foi baseada nisto. Se algo saísse do normal, era só alternar para outro aeroporto. Perceba no vídeo do post de 2011 que o trem de pouso não é recolhido de imediato (como seria de se esperar), pois a decisão ainda teria que ser discutida, levando-se em conta os fatores de risco numerados acima.

E já que estamos falando de pneus, é interessante saber que os pneus recebem muita atenção da manutenção. São calibrados diariamente (com Nitrogênio), e se por um acaso, um pneu for encontrado com pressão menor do que certo limite, os mecânicos têm que trocar não só o pneu de baixa pressão, como seu vizinho de eixo também, afinal este sofreu uma sobrecarga. Não é legal isso? E se quiser saber como se troca um pneu de um 777, leia isso.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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