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Junkers JU52/3M, um pouco de história, parte 1

Junkers Ju52/3M

Junkers Ju52/3M

Trimotor. Um tipo de avião que encanta não?
Boeing 727, Douglas DC10/MD11, Trident e se bobear até o bizarro Britten-Norman Trislander. Mas quem iniciou toda magia dos trimotores foi um avião alemão, que não só foi o work-horse de muitas linhas aéreas (sobretudo as nascidas da Lufthansa: Cruzeiro, LAB, Avianca, entre outras) como também um mito da segunda guerra mundial.

Este trimotor alemão, cujo apelido é Tante Ju (Tia Ju) ou Iron Annie, não tem um desempenho espetacular ou uma capacidade fora do comum, mas foi sim um avião confiável, robusto e cuja capacidade de paxs (17 pessoas) o fazia ser quase um “jumbo” em seu tempo. Na guerra atuou de forma brilhante, seja lançando pára-quedistas alemães na Operação Merkur ou evacuando tropas em Kurland. Até em filmes o Junkers JU52 se fez presente (Operação Valkíria com Tom Cruise). Sua carreira na aviação comercial foi bem longa e acredite existem Ju52 em condição de vôo em pleno 2012.

A Junkers era um fabricante alemão de aviões civis e militares, encabeçada pelo seu fundador e projetista Hugo Junkers. Em 1926 foi desenvolvido um monomotor com grande capacidade de passageiros, denominado Ju 52/1m. Seu resistente esqueleto metálico e uma fuselagem revestida por chapas de alumínio ondulado, reduziam o arrasto em vôo. O primeiro avião, de c/n 4008 fez o primeiro vôo em 3 de Setembro de 1930, equipado com um motor BMW L-88 de 800Hp, depois recebeu motorizações diferentes mas já levava 17 passageiros. O protótipo foi apresentado à Força Aérea Alemã em Novembro de 190, recebendo autorização de produção no mês seguinte. O avião começou com uma produção de 12 aeronaves, mas apenas um avião foi finalizado, recebendo o prefixo D-1974. Os gerentes de marketing e venda da Junkers acordaram cedo para uma previsão mercadológica completamente errada e o Hugo Junkers determinou ao brilhante engenheiro Ernst Zindel liderar uma equipe capaz de criar um trimotor de grande capacidade de carga.

Esta equipe viu no JU 52/1m a possibilidade de receber mais 2 motores e assim o protótipo 4008 recebeu 3 motores P&W Hornet de 550 Hp cada um, passando a se chamar Ju 52/3m. Este novo aparelho voou em 7 de Março de 1932 e já recebeu encomenda de 7 unidades por parte do Lloyd Aéreo Boliviano, e encomendas subseqüentes por parte da AeroOY (atual Finnair), VASP, SINDICATO CONDOR (Cruzeiro do Sul), VARIG, FAMA (atual Aerolineas Argentinas), SABENA (Bélgica) e inúmeras empresas de vários países como Áustria, China, Colômbia, Dinamarca, Equador, França, Inglaterra, Grécia, Itália, Moçambique, Portugal, entre vários outros.

PP-CBR Junkers Ju52/3M da Cruzeiro

PP-CBR Junkers Ju52/3M da Cruzeiro

O avião foi adotado em larga escala e teria sua primeira atuação em guerra como transporte de tropas do Chaco entre Paraguai e Bolívia em 1932/1933. Ao final de 1932, a Lufthansa optou pela encomenda de 2 aviões para operar as rotas Berlim a Londres e Berlim a Roma e com o sucesso imediato do avião, este se tornou a espinha dorsal da flag-carrier germânica, se fazendo presente na frota com cerca de 230 aviões. Ainda em 1932, foi lançado o Ju 52/3m CE equipado com esquis ou bóias para operação no ártico ou em rios, versão esta operada no Brasil inclusive.

