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“Explosão” em “turbinas” de avião, conhecimento para não entrar em pânico

Estamos em 2014. “Turbinas” de avião continuam explodindo.
Pessoas continuam entrando em pânico.
Comissários continuam correndo de um lado para outro.
E como sabemos de tudo isso?
Porque todos sobrevivem à explosão para contar a história.
Ué? Não tem algo errado aí? Como se sobrevive a uma explosão de algo que tem a força de várias locomotivas?

Reprodução Hoje Em Dia

Reprodução Hoje Em Dia

STOP. Leitura Obrigatória

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Pronto, agora que já sabemos o que significa explosão na lingua portuguesa, antes de explicar o que acontece no motor e por que não deveríamos entrar em pânico, assistam este vídeo de um incidente MUITO pior do que o ocorrido em Confins, em que um pássaro é ingerido por um motor bem no momento da decolagem. Prestem atenção na comunicação do piloto com a torre, o retorno ao aeroporto, o pouso e os carros de bombeiro.

Uau. Vocês viram aqueles pipocos no motor? O pessoal lá dentro do avião com certeza ficou bem assustado, porque o barulho de um motor em condição de “surge1” é bem alto, acompanhado de vibração e uma “derrapada” do avião para o lado do barulho. Não quero ter a pretensão de achar que a emoção vai ser controlada em um momento de stress, principalmente para quem tem medo de voar, mas explicarei que ficar assustado é OK mas entrar em pânico é o pior que você pode fazer, e esse pânico pode custar sua vida, por exemplo, se após o pouso uma evacuação for necessária.

Vamos lá. Aqueles pipocos, que como vocês viram não se tratam de explosões, são muito parecidos com estes aqui:


(Viram o poster da Pan Am? *_*)

Agora vos pergunto: Se você não acha que o motor do Porsche estava explodindo, por que acha que o motor do avião estava?

_Ah, mas claro que é. Toda a imprensa fala. Além do mais isso é normal nos carros, é só parar e encostar se der problema. Avião não dá para encostar.

Sim amigo, por isso os carros possuem apenas UM motor e o avião que você voa tem no mínimo DOIS*! Mesmo que ocorra um problema no pior momento, que é a decolagem, o outro motor vai voar o avião com controle e o trazer para o pouso, que é o mesmo que “encostar” o carro para consertar. (*falo de aviação comercial de grande porte, alvo principal da mídia).

Obviamente o que causa o “pipoco” nos carros é um fenômeno diferente do que ocorre em um motor a reação, embora as raízes do problema sejam as mesmas: um desbalanceamento entre a mistura de ar com o combustível.

1O “Surge”

Nos motores a reação, uma grande quantidade de ar é sugada e comprimida até chegar ao difusor antes de entrar na câmara de combustão. Pense assim: você está empurrando um monte de ar com sua mão para entrar em um lugar apertado, logo, você tem que ter mais força que o ar, senão o ar é quem vai empurrar sua mão para fora do lugar apertado certo? Enquanto você tiver mais força, tudo estará em paz e o universo será lindo. Agora se por algum motivo você cansar, ou tiver uma cãibra e deixar de fazer força, bum!(DSCLP). O ar vai empurrar sua mão para fora.
É exatamente isso que ocorre em um motor a reação, várias coisas podem causar uma anomalia no fluxo de ar interno e aí a pressão lá na câmara vai se tornar maior, empurrando o ar de volta para “boca”, então o motor “tosse” com força e cospe “fogo”, além de tentar “girar ao contrário”. Daí é que vem a vibração e os barulhos BEM altos, sem que no entanto tenha havido qualquer explosão. Deixo abaixo o link de dois vídeos sensacionais, um mostra várias situações de surge/stall de compressor e o outro mostra como funciona um motor a reação, bem ilustrado para quem não conhece nada.

Desconstruindo o pânico

Já que está na moda desconstruir as coisas, vamos pegar o depoimento de uma passageira que estava no voo de Confins e analisá-lo passo a passo. Este foi um dos textos usados na “reportagem” da “explosão da turbina”, e como tal, virou notícia verdadeira, já que não houve a exposição do “outro lado”.

Reprodução Facebook

Reprodução Facebook

A desconstrução tem a intenção de explicar a percepção do pânico em relação ao que está ocorrendo de verdade, e não diminuir a pessoa que os fez.

