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Music for Airports

Este site não se chama Aviões e Músicas? Pois então, já fiz alguns posts sobre aviões, agora vai um sobre música… ou pelo menos no título, sobre as duas coisas. Foi justamente ao me lembrar do título que tive a ideia de apresentar a vocês um disco pouco conhecido, mas incrivelmente influente. Vocês podem nunca tê-lo escutado, mas quem é quem no meio musical escutou – e com atenção (o que é até irônico, como vocês verão…). Vocês podem não escutar o gênero de música dele (aliás, foi um dos pouquíssimos discos jamais gravados que criaram um gênero musical totalmente novo para si mesmos!), mas ecos dele influenciaram o resultado final de músicas que vocês escutam. Vocês podem até odiar o disco (muitos o acham chatérrimo, embora eu o ache muito agradável de escutar), mas muita coisa de que vocês gostam hoje não existiria ou seria completamente diferente sem ele. É, este disco foi importante assim, mesmo. Chama-se Ambient 1: Music for Airports e foi gravado em 1978 por Brian Eno. Mas basta falar só “Eno” que ninguém no meio musical vai achar que você está falando do sal de frutas. Aliás, em vários trabalhos ele foi creditado simplesmente como “Eno”, mesmo.

 

Capa de "Music for Airports"

 

Esse nome tão curtinho é enganador, porque o nome completo dele é nada menos que Brian Peter George St. John le Baptiste de la Salle Eno (ufa!). Eno é um músico, compositor, produtor e arranjador inglês com um currículo deveras impressionante e, da mesma forma que seu disco em questão, mesmo que você nunca tenha ouvido falar dele nem ouvido nada dele, ouviu e ouve coisas que não seriam as mesmas sem ele. Aliás, quem tem idade para ter usado o Windows 95 já ouviu pelo menos uma obra de Eno, pois foi ele quem a Microsoft contratou para criar o Windows Sound que tocava na inicialização do sistema e marcou época. Tinha apenas 7 segundos, mas durante alguns anos foi uma das músicas mais ouvidas do mundo – isso é tão Eno… Ele também foi contratado para criar todos os ringtones do Nokia 8800 Sirocco Edition, um dos celulares top de sua época. Eno aceita esses projetos com prazer, pois é fissurado em tecnologia e costuma ser o primeiro a adotar novas tecnologias na área musical.

Eno é uma das mentes mais inteligentes, criativas, inquietas, ousadas e influentes do meio musical internacional. Quando ele fala ou toca, todo mundo que conta alguma coisa nesse meio escuta. E não só escuta, como pensa, digere, recicla, reinventa, modifica e incorpora ao que já faz. Muitos artistas se dizem “de vanguarda”, mas muito poucos realmente apontam caminhos novos e mesmo quando isso acontece, a maioria desses caminhos dá em becos sem saída, morre ali e não transforma nada. Só uma ínfima minoria dentro da minoria realmente muda o rumo das coisas, que é a suposta finalidade de toda vanguarda. É nesse reduzido e seleto clube que você encontrará Eno.

 

Brian Eno

Eno em dois tempos: todo andrógino e maluquete no tempo do Roxy Music, em 1973, e como respeitável sessentão recentemente

 

Além da qualidade, Eno prima pela quantidade e tem uma produção prodigiosa. Seriam precisas incontáveis laudas para enumerar tudo que Eno já fez, todo mundo de importante com quem ele já trabalhou, os muitos experimentos que ele já idealizou, todas as linhas de trabalho que ele já teve. O jornalista britânico David Sheppard resumiu bem: “Escrever sobre Eno é como tentar dobrar um arranha-céu para caber numa mala.” Mas digamos que ele já começou em grande estilo, como tecladista e arranjador do Roxy Music, uma das bandas de rock mais cult de todos os tempos, por sua altíssima qualidade artística e seu refinamento musical. Infelizmente (para eles), Eno só ficou nos dois primeiros discos, porque não se entendia com o vocalista e líder Bryan Ferry (sim, o mesmo de Slave to Love e da regravação de Jealous Guy, do John Lennon, que não poucos acham melhor do que a versão original). O grupo era pequeno demais para dois Brians, ambos geniais.

