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Música da semana: Mariza — “Chuva”

Bandeira de Portugal

Ó pá, vamos atentar que a música desta semana vem dos nossos queridos primos d’além-mar e os marmanjos não precisam ter nenhuma vergonha de chorar ao escutá-la, que fado é para isso mesmo. “Fado??? Mas isso é do tempo da minha bisavó!” — dirão talvez alguns, já torcendo a torcerem o nariz. Eu mesmo falava isso até pouco tempo atrás, e os portugueses de várias gerações recentes falavam a mesma coisa, especialmente nas primeiras décadas depois do fim da ditadura salazarista, quando havia em Portugal uma sede de renovação e ruptura com o passado. (Se bem que se idade fosse problema para música boa, a gente não ouviria Mozart, Bach, Beethoven e Vivaldi, todos muito anteriores à tataravó da minha bisavó.)

Mas ante a mediocridade de boa parte da música pop dos últimos anos, os portugueses acabaram por descobrir que tinham coisa muito melhor em casa mesmo. E, num fenômeno fenómeno semelhante ao que aconteceu com o tango na Argentina, perderam toda a vergonha de escutar, tocar, cantar e criar fado novamente. Hoje, o fado é de novo muito in em Portugal — inclusive e principalmente entre os jovens.

Ainda bem, porque a nova geração de fadistas é muito competente e renovou o gênero género com um sopro de ar fresco, mas sem perder a alma e o sentimento tão genuinamente portugueses que fazem o fado. Apesar disso, o fado contemporâneo é menos dramático e mais sutil que o tradicional. Ou seja, conseguiram aperfeiçoar o que já era lindo. E nós, brasileiros, como no fundo ainda somos muito portugueses também, não podemos ficar indiferentes. A maravilhosa Mariza, em especial, venceu todas as minhas resistências. Chuva, na magnífica voz dela, é definitivamente uma das músicas mais lindas que já ouvi.

Mariza

Essa bela morena de cabelo rente platinado, que é sua marca registrada registada, foi originalmente uma “retornada”, como se chamavam as pessoas de ascendência portuguesa nas antigas colônias colónias africanas que emigraram para a antiga metrópole quando a tumultuada independência dos novos países os jogou em guerras civis sangrentas e intermináveis, acompanhadas de represálias e perseguições contra os antigos colonizadores. O triste e alto preço de séculos de colonialismo foi cobrado todo de uma vez.

Mas Marisa dos Reis Nunes (originalmente com “s”, mesmo) tinha pressa de mostrar ao mundo seu talento: nasceu prematura de seis meses na então Lourenço Marques, atual Maputo, capital de Moçambique, filha de pai português e mãe moçambicana, poucos meses antes da Revolução dos Cravos, que pouco depois desembocaria na independência das colónias africanas. Chegou a Portugal em 1977, aos três anos de idade. Em Lisboa, seu pai abriu um restaurante que logo se tornou ponto de encontro da boemia lisboeta, especialmente dos músicos. Aos sete anos de idade, lá estava já a miúda a apresentar-se e a cantar fados. O pai também a introduziu ao fado desde cedo, sempre ouvindo discos de fado em casa. Mas quem a acusa de imitar Amália Rodrigues está a ser injusto: Mariza só veio a conhecer direito Amália Rodrigues depois de moça, porque o pai só tocava discos de fadistas homens em casa. Seja como for, o fato facto é que, juntando a essa história pessoal um enorme talento inato, houve simplesmente a convergência certa de factores e o resultado não poderia ser outro.

Mariza foi a primeira fadista (ou “cantadora de fados”, como ela prefere ser chamada) da nova geração a resgatar o fado e até hoje é o seu maior expoente. Além da cantora fenomenal que ela é, ajudar um povo inteiro a ter autoestima e orgulho de si mesmo e das suas raízes é para poucos.

Agora, gajos e meninas, peguem uma caixa de lenços de papel tamanho grande, sem o menor pudor (eu não tenho), e mergulhem em Mariza. Garanto que a chuva que molhará o seu rosto não será aquela que bate no vidro trazendo a saudade. Cairá aos borbotões, quente, do seu rosto nada gelado e nada cansado. Mas não se preocupem: ela ainda calará seu segredo à cidade. E valerá muito a pena, ora pois!

 

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Sobre o Autor

Mineirim de BH exilado em Sampa, ex-informata, atual tradutor técnico, apaixonado por aviões desde o primeiro voo. Adora tititi de aeroporto, cheiro de querosene, barulho de turbina em decolagem. Sabe diferenciar um 737NG de um A320 passando pelo som dos motores. Frustração: não voou no Concorde (mas o viu pousar uma vez).
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