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Música da semana: Herb Alpert — “Rise”

Tive a ideia de dar um novo tipo de colaboração aqui: toda semana vou postar um vídeo, acompanhado de um breve comentário (até onde meus comentários podem ser breves…), de uma música que, em minha opinião, vale a pena ser escutada. Quando for uma coisa mais “para cima”, como hoje, vou postar na segunda-feira de manhã, para ajudar vocês a encarar a semana. Quando for algo mais “pesado”, cerebral ou depressivo, vou deixar para a terça. Isso sem prejuízo de minhas postagens mais longas sobre música e, é claro, aviação, que continuarão a ser publicadas a intervalos irregulares, enquanto eu puder e o Lito me quiser aqui.

Herb Alpert - Rise

Vou inaugurar a série com Rise, de Herb Alpert, que tive a ideia de postar depois que mencionei o disco num comentário aqui. Herb Alpert é um trompetista americano que conseguiu o milagre de fazer música instrumental que é um sucesso estrondoso de popularidade (chegou a desbancar os Beatles na lista da Billboard algumas vezes!). Hoje está com quase 80 anos de idade, mas ainda gravando e se apresentando. Também é podre de rico, não só por causa da vendagem dos seus próprios discos, mas também pela dos outros: ele foi um dos fundadores e donos da A&M Records, que já foi uma das maiores e mais bem sucedidas gravadoras de todos os tempos (mais tarde, Alpert a vendeu e hoje é um selo da Universal Music). Não é por acaso que o logotipo da A&M mostra um trompete estilizado: é o trompete de Alpert. (O “A” de “A&M” é de “Alpert”; o “M” é do antigo sócio dele, Jerry Moss.)

Logotipo da A&M Records

Herb Alpert sempre me chamou a atenção e, menino ainda, eu ficava fascinado com as músicas do Tijuana Brass, grupo que ele criou e desfez ainda nos anos 60, com seu som característico de metais de influência mexicana, como indica o nome. (Na verdade, no início, o Tijuana Brass era uma fraude: era só ele mesmo fazendo overdubs no estúdio de gravação. Só quando o sucesso foi tanto que o público exigiu apresentações ao vivo e na TV, virou uma banda de verdade, mas nunca teve integrantes hispânicos, apesar do nome.) E ele continua me fascinando, porque gosto de gente que rompe paradigmas e me deixa sem saber o que pensar, pois os parâmetros usuais de avaliação parecem não se aplicar ao que se vê ou ouve.

No caso, o que me fascina em Herb Alpert é que, por um lado, ele faz e sempre fez um som bastante comercial, de audição fácil e de olho na vendagem e nas tendências do momento no mercado musical (coisa que, por motivos óbvios, era facílimo para ele acompanhar). As apresentações do Tijuana Brass ao vivo e na TV também eram cafonérrimas, espetaculosas, apelativas, com direito até a coreografia brega. Mas ao mesmo tempo, Alpert sempre teve estilo próprio e original (que ele criou e ainda é muito influente, usando a influência latina com respeito, sem fazer pastiche ou clichê da música mexicana e sem a pretensão de ser representativa dela), nunca se acomodou à fama e ao sucesso, e sempre introduziu características frescas e muitas vezes inovadoras em sua obra — além, é claro, de ser um músico, produtor e arranjador extremamente competente. Ou seja, as concessões ao gosto de massa nunca chegaram ao ponto de fazer com que sua música deixasse de ser de qualidade e de genuíno mérito artístico. Muito diferente da música de um Kenny G, por exemplo, que é apenas kitsch, mesmo — feita deliberadamente com todos os clichês e ingredientes de comprovada eficácia para a média das pessoas achar linda e comovente, e é claro, comprar.

É isso que torna Herb Alpert tão interessante: ele torna borradas as fronteiras entre o comercial, aquilo que foi feito de forma criteriosamente estudada para pegar o máximo de dinheiro fácil de uma massa de incautos sem discernimento, e o que é arte, expressão criativa de verdade. Ele leva a gente a se questionar sobre os limites e critérios de uma coisa e a outra. O que existe no meio entre um pinguim de geladeira produzido em massa e o David de Michelangelo, ou entre uma réplica do mesmo David usada para dar um ar de pretensa cultura a um cassino de Las Vegas e a obra original? Qualquer artista que leve a uma reflexão desse nível é digno de atenção.

Além disto, enquanto foi dono da A&M, Alpert sempre deu força a gravadoras menores e especializadas, que publicavam música de reconhecida qualidade, usando a estrutura maior da A&M para ajudá-las a promoverem e distribuírem seus discos. Foi assim, por exemplo, com as aclamadíssimas CTI Records (de jazz) e Windham Hill (de New Age de vanguarda, da qual pretendo falar mais detalhadamente em breve). É claro que era um negócio, mas nem de longe tão lucrativo quanto seria se a A&M dedicasse os mesmos recursos a artistas mais populares. Alpert fazia isso por gosto e prazer, mesmo.

Principalmente, o som de Herb Alpert sempre foi uma delícia de se escutar. Comercial ou não, é irresistível, não há como não se render! Rise, de 1979, foi seu maior sucesso, e isso já muitos anos depois do fim do Tijuana Brass, quando todo mundo achava que ele tinha virado só um executivo de gravadora e daí para frente só desfrutaria dos seus bilhões fora de cena. Pudera que tenha feito tanto sucesso: Rise é uma daquelas músicas difíceis de escutar uma vez só — a gente quer mais! Então, desfrutem, ouçam, reouçam e tenham uma ótima semana, começando em alto astral.

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Sobre o Autor

Mineirim de BH exilado em Sampa, ex-informata, atual tradutor técnico, apaixonado por aviões desde o primeiro voo. Adora tititi de aeroporto, cheiro de querosene, barulho de turbina em decolagem. Sabe diferenciar um 737NG de um A320 passando pelo som dos motores. Frustração: não voou no Concorde (mas o viu pousar uma vez).
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