Depois disso, Eno alternou trabalhos experimentais, individuais ou em colaboração com feras tipo Robert Fripp do King Crimson ou David Byrne do Talking Heads (aliás, foi Eno quem poliu e deu a forma final ao estilo do grupo, catapultando-o ao sucesso de crítica e público), e trabalhos como produtor e arranjador. O antológico The Lamb Lies Down on Broadway, do Genesis, credita a participação dele como “Enossification” – quem deu todo o clima do álbum foi ele. E que tal, por exemplo, Heroes, do David Bowie, ou The Joshua Tree, do U2? Eno foi o produtor dos dois álbuns (e de vários outros desses e de muitos outros artistas). Até hoje, quando Eno produz o álbum de alguém, a divulgação trata logo de fornecer essa informação em destaque em todos os press releases, como uma espécie de selo de qualidade e de credibilidade. Chega ou querem mais? Sentiram o nível do homem?

Eno é reservadíssimo e sabe-se pouquíssima coisa sobre sua vida pessoal. Eno nasceu em 15 de maio de 1948 em Woodbridge, pequena cidade costeira do leste da Inglaterra. Apesar de seu nome quilométrico sugerir uma origem aristocrática, ele na verdade é filho de um humilde carteiro. Mas parece que a família era católica e devota de São João Batista de La Salle, pois não só colocou o nome do santo no filho, como botou-o para estudar numa escola lassaliana voltada para a educação artística (este era um dos pontos em comum dos integrantes do Roxy Music: todos estudaram em escolas de artes).

No tempo do Roxy Music, Eno ficou famoso por “traçar” todas as roadies que encontrava pelo caminho e fazer uma coleção de Polaroids delas. Mas depois disso, a vida pessoal dele é um mistério. Ninguém sabe onde ele mora, se é casado, se tem filhos. Até o diário de um ano (1994) que ele publicou, A Year with Swollen Appendices (“Um ano com apêndices inchados”, trocadilho porque swollen também pode querer dizer “inflamado”), falava mais sobre seu trabalho e suas ideias artísticas e não deu muitas pistas sobre o resto. Mas apesar de sua atitude machista do passado com aquelas Polaroids das suas transas, Eno tornou-se muito ativo politicamente na maturidade, era um anti-thatcherista notório, enviava cartas abertas e fechadas a políticos o tempo todo em prol das mais variadas causas e acabou sendo nomeado coordenador-geral de políticas para a juventude do pequeno, mas cada vez mais influente Partido Liberal-Democrata britânico.

Voltando a Music for Airports, ninguém melhor que o próprio Eno para explicar a ideia do disco. Ele escreveu no encarte:

 

O conceito de música idealizada especificamente como parte do pano de fundo [de um ambiente] foi introduzido pela [empresa] Muzak, Inc. na década de 1950 e acabou tornando-se conhecido genericamente pelo termo muzak. As conotações que este termo carrega são particularmente associadas ao tipo de material que a Muzak, Inc. produz – músicas conhecidas arranjadas e orquestradas de uma maneira leve, derivada [do original]. Compreensivelmente, isto levou a maioria dos ouvintes (e dos compositores) com discernimento a rejeitarem inteiramente o conceito de música ambiente como uma ideia digna de atenção.

Nos últimos três anos, interessei-me pelo uso de música como parte do ambiente e convenci-me de que é possível produzir material que pode ser usado dessa maneira sem ser de forma alguma prejudicado [em seu valor artístico]. Para criar uma distinção entre meus próprios experimentos nessa área e os produtos dos vários fornecedores de “música enlatada”, criei o termo Ambient Music.

