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Música da semana: Secos & Molhados — “Fala”

A música desta semana é Fala, uma pequena amostra de até onde podia chegar a genialidade dos Secos & Molhados. Apesar de 40 anos terem se passado, todo mundo já ouviu falar um pouco deles e da importância que eles tiveram. Apesar de fugazes (duraram menos de dois anos), nessa persistência eles foram um pouco como nossa versão dos Beatles. Todo mundo, até uma criança hoje com 10 anos de idade, sabe que Ney Matogrosso veio deles e talvez até saiba cantar um trecho de O Vira ou Sangue Latino. Mas tudo que os mais jovens ouviram falar sobre a importância e principalmente o talento deles é pouco. Só mesmo quem viveu aquela época tem ideia do tamanho do impacto que eles tiveram na cultura nacional e do pesadelo para a ditadura que eles foram, sem falar no quanto deram um pouco de cor e alegria aos “anos de chumbo”.

Ninguém é capaz de se lembrar como eles apareceram. Só se sabe que, em meados de 1973, de repente, apareceu na TV aquele grupo de três homens de cara pintada usando fantasias espalhafatosas, com um cantor totalmente andrógino rebolando e desmunhecando despudoradamente enquanto cantava em falsete, sem a menor vergonha ou preocupação, num país que era então ainda mais machista que hoje. Dois meses depois, já estavam lotando estádios no país inteiro. A demanda pelo disco foi tamanha que a tiragem inicial foi vendida em menos de uma semana e, como havia uma crise no abastecimento de petróleo e derivados, inclusive o vinil, a gravadora logo teve que derreter discos já produzidos de outros artistas, mas encalhados, para usar o vinil para prensar o disco dos Secos & Molhados.

No início, é claro, muita gente mais velha e/ou mais conservadora achou aquilo o fim do mundo, o cúmulo da apelação, “onde vamos parar?” Só que havia um detalhe: a música que eles faziam era extraordinariamente boa. No primeiro disco (que não hesito em considerar uma das maiores obras-primas da MPB em todos os tempos), não havia uma única música nem “mais ou menos” — eram todas ótimas! E não só ótimas, como inovadoras em muitos sentidos, reciclando um monte de influências num som com o qual ninguém nunca tinha ouvido nada parecido. Se eles estivessem aparecendo hoje, o som deles ainda seria totalmente atual e moderno (bem, talvez tirando o Moog que era moda na época, que comparece em algumas faixas – inclusive Fala – e que hoje soa definitivamente retrô).

 

Secos & Molhados - capa do primeiro disco (1973)

A capa do primeiro disco dos Secos & Molhados, apresentados literalmente como tais e com a mensagem sutil de que era a cabeça deles que estava sendo servida. A quarta cabeça é de Marcelo Frías, baterista argentino que tocou no disco e era para ser o quarto membro do conjunto, mas desistiu na última hora. Deve se arrepender disso até hoje.

 

Antes que os generais se dessem conta, seus próprios filhos e netos já estavam ouvindo o disco sem parar e cantando de cor todas as suas músicas  — inclusive, por exemplo, Assim Assado, que tinha versos como “mas mesmo assim, o velho morre assim assim, e o Guarda Belo é o herói assim assado” (isso depois de sugerir nas entrelinhas da letra que o velho apanhou da polícia porque era negro), ou El Rey, que dizia “eu vi El Rey andar de quatro, de quatro caras diferentes, de quatrocentas celas cheias de gente”. Para quem entende, um pingo é letra, e isso teria sido suficiente para mandar muitos outros para um calabouço militar. Provavelmente, essas músicas só passaram batidas pela censura porque o grupo ainda era obscuro e desconhecido quando o disco foi lançado e ficou abaixo do radar dos militares. Depois, o sucesso foi fulminante e tornou-os intocáveis rápido demais, antes que os militares pudessem reagir.

E não podiam mesmo, senão a revolução contra a “Revolução” começaria na casa deles mesmos. Vocês não fazem ideia. Os Secos & Molhados foram a maior unanimidade que o Brasil já teve. Todo mundo, sem exceção, os ouvia e os adorava. Até mesmo aqueles velhos e caretas ranzinzas, depois de ouvirem o disco (o que era inescapável) e perceberem a extraordinária qualidade da música que havia ali. (Com minha mãe mesmo foi assim: ela começou achando um horror o rebolado do Ney e terminou apaixonada pelo disco.) Aposto que, escondidos, até os generais linha-dura de Brasília cantavam as músicas do disco no chuveiro. Ajudava o fato de que as músicas eram em sua maioria curtinhas, de 2 minutos ou menos (El Rey tem só 55 segundos, As Andorinhas um minuto cravado); o primeiro álbum inteiro tem só 31 minutos, o segundo 29, e há uma ótima edição dos dois juntos em um único CD, remixada pelo Charles Gavin, dos Titãs. Mas como eles faziam esse tempo render!

