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Não poder voar aos Domingos tem algo a ver com o acidente do Air Asia #QZ8501 ?

Buscando os destroços do AirAsia QZ 8501. Foto: AP

Buscando os destroços do AirAsia QZ 8501. Foto: AP

Nos últimos dias têm-se noticiado a todo momento que o Air Asia não tinha licença para fazer a rota voada no dia da queda. Mas será que esta mera “tecnicalidade”, um simples “jeitinho” em violar uma portaria governamental iria causar o acidente fatal?

Vejamos.

Sempre que há notícias sobre infortúnios aéreos, deixo claro que para ocorrer um acidente é necessário haver uma conjunção de fatores, já que apenas uma falha mecânica, ou apenas um erro humano não é suficiente para derrubar um avião.

Logo, somente o fato da empresa não estar autorizada a voar em determinados dias da semana não teria feito o Airbus da Air Asia mergulhar no oceano. Porém, se você não segue um regulamento governamental em relação às rotas, que são auditadas [e visíveis] pelo órgão regulador, o que mais sua empresa deixa de seguir? Como você cuida daquelas coisas não visíveis aos outros?

Hoje foi noticiado (em inglês) que os pilotos do voo QZ8501 não receberam o “Weather Report” antes do voo, e que possivelmente isso é uma prática comum da Air Asia.

Ora, o “Weather Report” é um dos documentos mais importantes para a segurança do voo. É nele que os pilotos antecipam como será a jornada à frente, com ou sem turbulência [em excesso], como serão os desvios, quanto de combustível a mais será necessário, entre outros. Isto é tão básico, que até para você simular um voo no MS Flight Simulator, a meteorologia é informada. Há até add-ons sensacionais como o Active Sky Next e o planejador de voos PFPX só para você simular com mais realidade uma operação aérea.

Como então a Air Asia deixava a cargo dos pilotos acessar a internet para saber a meteorologia na rota?

Neste link você pode baixar um plano de voo fictício entre Indonésia e Singapura que preparei em minutos usando o PFPX, praticamente igual a um plano de voo real. Vejam a quantidade de informações presentes. Tudo o que está no plano é “brifado” e decisões são tomadas. Deixo abaixo uma figura que mostra os ventos predominantes em uma certa altitude, no caso, nível 330 no dia de hoje entre Surabaya e Singapura. Estas informações fazem parte de qualquer plano de voo comercial. Além destas, os pilotos deveriam receber uma parte específica sobre o tempo em rota, mas aparentemente isto não aconteceu.

vectors

Se quiser saber mais sobre esta carta, pesquise sobre Wind Vectors no Google.

Então, se algo crucial ao voo não possuía um padrão de operação, isto suscita perguntas aos investigadores do tipo: será que as baterias dos ELTs eram substituídas dentro do prazo regulamentar? Será que os checks eram feitos a intervalos regulares? Será que o programa de manutenção da empresa está em dia? Será que o treinamento dos pilotos está de acordo?

Esta é a real importância de qualquer descoberta relacionada ao fatídico voo. Não é importante para a investigação DESTE acidente saber que no dia seguinte um outro avião da empresa saiu da pista na hora do pouso. Não há uma relação direta entre os dois eventos. Muito menos no alarde histérico sensacionalista das mentiras contadas ontem. Mas o sistema de gerenciamento de toda a operação da empresa e tudo que a envolva sim, incluindo o órgão regulador.

Não podemos esquecer que a Indonésia, assim com o Brasil, é um país em desenvolvimento com a demanda crescendo muito mais rápido do que a estrutura suporta. O Brasil aprendeu umas lições duríssimas durante o nosso “Caos Aéreo” e continua trabalhando até hoje em virtude daquilo para desenvolver o setor. Sim, leva tempo. E dinheiro. Muito dinheiro.

Este acidente fará a Indonésia mudar também, pois ao contrário de acidentes automobilísticos, acidentes aéreos quebram paradigmas.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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