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Não senhores, raios não destroem motores de avião

De fato, raios não explodem aviões (a menos que você seja um roteirista de cinema).

Hoje foram divulgados dois vídeos de um suposto Airbus A321 da Turkish Airlines prefixo TC-JRI com um motor em chamas após ter sido atingido por um raio. Eis um dos textos:

A Turkish Airlines flight suffered an engine fire due to lightning strike during its descend to İzmir Adnan Menderes Airport (LTBJ)

Traduzindo: Um voo da Turkish incendiou um motor ao ser atingido por um raio na sua descida para o Aeroporto Ìzmir […].

Este é o vídeo de espectadores no solo:

Uau! Realmente parece um motor em chamas não é? Mas por que saem bolotas de fogo e não uma chama constante? Isto para mim parece mais um surge de compressor (stall de compressor) e não fogo. Vocês já viram um fusca, dentro de um túnel, na reduzida fazendo aqueles pipocos e soltando fogo pelo escapamento? Então, sem querer comparar um motor de fusca com um motor a jato, mas o sintoma é bem parecido ao de um surge: pipocos e chamas, com uma dimensão bem maior obviamente.

Surge de Compressor em um FA T50

Surge de Compressor em um FA T50

Até este momento eu estava apenas especulando sobre o vídeo acima, até que achei em outro site o vídeo filmado pelos passageiros e aí tudo se clareou. vejamos:

Yıldırım çarpan THY uçağının içinden… | izlesene.com

Essas “faíscas” se parecem com aquelas fagulhas que se soltam de um disco de esmeril não é? Ou seja, algo típico de um metal atritando em outro.

Raios, quando atingem aviões, sempre o fazem pelas extremidades (tanto a entrada quanto a saída do raio), ou seja, os pontos comuns de danos são o radome, as pontas das asas, pontas dos estabilizadores horizontais e verticais. Desconheço literatura sobre raios atingindo motores ou capotas.

O mais provável que deve ter acontecido neste voo foi um “surge de compressor” durante a decolagem (ou pouso – lembrando-se sempre que quem analisa e sabe a verdade são os órgãos de investigação, estou apenas especulando com base técnica para evitar o erro de acreditarem que raios podem inflamar motores). O “surge” causou as “bolotas” de fogo. A severidade do “surge”, ou até mesmo uma falha de uma blade ou ingestão de objeto estranho causaram um travamento ou “roçamento” das pontas das aletas das turbinas na carcaça, causando as fagulhas.

Sim, claro que é assustador para os passageiros, mas do ponto de vista técnico nem é tão complicado…bem, isso porque eu não sou roteirista de Hollywood.

Claro que é muito mais legal noticiar que um raio parte um avião em 3, causa impacto, mas quer realmente saber o que um raio faz quando atinge um avião? Leiam este post.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
  • As pessoas aparentavam estar bem calmas apesar do foguinho expelido pelo motor. Naquele incidente da TAM (onde a tampa se desprendeu e o motor ficou exposto) tinha muita gente fiasquenta a bordo :)

    • Paulo Villar

      A única alteração que ouvi foi um “aahhh” quando as luzes se apagaram… Nem os passageiros poderão ser roteiristas! rsrs

    • Concordo contigo Lucas, mas não podemos comparar os brasileiros com os europeus nesse sentido. Temos o “sangue quente” e (infelizmente) muitos não tem o hàbito de voar. Sem falar que a midia brasileira acabou, nesses anos todos por inculcar na mente de uma maioria, que não possuem a mesma cultura e conhecimento que os frequentadores desse site, ideias que não corroboram com a realidade.

  • Luiz Rocha

    Se as pessoas tivessem a noção de que se pode voar com apenas um motor e que é possível desligar o motor danificado se fosse necessário, talvez pensassem que nem deveria ser TÃO grave assim né? Mas falar um monte de asneira é bem mais divertido.

    • Agora que tu falou, bateu uma curiosidade. Assim como um processador dual-core de 800MHz não tem 1.6GHz no total, também entendo que com um motor apenas a velocidade não caia pela metade. Mas quais são as consequências de um vôo se tornar monomotor em cruzeiro? Ele teria problemas para, por exemplo, ganhar altitude se necessário?

      • Luiz Rocha

        Eu prefiro deixar para os especialistas responderem (eu não o sou), mas eu sei que varia de aeronave para aeronave e depende também da fase e condição de vôo em que a pane ocorre. Com certeza a razão de subida será afetada, mas em que

      • Olá Lucas Timm, muita coisa precisa ser verificado em um vôo monomotor como peso, ventos e etc. Mas para cada tipo de aeronave existe um checklist para a situação além de uma tabela de performance para vôos desse tipo. Sim a uma queda no rendimento mas nada que possa afetar a segurança do vôo de forma contundente (em grandes jatos, porém em aeronaves a pistão principalmente bimotores como seneca, navajo, baron perda de motor é um quase acidente dependendo do peso da aeronave e habilidade dos pilotos), o que pode rolar é algum tipo de pânico e confusão dos pilotos o que já causou muitos acidentes no passado. Espero ter ajudado rs #)

      • Gustavo Pilati

        Como regra geral, num avião bi-motor leve, após a perda de um dos motores há uma perda de 70 a 80% da performance da aeronave!!