Como reclamar, por exemplo, de Rosa de Hiroshima, poema de Vinícius de Moraes musicado por Gerson Conrad de forma absolutamente linda, que me enche de lágrimas até hoje? Aliás, musicar poemas era uma das especialidades deles. Além de Vinícius, eles conseguiram fazer o povão cantar Cassiano Ricardo, Manuel Bandeira e até Fernando Pessoa (Não Digas Nada, do segundo disco, ficou fabulosa!). E não importava a classe social ou o nível cultural da pessoa. Era todo mundo mesmo, do mendigo à socialite, que amava os Secos & Molhados e sabia cantar todas as músicas deles (eu disse todas!) de cor. Paradoxalmente, por causa deles, de certa forma o Brasil nunca foi tão democrático quanto naquele momento sombrio da ditadura, do qual eles proporcionaram uma catarse homérica em escala literalmente nacional.

 

Capa do segundo disco (1974)

 

Infelizmente, eles não conseguiam parar de fazer shows — o público exigia mais. Ficaram exaustos. Com tanta correria, não tinham tempo para compor, muito menos para gravar. Só conseguiram lançar o segundo disco mais de um ano depois do primeiro e logo em seguida já anunciaram a separação, porque não aguentavam mais o desgaste. Todo mundo concordou que o segundo disco não chegava aos pés da perfeição do primeiro (embora, ainda assim, contenha algumas joias preciosas e fique muito, muito acima da média do que se ouve por aí).

Depois disso, João Ricardo (principal compositor e a alma musical da banda) tentou ressuscitar o grupo duas vezes com formações diferentes, mas só a primeira teve algum limitado sucesso. Mais tarde, João desapareceu na cena underground e de vez em quando pode ser visto em shows do tipo dos que o SESC promove em São Paulo. Só os mais velhos (e atentos) sabem quem ele é. Gerson Conrad sumiu mesmo de vista. Ney Matogrosso dispensa apresentações e seu talento é uma justa unanimidade (já ouviram, por exemplo, a coisa linda e chiquérrima que virou justo a Tristeza do Jeca na voz dele em Pescador de Pérolas, o fabuloso show e disco dele com o Raphael Rabello?). Mas por mais talento que o Ney tenha, nunca mais atingiu a perfeição dos Secos & Molhados, especialmente no primeiro disco.

Escolhi mostrar Fala por dois motivos. Primeiro, simplesmente porque é uma das minhas faixas prediletas dentre as deles. Acho delicada, sutil, linda na letra e na música, refinada e inteligente, ao mesmo tempo em que não abre mão da simplicidade, por mais paradoxal que isso pareça. Ou seja, a cara deles, a verdadeira cara dos Secos & Molhados no que tinham de melhor. Segundo, eu queria mostrar às novas gerações que os Secos & Molhados iam muito além de O Vira e Sangue Latino, e para isso quis pegar justamente uma música hoje mais obscura e menos conhecida. Fala é uma bela amostra do talento deles, do quanto eles eram versáteis e competentes, da música fabulosa que eles faziam. Deixaram saudades — e mais que saudades, um sentimento de instintiva gratidão em todo um povo. Quantos artistas podem dizer isso?

 

 

Link para o vídeo (para quem tiver problemas com o vídeo embutido)

 Para quem quiser ouvir mais

As dicas adicionais de hoje são:

Para quem quiser só mais algumas amostras:

  • Rosa de Hiroshima, uma lindeza de poema do Vinícius que ficou uma pequena obra-prima na mão dos Secos & Molhados
  • o Lito com certeza vai aplaudir o encontro de Fernando Pessoa com João Ricardo em Não Digas Nada, um assombro de dupla genialidade
  • Flores Astrais, carro-chefe do segundo disco, com uma letra sem muito sentido, mas que ainda assim dá muito certo
  • Tercer Mundo, também do segundo disco, Ney dando início à sua tradição de cantar em espanhol (ou portunhol), num poema de Julio Cortázar musicado por João Ricardo
  • Assim Assado, outra das minhas favoritas, uma estocada sutil na ditadura
  • Amor, uma simples e suave coisa… suave coisa nenhuma!

Por fim, uma curiosidade: Que Fim Levaram Todas as Flores, única música de algum sucesso da reencarnação posterior dos Secos & Molhados que João Ricardo tentou criar em 1978, sem Ney, nem Gerson.

 

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Sobre o Autor

Mineirim de BH exilado em Sampa, ex-informata, atual tradutor técnico, apaixonado por aviões desde o primeiro voo. Adora tititi de aeroporto, cheiro de querosene, barulho de turbina em decolagem. Sabe diferenciar um 737NG de um A320 passando pelo som dos motores. Frustração: não voou no Concorde (mas o viu pousar uma vez).
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