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Música da semana: Eumir Deodato — “Also Sprach Zarathustra”

A música desta semana vai dedicada especialmente ao Lvcivs, que é fã de carteirinha do artista em questão: a antológica versão de Eumir Deodato para a abertura do poema sinfônico Also Sprach Zarathustra (“Assim Falou Zoroastro”), de Richard Strauss (alemão, muito posterior e sem nenhum parentesco com os Johann Strauss, pai e filho, das valsas vienenses) — a mesma abertura celebrizada como tema do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, só que durante algum tempo, a versão de Deodato foi ainda mais popular. E foi no mundo todo!

O carioca Eumir Deodato de Almeida, mais conhecido simplesmente como Deodato, é mais um daqueles gênios musicais que o Brasil vive perdendo para o mundo, porque não obtêm reconhecimento aqui — da mesma forma que Baden Powell, Astrud Gilberto (os americanos ficam perplexos quando conto que aqui quase ninguém ouviu falar dela, que lá é considerada a maior embaixadora da música brasileira), Naná Vasconcelos, Flora Purim, Airto Moreira, Paulinho da Costa, Marcos Valle e a lista, infelizmente, é longa…

Morando nos EUA desde o final da década de 1960, Deodato logo se tornou um dos produtores e arranjadores mais requisitados e premiados do mundo. Deodato já produziu mais de 500 discos, dos quais 15 foram discos de platina, e nem mesmo ele sabe quantos Grammies os discos que ele produziu ganharam. Uma vez vi uma reportagem na TV com cenas gravadas na casa dele em Nova York, e lá ele tem uma parede inteira literalmente forrada de discos de ouro e de platina. Quando vocês ouvem clássicos memoráveis como Celebration, de Kool & the Gang (uma das minhas músicas favoritas para dançar), ou Killing Me Softly (With His Song), de Roberta Flack, o arranjo e a produção foram dele. Ele já trabalhou com artistas tão variados quanto Frank Sinatra, Earth, Wind & Fire, Titãs e Björk, já fez várias trilhas sonoras de filmes e hoje, às vésperas de completar 70 anos, continua na ativa e requisitadíssimo.

Eumir Deodato recentemente e na época do "Zarathustra"

Eumir Deodato recentemente e aos 29 anos, na época do “Zarathustra”

Como se já não bastasse esse currículo impressionante como produtor musical, Deodato também tem sua carreira própria como músico e é sempre citado como um dos criadores e maiores expoentes do gênero fusion (jazz com influências de rock). Sua fase áurea foi na respeitadíssima CTI Records, no início da década de 1970. Seu primeiro disco lá, Prelude, de 1972, incluía esta inusitada versão da abertura de Also Sprach Zarathustra, que, cortada para um single de pouco mais de 3 minutos (a versão original tem 9 minutos), alcançou o número 2 na parada geral da Billboard. Supereletrificado e eletrizante, o Zarathustra de Deodato fica irreconhecível em boa parte da sua duração, mas e daí? Richard Strauss provavelmente franziria as sombrancelhas, para depois se perguntar por que seu corpo insistia em ficar se sacudindo tanto… Absolutamente genial e empolgante, não foi à toa que o Zarathustra de Deodato ganhou o Grammy de Melhor Instrumental Pop do Ano.

"Prelude" - Eumir Deodato (capa)

O melhor de tudo é que mesmo com tantos metais e guitarras eletrificadas, o sotaque e o batuque brasileiros estão na música toda. Por exemplo, numa rara visita de Deodato ao Brasil, ele deu uma entrevista na TV Cultura de São Paulo, onde contou que o tema de introdução que ele toca no piano elétrico (começando por volta dos 50 segundos) logo antes de entrarem as notas mais conhecidas do Zarathustra é simplesmente um velho baião que seu professor de piano na adolescência o fazia tocar até se cansar — e depois que você presta atenção, é mesmo um baião! Quem mais vocês conhecem que misturaria baião e samba a Richard Strauss, jazz e rock e daria certíssimo como deu?

41 anos depois, o Zarathustra de Deodato ainda é um sonzão para ninguém botar defeito! Também ainda é uma das músicas mais “sampleadas” do mundo e uma das mais usadas em vinhetas e comerciais do mundo todo. Foi usado com grande efeito no filme Muito Além do Jardim (Being There), de Hal Ashby (a última e talvez a mais impressionante atuação do sempre extraordinário Peter Sellers, que morreu logo depois de terminadas as filmagens), para sublinhar a paradoxal sanidade do jardineiro autista (Sellers) solto num mundo insano. A cena dele caminhando solitário numa avenida de muito tráfego ao som do Zarathustra de Deodato e tentando mudar o mundo de canal com seu controle remoto ficou gravada na cabeça de todo mundo que viu o filme (que também recomendo entusiasticamente, é lindo e genial).

E o resto de Prelude também não tem uma única música fraquinha. Eu poderia citar os outros discos dele, mas deixo isso a cargo do Lvcivs, que além do concordólogo eminente que conhecemos, também é um deodatólogo emérito. (Mas posso pelo menos recomendar a versão do Deodato para o tema da série de TV Peter Gunn, que eu adoro?)

Desfrutem, e boa semana!

 

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Sobre o Autor

Mineirim de BH exilado em Sampa, ex-informata, atual tradutor técnico, apaixonado por aviões desde o primeiro voo. Adora tititi de aeroporto, cheiro de querosene, barulho de turbina em decolagem. Sabe diferenciar um 737NG de um A320 passando pelo som dos motores. Frustração: não voou no Concorde (mas o viu pousar uma vez).
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