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Minha primeira CCT de Mecânico de Aviões por Alexandre

WAYPOINT POR WAYPOINT
 
Sempre gostei de ouvir a história das pessoas, desde meu pai ex-gerente de aeroporto da VASP a todos que encontrava no caminho, não importa o cargo ou origem, ouvir histórias para mim é fundamental e enriquece não só em conhecimentos como exemplos a eguir. Até hoje, quando conheço novos funcionários gosto de saber de onde vieram, para onde pretendem ir, pois o passado serve de inspiração para o presente que vai construir o futuro. Tive a inspiração para este artigo após conhecer uma simpática moça de 22 anos recém contratada como estagiária na empresa em que trabalho e ela tem uma linda história de luta e determinação e está para alcançar sua primeira CCT!
 
No final de 2003 o corralito na Argentina atingiu minha carreira em aeroportos e tive que mudar os planos de profissão e então por sugestão de meu pai, busquei um curso de mecânico de aeronaves, mas vale citar algo curioso: Eu tinha uma visão distorcida da Manutenção, para mim eram privilegiados pois no aeroporto que eu trabalhava eram raros os pernoites e o que eu via era “vida fácil”: pino, fone, combustível e raramente adicionar óleo! Ou seja ser mecânico era fácil! Mas não durou muito essa minha visão errônea e aprendi o que hoje uso largamente em meu trabalho como definição para o Mecânico de Avião: Guardiões da Segurança de Vôo e Aeronavegabilidade! Mas o que quero falar neste artigo?
 
Primeiro ponto: Escolinha! A parte do curso é fundamental para sabermos o que queremos e aonde vamos chegar! Se você não se sente ligado à profissão na escolinha, é um sinal de que não adianta insistir! Em minha turma 20 começaram, 12 terminaram, apenas 4 chegaram a uma cia aérea! Estamos falando de 20% de aproveitamento daqueles que se inscreveram! Outra coisa, aproveite seus instrutores, eu tive um instrutor acima da média chamado Valmir, um camarada fora de série que muito me passou, o bom de ter aula com ele era o esforço dele de levar os alunos até o pátio para o acompanhar no atendimento aos Boeing 737-200, era a chance de estarmos perto do objetivo. Absorva as coisas boas de cada um que seu caminho cruzar!
 
Segundo ponto: ANAC! A prova da ANAC é o seu portão de entrada, é onde você colocará no papel o conhecimento teórico adquirido, daí você ganhará uma CCT – Certificado de Conhecimento Teórico. Não adianta pirar com essa prova, ansiedade e nervosismo não te levam a lugar nenhum. Aprenda que a frieza é algo que você tem que aprender e te ajudará muito, pois você terá que ser frio quando se deparar com um avião em pane em suas mãos, onde toda pressão do mundo cairá sobre suas costas, portanto FRIEZA! Seja igual ao Kimi Raikkonen da Fórmula 1, o Homem de Gelo (ou a Mulher de Gelo, afinal várias moças estão adentrando esse universo e são muito bem vindas). Estude, se dedique, mas lembre que não adianta estudar 24 horas, o seu corpo, o seu cérebro precisa de descanso, você tem que assimilar e não decorar! A prova é de múltipla escolha, o que na minha opinião facilita bastante, mas existem pegadinhas e atenção é fundamental. Me orgulho muito de um feito na época que fiz minha prova, fui o único na região Nordeste inteira a ser aprovado em 2 especialidades ao mesmo tempo numa prova só (fiz GMP e CEL, quando a maioria fez só CEL ou só GMP). A propósito, pense alto, se você fez o curso, faça completo (GMP + CEL), portanto tire logo duas CCT e depois vá buscando a terceira (AVI). Passar na prova é seu carimbo para o mundo!
 
Terceiro ponto: Entrar em uma empresa aérea! Não é fácil, eu sofri, meu sonho era a VASP, mas na época ela estava definhando e o sonho não se realizou. Deixei currículo em todas empresas da cidade que eu morava, na época não pretendia e não tinha cabeça (tinha namorada, muito ligado aos pais ainda, etc) para morar fora, mas você deve ter a cabeça aberta que as oportunidades existem (depois mudei minha cabeça). Mas na luta para entrar em uma empresa aérea, ouvi de uma pessoa o seguinte: Não tenho nem onde guardar seu papel do currículo. Foi a pior coisa que escutei até então, mas acredito fielmente que cada um tem sua estrela e eu alcancei entrar em uma empresa aérea e hoje me orgulho do que faço, do que sou e tento passar a minha história para os mais novos, de forma que sirva de inspiração e até como alento a quem por acaso esteja fraquejando na subida!

PT-SLE EMB-120 Brasília – Foto © Alexandre

 
Este orgulho eu posso exprimir em 4 pontos inesquecíveis na minha carreira de mecânico até hoje e vou listar as 4 aqui:
 
3.1 – Com a frase do “não tenho nem onde guardar seu papel do currículo” eu só via portas fechadas e desisti! Me convenci de que ao voltar para casa, embalaria tudo que me fizesse lembrar avião (quadros, fotos, maquetes) e buscar outra coisa na vida, e assim fui decidido a tal, descendo a rampa do andar superior do Aeroporto de Salvador, a beira de lágrimas, quando eu estava de costas para a pista ouvi um ruido… característico de hélice desembandeirando… olhei para trás era o PR-OAP da OceanAir, um Embraer 120 Brasília rosa, as lágrimas que queriam descer cessaram, olhei para o outro lado e vi um Brasília PT-SLE, azul da mesma OceanAir na final para pouso, pois bem… voltei ao terminal, fui procurar a Manutenção da OceanAir…