Define-se uma “ambiência” como uma atmosfera ou uma influência do que está ao redor; uma coloração. Minha intenção é produzir peças originais, ostensivamente (mas não exclusivamente) para ocasiões e situações específicas, visando criar um pequeno mas versátil catálogo de música ambiental adequada a uma ampla variedade de estados de espírito e atmosferas.

Enquanto as empresas existentes que produzem música enlatada partem da premissa de regularizar ambientes abafando suas idiossincrasias acústicas e atmosféricas, a Ambient Music pretende realçá-las. Enquanto a música de fundo convencional é produzida removendo da música qualquer senso de dúvida e incerteza (e assim qualquer interesse genuíno), a Ambient Music retém essas qualidades. E enquanto a intenção daquelas músicas é “iluminar” o ambiente acrescentando estímulos a ele (e assim supostamente aliviar o tédio das tarefas rotineiras e nivelar os altos e baixos naturais dos ritmos do corpo), a Ambient Music pretende induzir calma e um espaço para pensar.

A Ambient Music deve ser capaz de acomodar muitos níveis de atenção ao escutar, sem impor nenhum em especial; deve ser tão ignorável quanto é interessante.

 

Em outras palavras, enquanto todo mundo torcia o nariz para a “música de elevador” como algo a ser simplesmente desprezado, Eno percebeu que ela cumpre uma função social importante, assim sendo merece atenção e tem conotações políticas significativas, como agente de conformidade à ordem social. E em contraponto ao kitsch e à cafonice deliberada dos Paul Mauriats e Mantovanis da vida, Eno quis criar algo de alto valor artístico e que incentivasse à reflexão e ao discernimento – portanto, em vez da conformidade do muzak usual, a Ambient Music é altamente subversiva.

Music for Airports, o primeiro disco desse novo conceito, tem apenas quatro faixas de estrutura minimalista e nomes mais mínimos ainda: chamam-se simplesmente 1/1, 1/2, 2/1 e 2/2 (ou seja, “lado 1, faixa 1” do LP do lançamento original e assim por diante). 1/1 é minha preferida e ilustra o conceito à perfeição: dois solos muito simples de piano tocando ao mesmo tempo mas interagindo em padrões que se revelam intrincados a uma audição atenta. Ocasionalmente aparecem intervenções de outros instrumentos, notavelmente sintetizadores, para compor o clima – às vezes pedindo sua atenção, às vezes dando um tom sombrio – mas nunca vão para o primeiro plano. Você pode também deixar a música tocando e ir fazer outras coisas, sem prestar atenção nela (estou escutando o disco enquanto escrevo) – ela não atrapalhará, mas você sentirá que algo está diferente. 1/1 foi composta em parceria com o também produtor Rhett Davies e com o vocalista do Soft Machine, Robert Wyatt. A faixa mais complexa é 1/2, feita com loops superpostos de amostras vocais e sintetizadores reverberados num conjunto de cadeiras de tubos de alumínio que Eno colocou no estúdio. Os loops têm durações próximas, mas matematicamente primas entre si, o que significa que nunca entrarão totalmente na mesma sincronia de novo. Há ainda uma mesma nota de sintetizador que se repete a cada 29 segundos exatos.

A estrutura das músicas pode ser acompanhada em gráficos que Eno colocou na parte de trás da capa do disco:

 

Capa de trás de "Music for Airports"

 