        No caso do Seneca III (EMB-810D) o teto de serviço é de 25.000ft (segundo manual…) porém com um dos motores inoperantes isso facilmente cai para aproximadamente 8 mil pés.

        Em aviões a jato há gráficos de desempenho que, conforme o peso da aeronave, se extrai deles a melhor altitude para voo monomotor. Essa descida da altitude de cruzeiro inicial para a melhor altitude monomotor é chamada de “Drift Down”.

        Existe tambem a chamada Vmc (Velocidade Minima de Controle), abaixo dessa velocidade não há mais controle lateral sobre o avião (a velocidade é tão baixa que há pouca atuação dos comandos para compensar a assimetria de potência com um motor inoperante). Entra nisso também o conceito de motor crítico e outras coisas mais técnicas que não são o foco do blog.

        Resumindo:

        A perda de um motor em voo resulta numa perda muito grande da performance da aeronave.

        Em aviões pequenos o maior perigo é durante a decolagem, em dias quentes e com o avião pesado, já que com toda essa perda de potência dificilmente o avião conseguirá subir…

        Já em aviões a jato existe uma sobra muito grande de potência em baixas altitudes, por isso a perda de um motor durante a decolagem, por exemplo, não é muito crítica do ponto de vista da performance da aeronave.

        Tem um caso muito famoso de um B757 da Thomson Fly que estava decolando de Manchester e engoliu um passaro logo após a Vr. O que aconteceu depois?

        Vejam o video :)
        http://www.youtube.com/watch?v

        • @Gustavo_pila:disqus , esse link do vídeo tá quebrado…

          • Gustavo Pilati

            Corrigido. Valeu Lito!

    • Gustavo Pilati

      Como regra geral, num avião bi-motor leve, após a perda de um dos motores há uma perda de 70 a 80% da performance da aeronave!!

      No caso do Seneca III (EMB-810D) o teto de serviço é de 25.000ft (segundo manual…) porém com um dos motores inoperantes isso facilmente cai para aproximadamente 8 mil pés.

      Em aviões a jato há gráficos de desempenho que, conforme o peso da aeronave, se extrai deles a melhor altitude para voo monomotor. Essa descida da altitude de cruzeiro inicial para a melhor altitude monomotor é chamada de “Drift Down”.

      Existe tambem a chamada Vmc (Velocidade Minima de Controle), abaixo dessa velocidade não há mais controle lateral sobre o avião (a velocidade é tão baixa que há pouca atuação dos comandos para compensar a assimetria de potência com um motor inoperante). Entra nisso também o conceito de motor crítico e outras coisas mais técnicas que não são o foco do blog.

      Resumindo:

      A perda de um motor em voo resulta numa perda muito grande da performance da aeronave.

      Em aviões pequenos o maior perigo é durante a decolagem, em dias quentes e com o avião pesado, já que com toda essa perda de potência dificilmente o avião conseguirá subir…

      Já em aviões a jato existe uma sobra muito grande de potência em baixas altitudes, por isso a perda de um motor durante a decolagem, por exemplo, não é muito crítica do ponto de vista da performance da aeronave.

      Tem um caso muito famoso de um B757 da Thomson Fly que estava decolando de Manchester e engoliu um passaro logo após a Vr. O que aconteceu depois?

      Vejam o video :)
      http://www.youtube.com/watch?v=9KhZwsYtNDE

  • Roberto Ellery

    Lito,

    Pelo que entendi do que você escreveu, um problema deste não necessariamente leva o motor a PT, ele pode ser reaproveitado. Mas acontece de ser PT em algum caso destes?

    • Não foi bem isso que eu quis dizer, não é complicado explicar o fato. Motores que sofrem “surges” na decolagem geralmente são trocados (há exceções) e os que emitem fagulhas assim são trocados antes do próximo voo.

      • Roberto Ellery

        Thanks!

  • Lito, em um fórum (em que você não posta a um bom tempo :-), lendo um tópico sobre esta notícia, alguns membros relataram danos em aviões causados por raios:

    Em um caso, foi um pequeno buraco na parte traseira da fuselagem e a anti-colision light de cima da cauda quebrada.
    No outro, queimou o radar e quebrou um pedaço do leme.
    Como é um fórum especializado, acho que dá pra confiar um pouco mais do que na imprensa :-)

    Procurando algumas imagens, a impressão que dá é que os raios gostam de detonar os extremos das aeronaves, que de alguma forma faz sentido, seguindo a lógica da teoria do poder das pontas.

    Afinal, apesar de raramente ocorrer danos, quais são os que geralmente acontecem, quando acontecem (se realmente acontecem)?

    • O que mais ocorre são pontos queimados e cabeças de rebite queimadas (como mostrado no post: http://www.avioesemusicas.com/raios.html). O que pode ocorrer também é queimas de equipamentos se a aeronave estiver no solo – em voo é raríssimo. Já vi delaminação de profundor em 737, mas quebra de pedaço nunca. O pararaio é localizado no radome, então o impacto ali é grande e como a antena está logo atrás poderia ocorrer falha do radar, mas também é raro.

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