OAC – OceanAir © Alexandre

 
3.2 – Topei com um mecânico da OceanAir, Fabiano, perguntei quem era o chefe pois queria deixar um currículo. Ele falou: vá lá em tal lugar e procure por Guedes, é o chefe. Pois bem fui atrás do Guedes, cheguei lá e encontrei um carioca, apelidado de Balão Mágico, que me recebeu… olhou o currículo e soltou: Você é um CCT, não serve para nada, mas um dia fui igual você e me abriram as portas, vou abrir para você também, estou precisando de gente, me deixe o currículo aqui e mantenho contato! Pois bem, no dia 10 de Janeiro de 2005 estreei com a camisa vermelha (sacrilégio para um gremista) atendendo o PR-OAO e muito importante: PR-OAP e PT-SLE também. Aprendi muita coisa sendo CCT, aprendi também que existem pessoas que te abrem portas, que te fecham portas, que te sacaneiam e que te ajudam, pessoas que fazem pano preto e pessoas que ensinam! A fase de CCT é importante para o aprendizado prático, que te dará acesso a CHT.

PP-PTD ATR-42 © Alexandre

 
3.3 – Com o fim dos turboélices na Oceanair, fui obrigado a trocar de camisa e voltei a bater na porta de outras novamente, mais uma vez dificuldades, pois devido a conflitos que não cabem ser dissertados aqui não chequei minha CHT no emprego anterior e portanto era um “mero” CCT no mercado, e de novo escutei: “Não preciso de mecânico em Salvador, mas o Senhor mande seu currículo por e-mail” Desanimei um pouco, mas um belo dia minha mãe fez uma comida pesadíssima típica do Nordeste chamada cozido, depois de devorar aquele prato imenso, o telefone tocou, do outro lado o Marouco, da TRIP: O senhor pode ir agora mesmo fazer um teste em nossa companhia? O avaliador chega as 14:30, vá ao aeroporto e procure a gerente da companhia. Eram 13:00. Sai correndo para o aeroporto, lá encontrei o avaliador e fui testado no PP-PTD, logo depois fui fazer exames e finalmente entrei na TRIP, de volta ao mercado e vestindo orgulhosamente a camisa prata. Uma das coisas que mais me marcou foi um e-mail expedido em Fevereiro, precisamente 5 de Fevereiro de 2009, convocação para um LINE AND BASE MAINTENANCE TRAINING na Embraer. Fui para São José dos Campos, guiado pelo PP-PTJ! Lembre-se sempre de ser grato aos que te abrem portas.
 
3.4 – Na ocasião de SJK, apresentei uma idéia ao Marouco, pois via os aviões apanharem da rampa (pessoal que carrega e faz abastecimento em aeronaves) desde a outra companhia, mas não tinha espaço lá para apresentar idéias e simplesmente comecei a desenhar sozinho no hotel em São José dos Campos um curso que chamei de F.O.S – Familiarização de Operações de Solo, que visava ensinar a galera da rampa e aeroportos os cuidados com um avião, os perigos de uma hélice, de um motor, de um pitot, um pouco da história do avião, um pouco de relações interpessoais, entre outros. A idéia foi bem recebida e o curso existe até hoje na empresa, em formato eletrônico, porem o “rapaz que apresenta” a animação veste o uniforme tradicional dos mecânicos da TRIP, o que chamo de manto prata. Foram inúmeras turmas de FOS que ministrei, estimo ter alcançado 1000 pessoas desde gerente de aeroporto até o pessoal da limpeza dos aviões. O dia mais marcante disso foi ao final de uma turma em que vi agentes de aeroporto e rampa, com experiência ou sem experiência, ao encerrar o curso me aplaudirem…
 
Pode parecer um grande ego meu certo? Errado! Quando aplaudiram eu lembrei do “não tenho nem onde guardar seu papel do currículo”, lembrei do Guedes abrindo as portas (o grupo de mecânicos que eram poucos eram apelidados de “Turma do Balão Mágico”), lembrei do Marouco ligando após o almoço, lembrei dos vôos, de uma pane em um ATR72 onde sozinho consegui garantir o dia inteiro da malha Nordeste sob alta pressão (e frieza), lembrei do começo do curso, das dificuldades, das conquistas, do meu instrutor Valmir na escolinha e me veio até o Falcão a cabeça cantando: “valeu a pena ê ê… sou pescador de ilusões”.
 
Você aí que está lendo e por acaso está para prestar sua prova na ANAC ou simplesmente no meio da “Escolinha” saiba que o futuro é você quem faz, desde que você programe os WAYPOINTS! E como em uma navegação, é WAYPOINT por WAYPOINT, bloqueou um? Tome o rumo do outro! E um dia você chegará ao seu sonho e dirá que valeu a pena, afinal nossas conquistas dependem exclusivamente de nosso potencial e capacidade, muitos nos dão a mão e nos fazem seguir em frente, mas nosso caminho é trilhado por nós. E pense sempre em GRATIDÃO! E gratidão necessariamente não é você retribuir a quem te ajudou, mas sim fazer o bem a alguém lá na frente que estará em uma situação que você já esteve um dia e alguém ajudou!
 
Dedico este artigo a moça que o inspirou, Brena, e a meu grande amigo Generson Oliveira, que estão aí correndo atrás do objetivo e a todos aqueles que almejam o mesmo sonho!

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Sobre o Autor

Alexandre Conrado, pesquisador de aviação e profissional no segmento desde 2001
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