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Evacuação de emergência

Dois incidentes recentes na China chamaram atenção para uma questão que ocorre com relativa frequência em procedimentos de evacuação de aviões comerciais: passageiros feridos, mesmo com aeronaves intactas e sem sinais de fogo.

No dia 3 deste mês, um Boeing 737-800 da China Southern, que ia de Cantão (China) para Bangcoc (Tailândia), teve uma indicação de fogo no motor #2 (direito) enquanto sobrevoava próximo a Sanya, no extremo sul da China. A bordo estavam 7 tripulantes e 132 passageiros.

A tripulação desligou o motor com indicação de problema e acionou o sistema de supressão de fogo, composto por uma garrafa de halon (hidrocarboneto halogenado) que atua em cada motor. Em seguida, declarou emergência ao controle de tráfego aéreo e o voo alternou para Sanya, onde pousou em segurança 70 minutos depois da decolagem em Cantão.

Devido aos rigorosos procedimentos da aviação comercial, ao pousar em Sanya todas as brigadas de combate a incêndio e equipes de socorro do aeródromo já estavam posicionadas para qualquer eventualidade. A tripulação não tinha como averiguar com precisão se ainda havia fogo no motor, se o fogo havia sido suprimido ou se o alarme tinha sido apenas uma indicação falsa, por isso eles seguiram a recomendação para esse tipo de evento e ordenaram a evacuação assim que a aeronave parou e o motor remanescente (#1) foi desligado. Durante a evacuação, 2 passageiros tiveram ferimentos graves (ambos com fratura de tornozelo) e outros 11 tiveram escoriações leves.

Outro caso

Anteontem, dia 8/7, um outro Boeing 737-800, da também chinesa Hainan Airlines, que ia de Hefei para Cantão (ambas cidades chinesas, distantes cerca de 1.100km), teve uma indicação de fumaça no compartimento de carga da aeronave alguns minutos depois da decolagem. A bordo estavam 9 tripulantes e 162 passageiros.

A tripulação declarou emergência e decidiu retornar para Hefei, onde o pouso foi efetuado em segurança algum tempo depois. Após a parada da aeronave e o corte dos motores, o comandante ordenou a evacuação. Durante essa evacuação, 3 passageiros tiveram ferimentos graves (2 fraturas de perna e 1 fratura de cotovelo) e outros 5 passageiros tiveram escoriações leves.

Ontem (9/7) a CAAC, autoridade chinesa de aviação civil, divulgou que uma inspeção posterior não encontrou nenhum vestígio de fogo, calor ou fumaça no compartimento de carga do B738 da Hainan Airlines, concluindo que fora uma indicação falsa de fumaça. A CAAC também reportou que os feridos se referem a passageiros que pularam da asa do avião.

No caso desse incidente de anteontem, a foto abaixo é elucidativa. É possível observar que alguns passageiros que utilizaram as saídas de emergência na asa estão tentando descer junto a um dos motores.

Evacuação do B738 da Hainan Airlines (foto: The Aviation Herald)

Isso evidencia não apenas a importância de prestar atenção nas orientações de segurança a bordo, mas também de ler atentamente as instruções dos folhetos de segurança (safety cards) que estão disponíveis nos bolsões de cada assento.

Aviões da série Boeing 737 (200/300/400/500/600/700/800/900), da família Airbus A320 (A318/A319/A320/A321) ou E-Jets da Embraer (E170/E175/E190/E195), por exemplo, não têm escorregadeiras infláveis na asa (escape slides). Isso se deve ao fato de que a altura da asa em relação ao solo não é tão grande nessas aeronaves. Porém existe uma diferença razoável entre tentar descer da asa pelos lugares mais difíceis e perigosos, como é o caso do ponto onde estão fixados os motores, e fazer isso pelo local recomendável, que é a parte traseira da asa, rente à fuselagem do avião.

Em Boeings 737-800, como esses da Southern Airlines e da Hainan Airlines, a distância da asa para o solo no ponto de fixação dos motores é de aproximadamente 2,7 metros – suficiente para provocar fraturas ou traumatismos em pessoas com sobrepeso, com agilidade prejudicada pela idade e/ou com limitações de locomoção devido a deficiências físicas ou gravidez. Além disso, mesmo que já estejam completamente parados, motores turbofan ainda vão estar em temperatura elevada após o pouso ou decolagem abortada. O contato com alguma parte metálica do motor, como um escapamento, pode ocasionar queimaduras graves em passageiros desavisados.

Para que lado ir?

Geralmente os folhetos de segurança dos aviões mencionados, que são aeronaves de médio porte, têm uma ilustração mostrando como deve ser feita a evacuação pelas saídas de emergência da asa nesses modelos de avião.

Recorte de safety card de B738 da companhia Garuda Indonesia

A rota de fuga correta para os passageiros que utilizam as saídas de emergência presentes na asa desses aviões é em direção à parte traseira da asa, rente à fuselagem da aeronave. Nesse ponto já existe um declive natural devido ao design da própria asa, mas além disso o passageiro vai ter a descida facilitada pelo fato de os flaps normalmente estarem estendidos ao máximo durante procedimentos de aterrissagem (salvo, por exemplo, se houver um problema hidráulico).

Em algumas aeronaves há uma sinalização da rota de fuga pintada sobre a asa, justamente para orientar os passageiros em caso da necessidade de evacuação.

Pintura indicativa da rota de fuga adequada em um B738 da GOL
(foto: Alejandro Ruiz/Airliners.net)

Esses detalhes são importantes na hora de uma emergência. Especialmente porque ordens de evacuação via de regra não têm distinção: não importa se a aeronave pousou em segurança, com estrutura intacta e sem indícios visíveis de fogo ou fumaça. Mesmo nessa condição, se uma ordem de evacuação for dada os passageiros devem deixar imediatamente a aeronave. Em qualquer situação os comissários de bordo vão gritar repetidamente para que todos abandonem o avião. “Gritar”, nesse caso, não é mera força de expressão. Essa é a recomendação em ordens de evacuação. Sempre.