Junkers Ju52/3M com flutuadores

Junkers Ju52/3M com flutuadores

Em 1935, o avião já se fazia presente com 150 unidades operacionais, sendo 100 deles na Lufthansa. No Brasil o avião chegou em 1933 pela SINDICATO CONDOR e em 1936 pela VASP. A CONDOR aplicou nomes indígenas em seus Ju 52/3m com prefixos PP-CAT, PP-CBB, PP-CAY, PP-CAX, etc. Este avião fez o CONDOR atuar desde o litoral Nordestino até a Amazônia. Pela VASP coube a uma dupla de JU 52/3m inaugurarem uma rota que se eternizou: São Paulo – Rio de Janeiro. A VASP usou o avião PP-SPD (batizado São Paulo) e PP-SPE (batizado Rio de Janeiro) para operar o trecho, um saindo de cada cidade, o vôo durava 100 minutos de duração para cada trecho. Em 1939 a VASP usava os Ju 52/3m para 3 freqüências diárias na Ponte Aérea. Porém, ao redor de 1943, VASP e CONDOR tinham enormes dificuldades para operar esses aviões devido a escassez de peças em virtude da guerra. A VARIG por sua vez teve um único Ju 52/3m que se acidentou, colocando a empresa em apuros nesta ocasião, pois a perda total de aeronave e vidas complicou a vida da empresa gaúcha.

Em 1950 já não haviam mais Ju52/3m operacionais no Brasil.

PP-SPE PP-CBR Junkers Ju52/3M da VASP

PP-SPE PP-CBR Junkers Ju52/3M da VASP

O JU52/3M teve papel imenso na Luftwaffe (Força Aérea Alemã), não vou aprofundar muito o tema, mas os motores foram reforçados para potência de 660Hp, recebeu suporte para bombas e metralhadoras. Atuou na Guerra Civil Espanhola, transportando 10.000 soldados marroquinos. No papel militar, a Força Aérea de Portugal e a Força Aérea Suíça operaram este avião por décadas, e os Suíços operaram o trimotor até 1981!

No esforço da 2° Guerra, a Força Aérea Alemã chegou a adquirir 59 aviões da Lufthansa para reforçar a operação militar. Em Abril de 1940, simplesmente 571 Ju 52/3m atuaram na invasão da Noruega. Com perdas e mais perdas, o Ju52/3m chegou a ser fabricado na Espanha (CASA 352), França e Hungria (de onde saiu o último Junkers JU52/3m). Entre 1932 a 1944 foram produzidos 4.845 unidades desta aeronave, somando aí as versões civis e militares. Com o fim do teatro de guerra, a França continuou produzindo o avião com a designação de Amiot AAC.1, a CASA montou mais aviões e até na Irlanda foram reformados para serviço na BEA em 1946.

Atualmente existem 4 Junkers Ju52/3m de fabricação alemã em perfeito estado de operaçãos, sendo o mais famoso o “D-AQUI” fabricado em 1936 e em serviço ativo pela Lufthansa, 3 suíços (aqueles aposentados em 1981 pela Força Aérea Suíça) que operam para a empresa Ju-Air, além de 4 CASA 352L, de origem espanhola, que estão divididos entre a South African Airways (ZS-AFA), Força Aérea Confederada (EUA prefixo N352JU), o AZ+JU que opera na França em favor de Amicale Aéronautique de Cerny e um na Ju-Air, esta última é o “maior operador mundial” de Ju52 na atualidade.

A maioria deles efetuam vôos panorâmicos com muito conforto e segurança para seus passageiros. O “D-AQUI” da Lufthansa é um espetáculo a parte e detalharemos a história dele em um outro artigo com mais dados e algumas fotos. O MUSAL do Brasil recebeu um avião deste da FAP – Força Aérea Portuguesa e está em lento processo de restauração, para minha alegria e creio que de diversos amantes de aviação.

E como era o Ju 52/3m em maiores detalhes? Por dentro sua cabine possuía espaço para alocar bagagens sobre os passageiros (o que são os bins hoje), janelas com excelente visibilidade, 18 assentos, sendo 1 de cada lado, com um descansa braço e possuía também escada própria para o embarque e desembarque dos paxs.

Seu motores já citados neste artigo, chegaram ao ponto de possuir 830Hp (BMW 132T-2), o seu escapamento eram dutos anelares desde a nacele e posicionados de forma que a fuligem não fosse em direção a cabine/fuselagem e conseqüente interior da aeronave.

A história continua na parte 2

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Sobre o Autor

Alexandre Conrado, pesquisador de aviação e profissional no segmento desde 2001
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