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Música da Semana (especial de Páscoa): Vangelis e Irene Papas — “O! Glikí Mou Éar” #raridade

Como estamos na Semana Santa, hoje eu trouxe uma música raríssima e finíssima para vocês. Bem, todo mundo conhece o sr. Evángelos Odysséas Papathanassíou, não é mesmo? Como não conhece? Só para começar, todo mundo conhece as trilhas sonoras de Blade Runner e Carruagens de Fogo. Claro, estou falando de Vangelis, que disputa com Mikis Theodorakis o título de maior músico e compositor grego do último século. (A pronúncia correta parece ser “vanguélis”, não “vânjelis”.)

Mas esses dois trabalhos mais conhecidos são só uma pequena amostra do enorme talento e da imensa obra e produção desse homem. Por exemplo, os mais atentos também devem conhecer os discos dele em parceria com Jon Anderson, o ex-vocalista do Yes — dando resultados irregulares, com ótimos momentos (amo I Hear You Now de paixão!) alternando-se com outros medíocres (estes geralmente por culpa de Anderson, que tem uma voz do outro mundo, mas às vezes “viaja” demais). Aliás, por pouco Vangelis não substituiu Rick Wakeman como tecladista do Yes, quando Wakeman saiu do grupo.

 

Vangelis

Vangelis

Os mais velhos talvez se lembrem de Vangelis no grupo Aphrodite’s Child, com seu compatriota Demis Roussos. O Aphrodite’s Child era uma banda esquizofrênica, que oscilava entre extremos, fazendo desde canções românticas ultramelosas como Marie Jolie (grande sucesso nas paradas do mundo todo em 1969) até experimentalismos psicodélicos como o ousado álbum duplo 666 (baseado no livro bíblico do Apocalipse e proibido durante muito tempo em vários países, inclusive na Grécia dos coronéis e no Brasil dos generais, onde só foi lançada uma versão muito resumida com o nome de Break) — opostos totais. Roussos, que sabe ser um vocalista extraordinário quando quer (e insuportável quando não quer), mas está sempre de olho na conta bancária antes de mais nada, puxava para o lado mais romântico e comercial. Vangelis, um artista inquieto, puxava para o lado mais experimental. Não podia mesmo dar certo por muito tempo.

De toda forma, os fãs de Vangelis custam a acreditar que quem tocava na açucarada Marie Jolie era o mesmo cara que mais tarde chegou a lançar um disco pelo selo clássico Deutsche Grammophon. (Pena que o disco em questão — Invisible Connections — é insuportável de chato: soa mais ou menos como uma torneira pingando numa pia entupida durante 40 minutos.) Também foi o mesmo que experimentou com o som eletrônico “espacial” em Spiral e Albedo 0.39 (ambos antológicos e até hoje referências no gênero), que fez os belíssimos China e Opéra Sauvage, e que também fez trilhas mais popularescas (mas ainda assim, muito competentes) para o filme japonês Antarctica, para Desaparecido (Missing) e 1492 — A Conquista do Paraíso, bem como outras que ninguém notou, como a trilha de Alexandre. Fez coisas densas como Mask (o segundo movimento me faz pirar!) e apesar de tocar só de ouvido e não saber ler nem escrever partituras (em vez disso, desenvolveu um método de composição multimídia muito interessante), compôs uma sinfonia coral completa (e lindíssima), Mythodea, para comemorar o lançamento da sonda espacial Odysseus, da NASA, para Marte. E tudo isso são só alguns exemplos da prolífica carreira e produção dele!

Vangelis explora várias direções musicais, cria novos rumos e apesar de um ou outro deslize dispensável, é indiscutivelmente um gênio e deve ter o número direto de Palas Atena e das musas do Olimpo na agenda do celular. No ano 3013, provavelmente ninguém saberá quem foi Britney Spears, mas acho que ainda escutarão Vangelis, tanto quanto ainda lerão Aristóteles e Platão, aprenderão na escola o teorema de Pitágoras e admirarão a arte de Fídias no Parthenon (se a poluição de Atenas não a dissolver antes). Os gregos têm mesmo esse talento para não se deixarem esquecer.

Irene Papas

Irene Papas. Não há fotos muito recentes dela.

Mas a dadivosa Grécia não nos deu só Vangelis no século XX. O povo que inventou a arte dramática tal como a conhecemos (além das próprias palavras “teatro”, “drama” e “comédia”) também nos deu no último século algumas atrizes extraordinárias. Duas delas, em especial, ficaram muito conhecidas fora da Grécia, por terem trabalhado no cinema europeu e em Hollywood. Uma foi a corajosa ativista política e mais tarde deputada e ministra, Melina Mercouri, já falecida — maravilhosa tanto como atriz quanto como ser humano. A outra é uma deusa da interpretação e é para os gregos algo como o que Fernanda Montenegro é para nós. É Irene Papas, que o resto do mundo pôde ver em Os Canhões de Navarone; Zorba, o Grego; Z e vários outros filmes notáveis.

O que poucos fora da Grécia sabem é que Irene Papas também canta — maravilhosamente. (Ou cantava, pois é improvável que preserve a voz aos 86 anos que tem agora.) Ela já participara de 666 e já tinha um outro disco gravado com Vangelis (Odes) quando os dois gravaram Rapsodíes (Ραψωδίες), em 1986. Trata-se de um disco só de canções e hinos tradicionais gregos para a Semana Santa e a Páscoa.