Por que comissários ficariam gritando sem parar se não há sinais visíveis de fogo ou fumaça no avião? Porque ordem de evacuação é ordem de evacuação. Não cabe aos comissários (e muito menos aos passageiros) tentar avaliar o grau do perigo que as pessoas a bordo estão correndo. Não existem “níveis” para ordens de evacuação. Aos comissários caberá basicamente verificar se há fogo ou algum tipo de obstrução para a abertura de cada uma das portas e/ou para o acionamento das escorregadeiras infláveis. Além, claro, de coordenar essa evacuação de acordo com o treinamento que eles tiveram.

Pulando nas escorregadeiras infláveis

Parece simples. E via de regra é simples. Porém muitos passageiros não sabem como saltar nas escorregadeiras infláveis durante uma ordem de evacuação. Nesse caso os problemas são vários, e começam antes mesmo dos passageiros chegarem nas escorregadeiras.

O primeiro problema é que geralmente passageiros de avião (e não somente eles) estão mais preocupados com seus pertences do que com a própria vida. São raras as pessoas que compreendem a urgência de uma ordem de evacuação e não tentam carregar a sua bagagem de mão junto – que representa peso extra e pode limitar os movimentos do passageiro.

Em situações de emergência onde 100, 200, 300 ou mais passageiros precisam ser retirados de dentro de um avião, qualquer segundo é precioso. Ainda assim muitos segundos são perdidos porque determinados passageiros querem abrir os bins (bagageiros acima dos assentos) para retirar suas bagagens. No tumulto, bolsas e pastas com alça podem acabar trancando em braços de assentos. Mesmo que não estejam nos bins, bolsas, pastas e maletas podem prejudicar a mobilidade e ainda ferir outros passageiros durante a descida nas escorregadeiras infláveis, seja por peso, cantos duros, fivelas ou partes de metal afiado – que inclusive podem danificar a escorregadeira. Mulheres devem ter especial cuidado com saltos: eles devem ser retirados antes de pular em uma escorregadeira inflável (ou mesmo ao abandonar o avião pela asa).

Não hesite

O segundo problema ocorre nas escorregadeiras em si. Vistas de fora, elas não parecem tão íngremes. Mas para quem chega nas portas do avião e precisa saltar nelas a história é um pouco diferente. A altura em relação ao solo, o comprimento total e a inclinação dessas escorregadeiras varia conforme a aeronave, mas os Boeings da série 737, os Airbuses da família A320 e os E-Jets da Embraer têm algumas das menores escorregadeiras infláveis da aviação comercial. Mesmo assim elas podem assustar passageiros de mais idade ou pessoas que sentem vertigem mesmo em alturas pequenas.

É importante ter em mente que ao chegar na porta onde há uma escorregadeira acionada não há tempo para vacilos: o passageiro deve imediatamente se jogar na escorregadeira. Isso deve ser feito de forma a cair sentado nela, com as pernas esticadas e unidas. Jamais se deve pular de joelhos ou tentar descer em pé em escorregadeiras infláveis, pois nesse caso o risco de ser projetado para frente e acabar caindo de cabeça no chão é grande. Algumas companhias recomendam que os passageiros cruzem os braços sobre o peito (para evitar fraturas ou contusões ao bater em outros passageiros durante a descida) e deitem na escorregadeira após o salto, porém mantendo o queixo encostado no peito para visualizar o final da rampa.

Aqui entra outro detalhe importante: você provavelmente não estará sozinho na escorregadeira. Vários passageiros vão pular simultaneamente na mesma escorregadeira, sendo que você tanto pode atingir alguém à sua frente no final da rampa, quanto pode ser atingido – nas costas ou na cabeça – por passageiros que estão descendo atrás de você. Aquele notebook que alguém fez questão de carregar na evacuação pode quebrar uma costela de passageiro ou provocar um ferimento grave na cabeça de outro. Por isso é muito importante não carregar bagagens de mão ou quaisquer objetos durante uma evacuação de emergência. E é altamente recomendável sair rápido da escorregadeira ao final da rampa, para evitar ser atingido por outros passageiros. Quanto maiores forem os aviões, maiores serão as escorregadeiras e mais passageiros vão descer simultaneamente, aumentando o risco de ferimentos.


Teste de evacuação para fins de certificação do Airbus A380

Apesar disso, as escorregadeiras infláveis e as saídas de emergência sobre as asas dos aviões não devem ser vistas em momento algum como algo “perigoso”, e sim como equipamentos que podem salvar vidas – porque é exatamente essa a função delas. Se utilizadas corretamente, seguindo as instruções e orientações de segurança de cada aeronave, todos os passageiros conseguem abandonar rapidamente um avião que pousou sem maiores problemas. Ou até mesmo aviões que sofreram acidentes.

O que não se pode tentar fazer é isso que alguns passageiros da Hainan Airlines (e provavelmente da Southern Airlines) fizeram: o mais difícil. Da mesma forma, é importante memorizar uma regra básica: se a aeronave em que se está recebeu uma ordem de evacuação, PRIMEIRO DEVE-SE ABANDONAR O AVIÃO. Somente depois – em total segurança – os passageiros podem se preocupar com pertences pessoais.

Sobre o Autor

Marcelo Idiarte é observador de mídia, curioso por aviação e defensor ferrenho da Ciência. Jornalismo em pauta: meiapagina.wordpress.com
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