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Novas especulações sobre o 777 desaparecido da Malaysia #MH370

Fim de ano chegando, depressão, pouca pauta.
Que tal dar uma repercutida em um dos maiores mistérios da aviação até o momento? Nem que para isso a matéria se baseie em pura especulação do famoso romancista francês Marc Dugain (não adianta me olhar assim, também não o conheço e a wiki em inglês só tem um parágrafo sobre ele).

A notícia é esta: “Ex-presidente de empresa aérea e famoso autor francês “diz” que houve “acobertamento” no desaparecimento do jato da Malaysia Airlines MH370, especulando que o jato pode ter sido “hackeado” e então derrubado pelos Estados Unidos”

Captura de Tela 2014-12-21 às 21.07.40

Como amanhã isso pode aparecer no G1 e UOL, vamos tratar de rebater algumas coisas já, com lógica e não especulação.

De acordo com Dugain, o MH370 foi derrubado próximo a Diego Garcia, a ilha britânica alugada para os Estados Unidos, que mantém uma base militar lá. Por que os americanos iriam querer uma base no meio do oceano Índico? Ué, você nunca jogou War quando pequeno?

Testemunhas oculares

O ex-presidente da Prometheus Proteus Airlines viajou até as Maldivas onde nativos disseram ter visto o grande avião branco com listras vermelhas e azuis voando baixo em direção a Diego Garcia. Várias outras testemunhas confirmaram ter visto também.

Bem, vocês já sabem o que penso (e o que a ciência diz) sobre testemunhas oculares, então não vou entrar nesta seara novamente.

Apenas questiono o seguinte: Entre as Maldivas e Diego Garcia temos aproximadamente 1300 km em linha reta. Esta é a distância aproximada entre o Rio de Janeiro e Salvador.

Agora me digam com sinceridade: se você está curtindo uma praia lá em Ipanema e vê passar um avião grande bem baixo, saberia dizer se ele está indo para Salvador? Tem certeza?
Ou colocando de outra maneira, uma diferença de apenas 2 graus de proa em 1300 km equivaleria a uma distância de 50 km no ponto de chegada. Apenas 2 graus de nariz! Nem com uma bússola você percebe dois graus! Como pode então os nativos saberem para onde o suposto avião voando baixo estava indo? E olha, voar 1300 km a baixa altitude vai combustível heim….

Hacking

Dugain especula – com várias outras hipóteses – que o Boeing 777 poderia ter sido sequestrado por um hacker. Em 2006, a Boeing patenteou um sistema de controle remoto usando um computador localizado dentro ou fora do avião. Esta tecnologia levou o romancista a ter a brilhante idéia de um sequestro remoto via software.

Pausa pra eu ir ali morrer de rir e já volto.

Pronto. Olha só, entre uma patente e a realidade existe a distância entre a voyager e a Terra. O Boeing 777 não pode ser comandado remotamente, nem pela Boeing nem pelo Kevin Mitnick e muito menos por hackers de urnas eletrônicas.

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A imagem acima é um print dos softwares operacionais e de controle de um gabinete AIMS do 777. Esse print vem diretamente da impressora do cockpit. O AIMS é o cérebro, o HAL 9000 do avião da Boeing. É o AIMS que controla e monitora todos os sistemas. Cada gabinete possui vários módulos. O gabinete esquerdo está geralmente em comando e o direito em “standby”, monitorando o que o esquerdo faz e comparando resultados. Cada um dos vários módulos possui um software de controle e um software operacional, além de outras camadas de software dependendo da função do dito cujo. Qualquer discrepância em qualquer software, causa uma falha no módulo de processamento que o próprio AIMS monitora.

Para um hacker acessar tudo isso aí, teria que ser funcionário da engenharia da Malaysia e ao mesmo tempo da engenharia da Boeing, e mesmo depois de mudar tudo que “quisesse”, não conseguiria controlar o avião remotamente.

E por que? Porque mesmo com os dois gabinetes AIMS mortos, ainda é possível o piloto controlar o avião e seu FBW (Fly By Wire) de dentro do cockpit. Redundância, romancista, redundância.

Fogo a bordo

O escritor também sugere que um incêndio poderia levar a tripulação a desativar os sistemas elétricos, incluindo os sistemas de transmissão de rádio.

Se ele conseguir me explicar como um sistema NÃO ESSENCIAL de SATCOM permaneceu energizado e respondendo a pings de satélite durante 6 horas (de acordo com a INMARSAT) e sistemas ESSENCIAIS com tripla redundância – como é o caso do rádio VHF do comandante – se desligou, a gente pode conversar. Até forneço os esquemas elétricos a ele. É difícil entender que não se perde sistema essencial em um avião sem antes perder sistemas não essenciais? Não foram escritores de novela que projetaram aviões comerciais!

A garrafa de extinção encontrada nas Maldivas

“Dugain encontrou-se com o prefeito da Ilha Baarah, que lhe mostrou fotos de um estranho artefato encontrado na praia duas semanas após o desaparecimento do MH370 e antes que os militares das Maldivas tomassem posse do objeto. Dois experts em aviação e um militar local concluíram que era um extintor de incêndio de um Boeing

Uau! Simplesmente Uau! Entre milhões de peças que compõem um avião, apenas 1 (um!) artefato foi encontrado nas Maldivas. Esta é a peça:

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Assim como eu disse que aqueles restos encontrados no Amapá não eram de avião antes de sair o resultado oficial, também digo que isso não parece ser material aeronáutico. E AFIRMO que de maneira alguma isso é um extintor de motor ou de porão de carga de um Boeing 777. Os suportes de fixação de uma garrafa no avião são completamente diferentes deste negócio aí.

Eis os desenhos da fábrica:

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É possível perceber que os suportes de fixação são “lugs” achatados e com furos, e não barras como no artefato acima.

Escondendo o jogo

Dugain observa que as buscas ao sul do oceano Índico foram baseadas nos dados de satélite da empresa britânica Inmarsat – a última organização a receber sinais da aeronave – e que a empresa é “muito próxima as agências de inteligência”.

Pronto, para todo conspiracionista, é muito fácil esconder tudo de todo mundo – menos deles, claro. O fato de não ter aparecido nenhuma parte do avião em nenhum lugar do mundo não conta. Os americanos devem ter catado tudo, só esqueceram da garrafa de extinção, para dar aquele ar de que algo está sendo encoberto. O fato do radar primário dos Malaios ter capturado o avião cruzando seu território também não conta, afinal os americanos de Diego Garcia já tinham tudo planejado e a Inmarsat iria forjar os dados de satélite e o efeito doppler. Será que tem dedo do Snowden?

Conclusão

Um monte de especulações sem nenhuma base lógica, técnica e/ou científica feita por um escritor de novelas que vai ganhar o mundo e deixar as pessoas coçando a cabeça: “será?”.

Nada em que o Dugain se baseou faz sentido.

Obviamente há coisas inexplicáveis neste caso, e que já mencionei antes, sendo a principal o fato do radar militar primário ter identificado um alvo não identificado sobrevoando a Malásia e a força aérea não tomar qualquer ação a respeito. Erro humano é uma explicação, mas deixa a desejar, baseado nas respostas vagas das autoridades locais.

Termino da mesma maneira que terminei outros textos sobre o Malaysia MH370: enquanto não acharem qualquer evidência do desastre, tudo que se falar a respeito é pura especulação e história pra boi dormir notícia para vender clicks.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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