Em termos de forma e estrutura, a Ambient Music não é exatamente inédita. O próprio Eno reconheceu a influência do piradérrimo John Cage (uma das muitas experiências malucas dele foi jogar o I Ching para determinar a sequência da composição) e Erik Satie (que chegou bem perto do conceito, inclusive chamando algumas de suas peças de musique d’ameublement, ou “música de mobiliário”). O trabalho do Pink Floyd nos primeiros discos, até Meddle (o “disco da orelha”, que por sinal é o meu favorito deles), era constantemente citado como “atmosférico” (façam o “sacrifício” de conferir, por exemplo, Careful With that Axe, Eugene e Echoes). A Ambient Music também tem óbvios pontos de interseção com a música “espacial” de Vangelis, Jean-Michel Jarre (o antigo, de Oxygène até Zoolook, antes de ele ficar espetaculoso e brega) e Klaus Schulze, e com o rock eletrônico alemão do Kraftwerk, Tangerine Dream e Popol Vuh (que fazia aquelas trilhas sonoras maravilhosas dos filmes do Werner Herzog). Mas nenhum deles fez esses trabalhos com a intenção deliberada de usá-los como música ambiente, nem a música foi especificamente estruturada nos níveis estratificados de atenção que definem o gênero.

No que diz respeito à sua proposta inicial, a Ambient Music não desbancou Paul Mauriat, que continua firme e forte nos elevadores e salas de espera do mundo. Mas teve um impacto no resto da música que foi impressionante. Por exemplo, seria impossível conceber o trip hop sem sua influência. Portanto, sem Music for Airports, vocês jamais teriam ouvido falar do Massive Attack, Morcheeba ou Portishead. Aphex Twin, então, é um filho diretíssimo. Há uma clara influência até no heavy metal sinfônico de grupos como o finlandês Nightwish e o holandês Within Temptation. Nas pistas de dança eletrônicas, a lounge music e o ambient house, tocados para relaxar a galera e recompor as energias depois de gastá-las freneticamente em ritmos mais agitados, assumem explicitamente sua origem e inspiração. E vai por aí afora. Apesar de aparentemente tão diferentes, tanto entre si quanto do trabalho seminal de Eno, os trabalhos de todos esses artistas têm em comum o fato de que a incorporação deliberada de “ambiências” é parte integrante e importantíssima de sua essência. E tudo isso começou com este disco. Eu não disse que o álbum era incrivelmente influente e que todo mundo no meio musical escuta e recicla o que Eno faz?

Vocês podem ouvir Music for Airports no Sonora, do Terra, ou ainda numa audição comentada no ótimo blog Sons, Filmes & Afins, e há também vários vídeos com as quatro faixas no YouTube. Depois digam se acharam insuportavelmente chato, ou bonitinho mas ordinário, ou genial ou o quê. E se gostariam de ouvir isso numa manhã em Guarulhos, na sala de embarque para as posições remotas em dia de chuva, todos os voos atrasados e depois de vocês terem mudado de sala de embarque três vezes – apenas porque foram espertos e prestaram atenção no painel, porque ninguém da TAM ou da Gol se deu ao trabalho de avisar…

Para quem quiser conhecer mais do trabalho de Eno, recomendo em especial os dois primeiros discos do Roxy Music (o primeiro, de 1972, tem apenas o nome da banda e o segundo, de 1973, chama-se For Your Pleasure) e a série de Ambient Music que ele fez com Harold Budd, especialmente The Plateaux of Mirror, que é uma pequena obra-prima. Principalmente, imperdível mesmo é My Life in the Bush of Ghosts, disco que contém uma pequena amostra de sons coletados e reciclados por Eno em parceria com David Byrne, variando de programas de rádio daqueles pregadores evangélicos bem espalhafatosos, passando por cantoras folclóricas de quilombos da Geórgia ou das montanhas do Líbano, até um exorcista em plena atividade de tirar o demo de dentro de uma vítima possuída… Ou simplesmente ligue o rádio ou vá a um clube dançar. Você pode não saber ou notar, mas Eno estará lá.

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Sobre o Autor

Mineirim de BH exilado em Sampa, ex-informata, atual tradutor técnico, apaixonado por aviões desde o primeiro voo. Adora tititi de aeroporto, cheiro de querosene, barulho de turbina em decolagem. Sabe diferenciar um 737NG de um A320 passando pelo som dos motores. Frustração: não voou no Concorde (mas o viu pousar uma vez).
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