Vale explicar que agora ainda não é a Semana Santa na Grécia, pois a religião ortodoxa grega ainda marca a data da Páscoa pelo antigo calendário juliano. Então, para eles, a Páscoa é algumas semanas depois da dos católicos e protestantes, que seguem o calendário gregoriano. De toda forma, para os ortodoxos, a Páscoa é a data mais importante do ano e a mais celebrada — muito mais que o Natal ou qualquer outra. Com o atraso do calendário e mais o clima mediterrâneo da Grécia, lá quase sempre a Semana Santa já é no meio da primavera do Hemisfério Norte, com temperaturas agradáveis encorajando celebrações e procissões ao ar livre (numa tradição muito antiga que data de tempos pré-cristãos e inclui mal disfarçados elementos pagãos de celebração da estação e do plantio), sempre envolvendo muita música — às vezes triste e solene, outras vezes mais alegre, dependendo do dia e do aspecto da Paixão e Ressurreição de Cristo que estejam sendo celebrados. Há um vastíssimo repertório de músicas de Páscoa no folclore e na liturgia gregos. Vangelis e Irene Papas gravaram aqui algumas das mais tradicionais.

Capa de "Rapsodíes"

Capa de “Rapsodíes”

O disco todo é lindo! Raridade total, pois nunca foi lançado fora da Grécia. Fiquei conhecendo quando um amigo meu me mostrou. Ele tinha viajado à Europa pouco antes e tinha encontrado o disco em vinil fuçando num sebo de Paris, onde deve ter sido vendido por algum imigrante grego em apuros financeiros. Fiquei apaixonado pelo disco, mas só anos mais tarde tive a oportunidade de, via Internet, mandar importar o CD — made in Greece e todo escrito e cantado em grego. Bem, não apenas cantado: há uma faixa apenas instrumental, Rapsodia (Ραψωδια), e outra chamada Asma Asmaton (Aσμα Ασματων, nada menos que o Cântico dos Cânticos, que muitos consideram o livro mais poético da Bíblia), onde Irene não canta, declama, com um fundo musical ao mesmo tempo sombrio e etéreo, como só Vangelis seria capaz de fazer. E só mesmo uma grande atriz grega, treinada em Sófocles, Eurípedes e Ésquilo como seu beabá, conseguiria colocar tamanha carga dramática na voz que, juro, mesmo sem entender uma palavra da língua, você fica emocionado ao ouvir essa declamação!

Mas escolhi trazer a faixa que considero a mais bonita deste disco: O! Glikí Mou Éar (Ω! Γλυκύ Μου Έαρ), que, pelo que pesquisei, quer dizer “Ó, minha doce primavera”. (Pensando bem, glikí? “Doce” primavera? Faz sentido: “glicose” veio de onde? Nunca fui à Grécia, nem muito menos falo grego, mas quem já foi me disse que lá a gente descobre que sabe mais grego do que imaginava e que esses pequenos fragmentos já ajudam um bocado.) Esta música é tradicionalmente cantada na Quinta-Feira Santa (não me perguntem por que não é na sexta, que teria mais lógica) e representa o lamento de Nossa Senhora ao ver o corpo morto de Cristo, perguntando à primavera onde ela escondeu sua beleza. A explicação que li, escrita por um grego fluente em inglês, conta que no original, os versos são extremamente poéticos: por exemplo, na verdade perguntam à primavera onde sua beleza “se pôs”, usando um determinado verbo que normalmente só se usa para o sol, subentendendo que a primavera se pôs como o sol e se escondeu como este atrás da noite, pois não pode haver primavera nem luz se Cristo está morto.

Letra de "O! gliki mou ear"

Para quem souber ou quiser encarar o grego, aqui vai a letra da música, no original e transcrita para o alfabeto romano (clique para ver ampliada). Não achei nenhuma tradução completa, apenas uma explicação e esta tradução parcial: “As mulheres que trazem o perfume vieram muito cedo perfumar a sepultura e Vossa Santa Mãe estava lamentando ao ver-Vos. E a menininha [apesar da idade, estão falando da Virgem Maria] chorava lágrimas quentes, esvaziando suas entranhas: – Ó minha doce primavera, minha dulcíssima criança, onde se pôs tua beleza?”

Então, quem for religioso, que aproveite a oportunidade de conhecer a maneira belíssima pela qual outro povo exerce sua fé, através de dois grandes artistas. Afinal, há um monte de músicas sacras católicas e protestantes muito conhecidas, mas aqui não conhecemos nada da tradição cultural e artística dos ortodoxos, que é tão ou mais rica. E quem não for religioso, que aproveite essa música maravilhosa assim mesmo, da mesma forma que não é preciso ser católico para se encantar com o teto da Capela Sistina ou com a Pietà logo ao lado na Basílica.

Boa Páscoa, mas não abusem do chocolate! :-)

 

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Sobre o Autor

Mineirim de BH exilado em Sampa, ex-informata, atual tradutor técnico, apaixonado por aviões desde o primeiro voo. Adora tititi de aeroporto, cheiro de querosene, barulho de turbina em decolagem. Sabe diferenciar um 737NG de um A320 passando pelo som dos motores. Frustração: não voou no Concorde (mas o viu pousar uma vez).
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