1- Tecnicamente não, já que não morreu para renascer :P
2- Tecnicamente a “turbina” não estourou, mas após ler este post e o item 11, saberá o que aconteceu. Mas devo ser justo e dizer que usar a palavra “estouro” é muito melhor que a palavra explosão usada pela mídia.
3- Bolas de fogo sempre ocorrerão em casos de surge/stall de compressor. Não confundir com outras bolas de fogo vistas por testemunhas.
4- Os comissários precisam tomar certas precauções em casos de decolagens “não normais”, e isso inclui posicionamento, preparação, comunicação, revisão de procedimentos, tudo para garantir a segurança dos que estão a bordo caso uma evacuação seja necessária. Depois eles chegam ao hotel com a consciência limpa do dever cumprido e abrem o Facebook para ler comentários de pessoas que acham que eles correm de um lado para outro como baratas tontas em pânico.
5- Sim, ao perder um motor na decolagem o avião vai subir até a altitude de segurança e com certeza vai parar de subir e diminuir a potência, pois é melhor poupar o outro motor e se manter em voo controlado.
6- Não é uma altura super baixa, é a altitude padrão publicada nas cartas do aeroporto e também nos manuais de performance da aeronave. Tecnicamente, um passageiro que não possua um instrumento de indicação, não saberá dizer se a altitude está baixa, super baixa, super alta ou de qualquer outra maneira. A percepção de altitude é provavelmente sugestionada pelo medo, que vai associando fatos de maneira desordenada para criar mais pânico.
7- O piloto sempre tem que fazer 3 coisas, nesta ordem: “Aviate, Navigate, Communicate”. Em termos leigos, primeiro irá “voar” o avião, em seguida navegá-lo para um porto seguro e por último comunicar COM A TORRE o que está acontecendo. Se sobrar tempo ou a situação se tornar menos emergencial, poderá comunicar aos passageiros quais são as próximas intenções e dar uma breve descrição do problema. Isto fica ao critério do comandante. Ainda bem que é assim, já pensou se o primeiro passo ao perder um motor fosse informar os passageiros?
8- Baseado em quê o passageiro pode avaliar a dificuldade de um pouso? Ao ver o vídeo do Thompson acima, é possível definir a dificuldade do pouso com apenas um motor? Acredito ser mais uma sugestão adicionada pelo pânico.
9- Sempre que uma emergência é declarada por um piloto, haverá carros de bombeiro na pista. Eles acompanharão a aeronave até o ponto de estacionamento, para agir rapidamente se algo der errado e salvar vidas em segundos preciosos que seriam perdidos se não estivessem lá. Por mais simples que seja o problema, se for declarada uma emergência, haverá carros de bombeiro, ao invés disso ser causa de comoção, deveria ser causa de sorrisos abertos.
10- Hum, no caso seria mais legal agradecer ao pai dos engenheiros que calcularam que em caso de problemas haveria sempre uma segunda camada de segurança para salvar vidas que foram perdidas em acidentes no passado.
11- Isso é legal, todos devemos nos empenhar em ser pessoas melhores. Imagine que após o pouso os freios travassem e ocorresse um super aquecimento que exigisse uma evacuação em emergência. Imagine que as instruções passadas pelas comissárias não foram ouvidas por que você estava “orando” ou em “pânico”, qual a sua chance de sobrevivência na evacuação?

Nesta desconstrução, todos os pontos mencionados por uma passageira que estava no voo pode ser explicado, sem pânico. Assim como este também, publicado no Globo:

A turbina número 2, do lado direito do avião, explodiu durante a decolagem. Poucos instantes após decolar houve um barulho alto e o avião parou de subir. No mesmo momento as luzes principais da cabine se apagaram e o avião se estabilizou em baixa velocidade. Na hora, pensei: ‘Vamos cair’. Foram os cinco minutos mais difíceis da minha vida.”Passageira voo da TAM em Paris: Globo

Percebem a semelhança dos dois depoimentos? Percebem que em nenhum dos dois voos qualquer pessoa se machucou?

Você fala como se nada pudesse dar errado e aviões não caíssem!

Não! Aviões são máquinas e podem sofrer acidentes, SE um monte de coisas der errado, UM MONTE. Eu falo como quem tem consciência (e informações) da quantidade diária de decolagens que não são normais, da quantidade DIÁRIA de ingestão de pássaros que causam aquilo visto no vídeo do Thompson e que invariavelmente o resultado final é o mesmo: passageiros desembarcando sem NENHUM arranhão, apenas com sua alma machucada por terem entrado em pânico.

Isso NÃO É SORTE, não é obra divina e não é coincidência que acabe bem. É engenharia.

Conclusão:

Do mesmo jeito que comissários e pilotos se preparam para o voo, prepare-se também e saiba que se um pássaro entrar no motor, VAI haver um barulho enorme, VAI haver vibração, VAI ter cheiro de queimado, PODE ter fumaça, o avião VAI parar de subir. Depois do susto inicial, apenas fique atento e escute as instruções que forem passadas. Conte quantos assentos tem entre você e a saída de emergência. Pronto, fazendo isso poderá contar depois no Facebook que foi um dos pouquíssimos seres humanos que já enfrentou uma emergência num avião comercial.

E aconteça o que acontecer, jamais entre em pânico, isso sim é super perigoso.

Vídeos via Youtube que recomendo:
Treinamento de stall/surge de compressor. Sensacional, varios surges filmados.
Como funciona um motor turbofan CFM (Youtube)

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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